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Alicia Klein

Seu chefe mandou você se f****. E aí?

Fernando Diniz reclama durante a partida entre Corinthians e São Paulo - Daniel Vorley/Daniel Vorley/AGIF
Fernando Diniz reclama durante a partida entre Corinthians e São Paulo Imagem: Daniel Vorley/Daniel Vorley/AGIF
Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

07/01/2021 14h28

O Brasileirão fervendo, uma vitória histórica do Palmeiras contra o River, o Santos com reais chances de garantir uma final nacional na Libertadores passando pelo Boca, sem falar na final da Copa do Brasil.

Tudo isso rolando nas próximas semanas e a gente, hoje, vai falar de abuso psicológico? De treinador xingando jogador? Ah, quem se importa, quando o líder do campeonato foi goleado por um time da metade de baixo da tabela e o outro concorrente ao título tomou a virada num clássico, aos 49 do segundo tempo.

Gente, a discussão de ontem entre Fernando Diniz e Tchê Tchê deveria acender um alerta no futebol. Precisamos parar de normalizar situações extremas sob a justificativa de que é um povo tão bem remunerado, que não tem direito a reclamar na gerência.

Imagine-se no seu ambiente de trabalho. A chefia está insatisfeita com sua performance, quer discutir suas entregas. Você rebate e é ignorado, então questiona: "Não posso falar com você?" Ao que a chefia responde, cuspindo na sua cara: "Não pode mesmo! Seu ingrato do caralho, seu perninha do caralho, seu mascaradinho. Vai se foder."

Ah, mas foi coisa de escritório, é o jeito de cobrar, conversaremos internamente, era só pra motivar. Não. É assédio. Ponto.

Diniz, formado em psicologia (!), é só mais um numa linhagem de treinadores que "cobram" os atletas pública e violentamente (escola Vanderlei Luxemburgo de xingamento motivacional). Só para esclarecer: não estou sugerindo que palavrões sejam banidos, que o técnico permaneça em silêncio durante 90 minutos ou que peça por obséquio para o volante fazer a gentileza de, se possível, se não for incômodo, a fineza de se posicionar da maneira correta para, com graça, marcar o atacante adversário.

Mas existe um abismo entre gritar na beira de campo para acertar o time, de fato cobrar desempenho de uma pessoa da sua equipe, e mandar que ela se foda. Não só é desnecessário como pode se mostrar nefasto. Tchê Tchê acabou expulso contra o Red Bull Bragantino, num lance idiota, de descontrole. Nada a ver com o embate com o chefe? Será?

Claro, o São Paulo lidera o campeonato desde o início de dezembro, então questionar o estilo de gestão de Diniz não é algo simples. No papel, ele não tem o melhor elenco e, apesar das críticas sobre sua falta de versatilidade e alguma instabilidade em momentos decisivos, o tricolor está cada vez mais próximo do título que encerrará um longo jejum de júbilos. Atropelou grandes rivais, em vitórias inquestionáveis.

O receio é justamente que bons resultados sigam justificando comportamentos abusivos, como há muito é o caso no esporte. São dezenas de denúncias no universo olímpico, décadas de crianças destruídas psicologicamente em nome de algumas medalhas.

Por que aceitar no esporte algo que não toleraríamos fora dele? Porque os salários são obscenos? Qual o limite então, dependendo do soldo: ofensa verbal, tapa na cara, cusparada, arremesso de objetos? O mundo já está violento demais. No campo ou fora dele, chega de agressão.