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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Alicia: Aceitem que o Palmeiras é o melhor da América, e não é de ontem

Palmeiras ergue a taça da Copa Libertadores pela terceira vez após vencer final contra o Flamengo em Montevidéu - Juan Mabromata / AFP
Palmeiras ergue a taça da Copa Libertadores pela terceira vez após vencer final contra o Flamengo em Montevidéu Imagem: Juan Mabromata / AFP
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

28/11/2021 12h42

Durante todo o dia ontem, à espera da Final da Libertadores, eu só conseguia pensar em José Silvério. Na narração do título paulista do Palmeiras sobre o Corinthians, em 1993: o fim da fila, o primeiro que eu vi, a primeira vez que vi meu pai soluçar de emoção e o anel superior do Morumbi tremer.

"Agora eu vou soltar a minha voz" é talvez uma das grandes representações do sentimento de ser palmeirense. De ganhar dois campeonatos brasileiros, duas Copas do Brasil e uma Libertadores em pouco mais de cinco anos, e ainda assim se sentir questionado. De ver uma oscilação na temporada de repente tirar o clube da elite do país (lembram das enquetes "Quem é o melhor time do Brasil: Flamengo ou Galo?"), de ouvir que uma temporada histórica poderia ser mero acidente.

Mas o Palmeiras não é acidente. Abel Ferreira não é acidente. Weverton, Gustavo Gomez, Raphael Veiga, as crias da Academia não são acidente. Ser campeão com gol de Deyverson não é acidente. Não, pera, isso talvez seja acidente.

Não sei se o técnico português seguirá contestado. Espanta-me que ainda fosse, mesmo antes do bicampeonato. Em um ano no cargo, ele ganhou duas das três Libertadores do Palmeiras (mais do que clubes centenários de muita tradição), além de uma Copa do Brasil. Praticamente sem férias, sem reforços e sob o massacre de um calendário que, na Europa, seria intolerável.

Ah, mas a chave da Libertadores em 2020 era fácil. Precisou do VAR para eliminar o River. A final contra o Santos foi horrível. Deu vexame no Mundial. Time retranqueiro. Covarde. Futebol feio. Não tem Copinha.

Não cessaram as críticas e as tentativas de diminuir os feitos alviverdes. Enquanto isso, Abel seguia seu plano. Alimentava-se da descrença, construindo sobre ela seu lema de trabalho: todos somos um, contra tudo e contra todos.

Eu disse na live de aquecimento para a Final, na sexta, que a passagem de Abel pelo Palmeiras já era histórica. Agora, arrisco dizer que ele se torna o maior treinador da história moderna do clube, desbancando nomes como Luxemburgo e Felipão. Volto a dizer: em menos de treze meses. Como desmerecer este homem?

Normalizamos falar bem deste elenco do Palmeiras, agora bicampeão da América. Como se poucos méritos coubessem ao treinador. Como se fosse recheado de estrelas. Como bem frisaram alguns colegas nas análises da semana que passou, na disputa posição a posição, possivelmente apenas Weverton e Gustavo Gomez teriam titularidade garantida no Flamengo. Há um abismo entre os plantéis no quesito talento individual.

O que faltou em talento, porém, o Palmeiras compensou com trabalho. Superioridade física, disciplina tática, estudo e planejamento. Se me permitem certa dramaticidade, sangue nos olhos, suor e lágrimas.

Quis o universo que a consagração deste time começasse em um erro do talentosíssimo Andreas Pereira e terminasse nos pés de Deyverson. O atleta que desafia adjetivos. Meme ambulante, chip solto, Oscar por performance dramática. E, agora, junto com o também improvável Breno Lopes, ídolo de um título inesquecível. Nada mais Palmeiras.

Por diversos motivos que não caberiam nesta coluna, fatos que remontam à fundação do clube e sua origem operária, todo palmeirense se sente um pouco perseguido. Às vezes justificadamente, às vezes não. Quis, então, o destino que o melhor momento do Palestra Itália acontecesse justamente pelas mãos de mais um de tantos imigrantes desacreditados aportados nesta terra. Turrão, bocudo, reclamão, aparentemente vacinado contra as opiniões sobre suas escolhas. Chato.

Já faz um tempo que o Palmeiras é um dos maiores clubes da América. Espero que o tricampeonato da Libertadores, selado num espaço de dez meses, finalmente prove aos não convencidos, em especial aos palmeirenses descrentes, machucados pelo tempo, que o alviverde imponente é "o maior". Não importa o que diga esta ou qualquer jornalista. Hoje, o Palmeiras é melhor do que todos.

Sintam-se vingados. Soltem a sua voz. Assim que passar a ressaca, claro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL