PUBLICIDADE
Topo

14 Anéis

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Semifinais definidas: quem pode evitar o ouro dos EUA no basquete masculino

Luka Doncic fez 85 pontos e é quem mais pontuou no torneio olímpico até aqui - Gregory Shamus/Getty Images
Luka Doncic fez 85 pontos e é quem mais pontuou no torneio olímpico até aqui Imagem: Gregory Shamus/Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

Colunista do UOL Esporte

03/08/2021 14h43

E então sobraram quatro.

Austrália, Estados Unidos, França e Eslovênia são os semifinalistas do basquete masculino nas Olimpíadas, e agora esses quatro timaços vão disputar entre si o ouro dos Jogos Olímpicos de Tóquio - uma medalha que, inclusive, seria inédita a três desses competidores. Os Estados Unidos, é claro, são os atuais tricampeões mundiais e recordistas com 15 ouros olímpicos, mas são os únicos do grupo; a França conquistou "apenas" duas medalhas de prata, e a Austrália jamais conseguiu uma medalha masculina no basquete em Olimpíadas. A Eslovênia, na verdade, é a sua primeira vez que sequer PARTICIPANDO de uma Olimpíada na modalidade, e já tem a chance de fazer história.

Esse grupo de semifinalistas não é uma surpresa: junto da atual campeã mundial Espanha - eliminada pelos Estados Unidos nas quartas de final - o trio EUA-França-Austrália já tinha chegado a Tóquio como os grandes candidatos a medalhas, talvez as quatro principais seleções do mundo na atualidade. Novamente, a Eslovênia é quem destoa: embora fossem os atuais campeões europeus, os eslovenos sequer estavam classificados para as Olimpíadas e precisariam passar por um grupo extremamente duro no Pré-Olímpico de Kaunas, que incluia a dona da casa e favoritíssima seleção da Lituânia. Mas não só a Eslovênia passou por cima dos lituanos e chegou até as semifinais em Tóquio, como fez isso com a melhor campanha de todo o torneio até aqui. Nenhum time tem sido tão dominante no Japão como os campeões europeus, e apesar da falta de tradição eles precisam ser considerados sérios candidatos a medalha.

Ajuda muito que a Eslovênia tem o jogador que eu considero o melhor jogador de basquete FIBA do mundo na atualidade, e com alguma folga. Luka Doncic estreou nas Olimpíadas enfiando 48 pontos na Argentina, e tem sido imparável desde então: são 26 pontos, 10 rebotes e 8 assistências por jogo para Luka, e ele é o maestro do maravilhoso recital que a seleção eslovena oferece toda vez que pisa em quadra. Ele consegue pontuar contra qualquer defensor e de qualquer lugar da quadra, e no momento que a defesa se compromete um pouco a mais na ajuda defensiva e abre um mínimo de espaço, Doncic usa seus passes maravilhosos para achar seus companheiros livres para uma chuva de três pontos. Ele é imparável, seja na NBA ou na FIBA, e seu brilhantismo é o principal motivo dos eslovenos não só chegarem até aqui, mas chegarem com chances bem reais de medalha.

Mas é um erro achar que essa seleção é só Luka carregando um bando de inúteis nas costas. Luka é o motor do time e se trocasse ele por qualquer outro jogador do planeta a Eslovênia não chegaria até aqui, é verdade, mas o que faz o todo funcionar tão bem é o quanto o resto do time completa Luka: excelentes arremessadores que se movimentam muito bem sem a bola, fazem as mesmas leituras e defendem muito bem. Não são jogadores que dominarão partidas sozinhos, mas os cinco em quadra funcionam como um só, enxergando as mesmas oportunidades e sempre estando um passo à frente da defesa, o que funciona perfeitamente para tirar o melhor do talento mágico de Luka, potencializando assim o coletivo. É lindo de se ver, e chegam fortes na briga pela medalha.

O grande desafio da Eslovênia em busca da tão sonhada medalha será a França, em partida disputada na quinta feira, dia 05/08, às 8h de Brasília. Os franceses não tem uma estrela do nível de Luka, mas tem um time mais profundo e experiente, que conta com seus próprios astros (dadas as devidas proporções). Deve ser um embate bastante interessante: muito da força da França vem da sua defesa, e eu já falei antes sobre como as regras da FIBA não só tornam a proteção de aro de Rudy Gobert ainda mais dominante, mas como elas tornam mais difícil atacá-la. O simples espaçamento para forçar Gobert a defender no perímetro - que nós vemos funcionar na NBA - não é tão eficaz na FIBA, ao ponto de que a França chegou a jogar com dois pivôs em quadra ao mesmo tempo contra os EUA, e os americanos não foram capaz de castigar ofensivamente enquanto sofriam com o tamanho e fisicalidade do garrafão francês.

