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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Medalhas complexas do Brasil: programas sociais da esquerda e apoio militar

Alison dos Santos comemora após conquistar o bronze nos 400m com barreiras - Andrej ISAKOVIC / AFP
Alison dos Santos comemora após conquistar o bronze nos 400m com barreiras Imagem: Andrej ISAKOVIC / AFP
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

03/08/2021 16h02

Em uma noite/madrugada/manhã (alguém mais aí perdendo a referência dos dias?) recheada de medalhas e conquistas históricas para o Brasil, foi impossível não se apaixonar por Alison dos Santos.

O homem é puro suco de carisma. Quem ainda não viu, pelo amor da deusa, veja. Ele é o Brasil bom, aquele que a gente tanto tem ressaltado, responsável por resgatar nosso orgulho.

Levou o bronze na prova mais forte da história dos 400 metros com barreiras: a lenda Karsten Warholm voltou a bater o recorde mundial, todos os três primeiros fizeram sua melhor marca da vida e teriam batido o recorde olímpico. O tempo de Alison lhe garantiria ouro no Rio.

Cria de programas sociais da gestão PT de sua cidade natal, São Joaquim da Barra-SP, Alison é atleta do Clube Pinheiros e integrante do Programa Atletas de Alto Rendimento (PAAR), do Ministério da Defesa. Hoje, ele foi o primeiro brasileiro nestes Jogos a bater continência no pódio.

Dos 302 integrantes do Time Brasil em Tóquio, 91 são militares. Um terço, minha gente. Elas e eles recebem salário (algo na casa de 4 mil reais), assistência médica e acesso às instalações esportivas das Forças Armadas.

Uma delas é Kahena Kunze, que, ao lado de Martine Grael, entrou para o seletíssimo panteão de bicampeãs e bicampeões olímpicos ao vencer a regata 49er FX nesta madrugada. Se você perdeu a conta, já são nove medalhas da família Grael na vela: cinco de Torben, pai de Martine; duas de Lars, o tio; e duas douradas da própria.

Thiago Braz é outro. Ouro em 2016 no salto com vara, garantiu o bronze hoje, depois de muito penar depois do Rio. Largado pelo técnico estrela Vitaly Petrov ainda em 2018, foi demitido do Pinheiros na pandemia, oito meses antes do fim do contrato, por não valer o investimento.

Bia Ferreira, candidata ao ouro no boxe, é terceiro-sargento da Marinha. A modalidade, aliás, é uma que historicamente revela jovens advindos de programas sociais. Abner Teixeira, bronze em Tóquio, começou no esporte por conta do "Mãos Para o Futuro", atualmente paralisado por falta de verba. Wanderson Teixeira, o Shuga, eliminado nas quartas de final, treina até hoje no "Luta Pela Paz", no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.

Vitória Rosa, eliminada nos 200 metros rasos, mas ainda com chance no revezamento, reclamou da falta de patrocínio e ressaltou que só chegou até os Jogos por conta do apoio da Marinha.

Em um país que se polarizou ao ponto de as pessoas deixarem de acreditar em vacina e onde a presença militar ainda causa arrepios, o esporte vem para lembrar que nada é simples por estas bandas. Projetos sociais associados à esquerda caminhando de mãos dadas com programas das Forças Armadas (originalmente também concebidos pela esquerda, quem diria) para garantir a sobrevivência do nosso alto rendimento. É pouco para o tamanho e potencial do Brasil, mas é o que temos para hoje.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL