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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A Marta que eu perdi

Marta disputa as Olimpíadas de Tóquio pela seleção brasileira - Sam Robles/CBF
Marta disputa as Olimpíadas de Tóquio pela seleção brasileira Imagem: Sam Robles/CBF
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

31/07/2021 12h31

No jornalismo, devemos evitar nossos vieses, nossas histórias, nossas emoções, nossas experiências pessoais. Quase nunca consigo, mas hoje será impossível.

Falamos tanto da partida olímpica da rainha Marta durante o dia ontem, mas a minha Marta eu perdi à noite. A minha Marta deixa uma saudade maior que a vida.

A minha Marta (a minha família) reflete a história de tantas outras mulheres do nosso país, de tantos casos olímpicos. De muitos ouros contra a adversidade - e algumas tragédias.

A minha Marta fez muito com pouco, soube ser mãe com exemplos difíceis, criou mães, perpetuou e distribuiu amor. A minha Marta deixa, como a Marta do Brasil, um legado indestrutível.

Sempre que ouço sobre atletas criadas e criados por mães solo (a seleção americana de basquete masculino é um exemplo incrível), penso na minha família. Nas tantas mulheres da minha vida que saltaram obstáculos que, para muitos, seriam intransponíveis, e saíram do outro lado vitoriosas. Exaustas e vitoriosas. Exaustas porque mães em uma sociedade estruturalmente machista, racista, classista; vitoriosas porque mães de pessoas boas, saudáveis, preparadas para a vida.

Hoje, eu deveria escrever sobre a histórica medalha de bronze de Luisa Stefani e Laura Pigossi, no tênis. Ou a sonolenta vitória do futebol masculino sobre o Egito. Ou a quebra do polêmico recorde feminino nos 200 metros rasos, depois de 31 anos. Ou o domínio absurdo de Caeleb Dressel nas piscinas.

Mas, hoje, eu só quero chorar.

Um colega disse outro dia: o esporte favorito do brasileiro é vencer. De fato, nunca estamos preparadas e preparados para a perda. Mesmo quando tudo aponta na direção da derrota, seguimos acreditando. Eu acreditava. Ainda não estou convencida de que nunca mais veremos a nossa Marta. De que a pandemia, entre tantas outras coisas, não permitiu que ela conhecesse meu filho.

Sei que preciso focar em tudo que ficou de bom, em todos os momentos lindos que nos trouxeram até aqui. Porque eles são eternos e viverão conosco para sempre. Mas, hoje, acho que vou me permitir apenas chorar esta perda e, virtualmente, abraçar o meu time, a minha família, que talvez nunca saiba o que a nossa Marta e todos eles significam para mim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL