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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que é e como funciona o Draft da NBA que acontece hoje à noite

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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

23/06/2022 04h00

A noite do Draft é uma das mais importantes de todo o calendário da NBA; é quando futuros são feitos ou destruídos, quando destinos de franquias inteiras podem mudar em fração de segundos, que a próxima geração de jogadores entra na maior liga do basquete do mundo com os holofotes sobre suas cabeças.

Mas você sabe como funciona o Draft? Para nós, no Brasil, é um conceito quase alienígena, que segue uma lógica e regras muito diferentes do que estamos acostumados; não à toa, portanto, o evento em si gera inúmeras dúvidas e questionamento mesmo entre os fãs do esporte. Então, como hoje (quinta-feira, dia 23 de junho) é o dia do Draft 2022 da NBA, é um bom momento para explicar aqui exatamente o que é, e como funciona, o Draft da NBA - preparando vocês, espero, para aproveitarem melhor o evento que começa às 20h de Brasília, com transmissão pela ESPN2.

O que é o Draft?

Em poucas palavras, o Draft é o processo pelo qual jogadores amadores oficialmente entram na NBA.

Ao contrário do futebol, onde os times tem suas categorias de base e simplesmente assinam com esses jovens jogadores um contrato profissional, nos esportes americanos essa passagem é feita de forma organizada e estruturada, com o objetivo de manter uma certa paridade entre as equipes.

O processo é simples: cada time tem uma escolha em cada uma das duas rodadas do recrutamento (a princípio, pelo menos, porque essas escolhas podem ser e frequentemente são negociadas pelos times uns com os outros), e seguindo uma ordem pré-definida (mais sobre isso daqui a pouco) os times vão "escolhendo" os jogadores amadores entre as opções disponíveis no Draft - naturalmente, um jogador que foi escolhido por um time não está mais disponível para os times que escolherão depois.

O time que usou uma escolha de Draft em um jogador, então, tem exclusividade nos direitos de assinar um contrato (que segue algumas diretrizes próprias quanto a valor e tempo máximo/mínimo que pode ser ofertado) com o atleta; a não ser que esse time negocie os direitos do jogador, o atleta em questão só pode assinar pelo time que o escolheu.

Dessa forma, os times se "revezam" escolhendo os amadores que estão fazendo o salto para a NBA um de cada vez, com cada time naturalmente querendo garantir para si os mais talentosos e promissores.

O que determina os jogadores disponíveis em um Draft?

Os jogadores disponíveis no Draft - o que nós chamamos de a "classe" do Draft - é composta por todos os jogadores que se inscreverem para tal.

Nos meses anteriores ao evento em si, os jogadores se registram para participarem do Draft daquele ano, e isso compõe um bolo de opções para as equipes - que passarão os meses seguintes analisando e estudando os jogadores em questão, também chamados "prospectos" (ou prospects). Ou seja, os times naturalmente sabem com antecedência quais são os jogadores que estarão disponíveis e se preparam de acordo.

Que jogadores podem se inscrever no Draft?

Existe algumas regras definindo que jogadores podem ou não se inscreverem no Draft - e alguns contextos que determinam quais decidem ou não fazê-lo.

Para ser elegível para um Draft, você precisa preencher dois pré-requisitos básicos: ter mais de 19 anos (no caso, completar 19 no ano do Draft em questão) e já ter se passado pelo menos um ano desde que você terminou o colegial. Cumpridos esses dois requisitos e caso você nunca tenha antes passado pelo Draft, você está livre para se inscrever em uma determinada classe.

Nos Estados Unidos, onde o esporte é altamente popular desde o nível ginasial e os principais jogadores já são conhecidos muito antes de completarem 19 anos, é comum que os principais prospectos - os mais bem cotados, mais promissores - entrem no Draft na primeira oportunidade que tem, assim que completam 19 anos. Esses são os chamados "one-and-done", o principal caminho para os principais talentos rumo à NBA: terminar o colegial, passar esse um ano de espera obrigatória jogando por uma universidade ou algum time profissional fora da NBA, e dai entrar no Draft na primeira oportunidade possível.

Mas nem todos os jogadores entram no Draft na primeira oportunidade. É comum ver jogadores mais velhos que passam dois, por vezes quatro anos na universidade antes de se declarar para a NBA. Em geral, isso pode depender de como sentem suas chances em um determinado ano; se o jogador vê com bons olhos suas chances de ser Draftado em uma posição confortável (ou mesmo de ser Draftado, ponto) ele pode optar por se inscrever; caso ache que mais um ano jogando pode melhorar suas chances de ser escolhido ou sua posição, não é raro ver jogadores optando por voltar para mais um ano. Vale lembrar que, uma vez passando pelo Draft, o jogador não está mais elegível para jogar ou receber bolsas de estudo nas Universidades, então é muito comum que jogadores cujo futuro na NBA não está garantido optem por concluir sua educação e tirar um diploma universitário antes de se arriscar no Draft.

A mesma lógica vale para jogadores internacionais: eles também podem se candidatarem assim que fazem 19 anos. A diferença é que, como na Europa (ou outras ligas) não existe o Draft, muitos desses prospectos fora dos EUA já tem contratos com times dos seus países, e já estão recebendo para jogarem profissionalmente - o que pode reduzir o interesse desses jogadores na NBA em si. Também é comum vermos o chamado "draft and stash", quando um time seleciona um jogador internacional e, ao invés de imediatamente assinar um contrato com o jogador, ao invés disso opta por deixar o atleta jogando onde estava durante seus anos de desenvolvimento para só depois traze-lo para a NBA (o time da NBA, nesse caso, continua tendo os direitos do jogador selecionado).

Existe também uma data limite para o Draft: se até os 25 anos você não tiver se inscrito, você é automaticamente incluído na classe daquele ano. Ou seja, eu já passei pelo Draft da NBA, e se você tiver mais de 25 anos, o mesmo é verdade de você!

O que acontece com jogadores que não são escolhidos?

Se as 60 escolhas do Draft passaram e um jogador inscrito não foi escolhido por ninguém, ele ainda oficialmente faz parte dos profissionais que podem jogar na NBA; a diferença é que seus direitos não estão atrelados a nenhum time e, portanto, o jogador vira um agente livre que pode assinar com quem ele quiser.

Como é determinada a ordem do Draft?

Como os 30 times da NBA selecionam os jogadores de um mesmo grupo, é lógico que os melhores jogadores tendem a sair nas primeiras escolhas; de fato, a escolha #1 do Draft é um dos ativos mais cobiçados do esporte, e a chance de uma equipe adquirir uma estrela que realmente faça a diferença.

Por esse motivo, a NBA segue a regra padrão dos esportes americanos de que os piores times tem direito às primeiras escolhas, e vice versa; a ordem do Draft é a ordem inversa à campanha das equipes na temporada regular. Isso faz parte da identidade de paridade que a NBA visa construir, dando aos piores times a chance de pegar os melhores jogadores e limitando os melhores times os atletas que não são tão bem cotados, de forma que no médio prazo todos os times tendam ao meio e tenham as mesmas chances de competir. De fato, entre todos os mecanismos que a NBA tem estabelecido para atingir esse fim, o Draft e o teto salarial são os mais impactantes.

Mas esse mecanismo cria um problema: agora os times que já não são bons tem incentivos para serem os piores possíveis, e equipes começaram a perder de propósito para ter a pior campanha da liga - e portanto a valiosa escolha #1. Como a NBA combate isso? Com a chamada loteria do Draft.

O que é a loteria do Draft?

Como o nome indica, a loteria é literalmente um sorteio, feito pela NBA para definir os times que ficam com as quatro primeiras escolhas do Draft. Esse foi o mecanismo para desincentivar os times a perderem de propósito - o chamado "tanking" - já que agora esse esforço para perder não garante a você as melhores escolhas necessariamente.

Participam da loteria todos os times que ficaram de fora dos playoffs, 14 no total - os chamados "times de loteria" - mas nem todos tem as mesmas chances de serem escolhidos. Os três times de pior campanha possuem as mesmas probabilidades de serem sorteados para o #1 - 14% cada - e a partir disso as probabilidades vão diminuindo gradativamente até chegar no melhor time de loteria, que tem apenas 0,5% de chance.

Probabilidades de cada time de loteria ter cada escolha após o sorteio, do pior para o melhor - Tankathon - Tankathon
Probabilidades de cada time de loteria ter cada escolha após o sorteio, do pior para o melhor
Imagem: Tankathon

Usando essas probabilidades e um sistema de 1001 combinações numéricas, a NBA sorteia sucessivamente as quatro primeiras escolhas do Draft, que podem ser qualquer um dos 14 times; após isso, o resto do Draft segue a ordem reversa normal de classificação. Acontece do pior time ter de fato a primeira escolha, sim, mas acontece também dos melhores times terem sorte e levarem o grande prêmio para casa.

Com isso, acho que cobrimos o principal do Draft; ainda tem muito mais para falar e aprofundar, mas para começar, esse é um bom resumo do que você precisa saber para apreciar a noite mais caótica do ano na NBA!