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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para COB, Wallace tem mais responsabilidade como campeão olímpico. Será?

Lipe e Wallace comemoram ouro do vôlei em volta olímpica no Maracanãzinho - REUTERS/Dominic Ebenbichler
Lipe e Wallace comemoram ouro do vôlei em volta olímpica no Maracanãzinho Imagem: REUTERS/Dominic Ebenbichler

03/02/2023 13h30

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O Comitê Olímpico do Brasil, por meio de seu Conselho de Ética, decidiu suspender Wallace preventivamente das competições do sistema COB e suas afiliadas, acatando o pedido da Advocacia-Geral da União (AGU). O caso gira em torno do post em que o atleta perguntava a seus seguidores no Instagram se dariam um tiro na cara do presidente Luís Inácio Lula da Silva. Ele tem cinco dias úteis para responder.

A coluna teve acesso à integra do documento.

O Conselheiro Relator, Ney Bello, fez questão de ressaltar a importância do exemplo no esporte, do poder que grandes atletas, especialmente os campeões olímpicos, têm na sua comunicação e como inspiração para a sociedade.

O texto menciona Maria Esther Bueno, Maria Lenk, Pelé, Jesse Owens, Aber Bikila, Roberto Dinamite, e questiona: "Que exemplo é possível extrair de um post como esse que os autos mostraram? Que tipo de exemplo fica para uma geração quando um atleta de alto rendimento confessadamente faz o que os autos dão notícia?"

Não sei o quanto o fato de ser atleta deveria pesar mais quando de seu julgamento por um crime. Da mesma forma que não serve de atenuante — ao contrário do que possa parecer pela enormidade de pano passado para famosos.

Mas o COB não é polícia nem integra o sistema judiciário. Ao Comitê cabe lidar com o aspecto esportivo. E o universo olímpico, até exageradamente, tenta coibir ao máximo as manifestações políticas, raciais ou ideológicas. A meu ver, trata-se de posicionamento exagerado, retrógrado e, francamente, em tempos de redes sociais, inútil.

De todo modo, ele explica esse trecho do documento: "A liberdade de expressão de atletas, dirigentes e corpo técnico não difere muito daquela atribuível a qualquer cidadão".

Ao contrário do que me pareceu na leitura inicial, ele não tenta isentar o povo do esporte de responsabilidades. E sim, agregar responsabilidades, na medida em que todos sabem de sua relevância e das regras do movimento.

Claro que o mais importante disso tudo é: Wallace cometeu um crime. Fez apologia do uso de armas e do assassinato do presidente. Deve pagar por isso como um cidadão comum.

E precisa pagar, porque, como conclui o despacho do COB: "Minimizar atos dessa natureza implica não apenas uma omissão impiedosa na defesa da racionalidade, como também sinaliza equivocadamente no sentido da normalização do absurdo, permitindo que atos se repitam e que o caos se instaure."

Minha frase favorita ainda é a do jornalista Bruno Paes Manso, no excelente podcast "República das Milícias": a impunidade é a semente do próximo crime.