A Eslovênia não é um time particularmente alto ou forte, e deve sofrer de maneira semelhante na área pintada contra a força física dos franceses; mas, por outro lado, são muito mais bem equipados para atacar a defesa de Gobert. Simplesmente abrir cinco jogadores no perímetro não é suficiente na FIBA, mas a Eslovênia tem na sua maior força não apenas os chutes de fora, mas como trabalham a bola para chegar até lá: passes curtos, cortes, movimentação em velocidade, todos eles atributos fundamentais para conseguir abrir espaço na quadra menor da FIBA. Não basta ser bom chutando de três, você tem que ser bom criando esses chutes a partir de movimentação de bola, e a Eslovênia é talvez o melhor time das Olimpíadas no quesito - e, claro, eles tem o melhor jogador do torneio em Luka. Duelo de gigantes.

Do outro lado da chave, os EUA tentam continuar sua dominação olímpica, mas não tem sido fácil. Mais do que talvez qualquer outra seleção americana na memória recente, esse time dos EUA tem sofrido demais na trajetória: foram diversos sustos em amistosos e até mesmo uma derrota sofrida na sua estreia em Tóquio contra a França - sua primeira em 17 anos nos Jogos Olímpicos. Mas a equipe também se recuperou bem desde então, e tem conseguido mostrar melhor o que faz dela a eterna grande favorita ao ouro.

Contra a Espanha, em particular, os dois lados - o bom e o ruim - da seleção americana estiveram em evidência. Nós vimos a conhecida fórmula dos EUA para o sucesso no basquete FIBA, e quando funciona, é espetacular: defesa muito forte e agressiva que força turnovers e rebotes longos, que os americanos usam para sair em transição e pontuar com facilidade em contra-ataque. Sempre que os EUA conseguiam acelerar o jogo e pegar a defesa espanhola desmontada, era um massacre: era ataque fácil à cesta e muita movimentação de bola para conseguir chutes de três completamente livres, que acabaram sendo fundamentais para os Estados Unidos virarem o que chegou a ser uma desvantagem de 17 pontos no primeiro tempo. E, claro, contar com os melhores jogadores do planeta - em especial Durant, mais uma vez dominante - ajuda quando tudo mais falha.

Mas essa desvantagem de 17 pontos também mostrou novamente os problemas americanos: sofreram mais uma vez contra o tamanho do garrafão da Espanha, especialmente nos rebotes, e o ataque continuou sofrendo bastante quando forçado a enfrentar uma defesa postada na meia quadra - excesso de isolações e jogadas individuais, que muitas vezes não deram em nada. E isso é ainda mais frustrante porque nós vimos, em muitos momentos, o ataque americano rodar a bola, se movimentar, e quebrar a defesa da Espanha com facilidade. Nós sabemos que os EUA podem jogar assim e dominar qualquer time, mas a inconsistência é problemática. Contra uma enfraquecida Espanha, foi suficiente; vamos ver contra a Austrália.

E os australianos tem em 2021 sua grande chance de conquistar a primeira medalha olímpica na modalidade. Em 2016, a Austrália foi talvez o melhor time do campeonato até as semifinais, mas acabou amargando duas derrotas nos jogos decisivos; em Tóquio, seu time está melhor do que nunca, e não tem no caminho um bicho-papão com algumas seleções americanas do passado. A Austrália é talvez o time mais completo e profundo do torneio, com 12 jogadores capazes de contribuírem em alto nível e basicamente nenhuma fraqueza: são ótimos arremessando e rodando a bola, excelente defesa, tamanho no garrafão, e até mesmo criadores dinâmicos para pontuar por conta própria.

O jogo contra os americanos obviamente é dureza, mas pelo que mostraram até aqui nesse ciclo, não é absurdo dizer que os australianos chegam pelo menos em condição de igualdade, se não como favoritos. É um jogo que, para vencer, os EUA não podem continuar cometendo tantos erros e passar por tantos períodos de estagnação para recuperar depois; terão que estar no seu melhor desde o começo e manter esse nível por 40 minutos contra uma seleção mais experiente, mais entrosada e que chega com sangue nos olhos depois de derrotas decentes - e sabendo que tem uma chance de ouro de sair dos Jogos Olímpicos com... bem, com o ouro. Esse jogo também acontece na quinta-feira, dia 05/-8, às 1h15 da madrugada.

Dois jogaços valendo medalha, e quem sabe a chance de colocar uma nova seleção no topo do mundo. Imperdível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL