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Moro se filia ao União Brasil e diz abrir mão de candidatura a presidente

Moro e o vice-presidente do União Brasil em São Paulo, Júnior Bozzella - Divulgação/União Brasil
Moro e o vice-presidente do União Brasil em São Paulo, Júnior Bozzella Imagem: Divulgação/União Brasil

Rai Aquino, Rafael Neves e Weudson Ribeiro

Do UOL, em São Paulo e Brasília

31/03/2022 14h27

O ex-juiz e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro desistiu de disputar a Presidência da República. Em nota publicada em suas redes sociais, Moro confirmou que se filiou ao União Brasil e que não deverá concorrer ao Planalto em outubro.

"Para ingressar no novo partido, abro mão, neste momento, da pré-candidatura presidencial e serei um soldado da democracia para recuperar o sonho de um Brasil melhor", escreveu o ex-magistrado, que se opõe ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao presidente Jair Bolsonaro (PL), líderes nas pesquisas.

O Podemos, que se preparava para a campanha, afirmou que ficou sabendo pela imprensa da saída dele do partido.

"Para a surpresa de todos, tanto a Executiva Nacional quanto os parlamentares souberam via imprensa da nova filiação de Moro, sem sequer uma comunicação interna do ex-presidenciável", reclamou a sigla, em nota divulgada no início da noite.

A desistência da disputa pela Presidência da República foi uma das condições impostas pelo União Brasil para que Moro ingressasse na sigla. "O partido não vai aceitar ele se for para ser majoritário", disse um interlocutor próximo a Moro ao UOL.

Cotado para lançar candidatura à Câmara dos Deputados por São Paulo, o ex-ministro ainda não divulgou a qual cargo deve concorrer pela nova legenda. No entorno de Moro, a avaliação é de que o ex-magistrado precisará ter um mandato no próximo ano, seja ele qual for.

Em janeiro, o ex-juiz havia negado quaisquer planos de abandonar a tentativa de se eleger ao Palácio do Planalto: "Sou pré-candidato à Presidência, não ao Senado", disse à época.

Moro fez a troca de legenda no penúltimo dia da janela partidária, que se encerra amanhã. Até então, o ex-ministro da Justiça estava filiado ao Podemos e vinha oscilando entre a 3ª e a 4ª colocação nas pesquisas para Presidente, sem chegar a alcançar dois dígitos de intenção de voto.

Um dos motivos para a saída de Moro do Podemos teria sido financeiro. A presidente nacional da legenda, Renata Abreu, não estaria disposta a investir o dinheiro do partido em uma campanha presidencial, bem mais cara que as locais.

O Podemos terá, neste ano, a 11ª maior fatia do fundo partidário, com cerca de R$ 187 milhões. O União, por sua vez, receberá mais que o quádruplo: R$ 770 milhões. A legenda foi a maior beneficiada com a aprovação do novo fundão de R$ 4,9 bilhões, que foi estipulado pelo Congresso, aprovado por Bolsonaro e validado pelo STF.

Oficialmente, o partido afirma que deu a Moro "total garantia de recursos" para a campanha de 2022. "O Podemos não tem a grandeza financeira daqueles que detém os maiores fundos partidários, como é sabido por todos", disse a legenda em nota.

Lideranças do União Brasil já haviam manifestado contrariedade à ideia de que Moro disputasse a presidência pelo partido. O secretário-geral da legenda, ACM Neto, havia afirmado mais cedo que Moro não poderá disputar a Presidência da República pela sigla.

"Caso seja do interesse de Moro construir uma candidatura em São Paulo pela legenda, o ex-ministro será muito bem-vindo. Mas, neste momento, não há hipótese de concordarmos com sua pré-candidatura presidencial pelo partido", afirmou ACM Neto, em nota.

Moro declarou em nota que aceitou o convite do presidente do União Brasil, deputado federal Luciano Bivar (PE), para "facilitar as negociações das forças políticas de centro democrático em busca de uma candidatura presidencial única", mas não confirmou que cargo deverá disputar.

"O Sergio assinou a ficha (de filiação), e agora é a gente somar esforços com relação àquilo que vai determinar o estilo do país", disse o vice-presidente do União Brasil em São Paulo, o deputado federal Júnior Bozzella (União-SP), em coletiva de imprensa.

"O Brasil precisa de uma alternativa que livre o país dos extremos, da instabilidade e da radicalização. Por isso, aceitei o convite do presidente nacional do União Brasil, Luciano Bivar, para me filiar ao partido e, assim, facilitar as negociações das forças políticas de centro democrático em busca de uma candidatura presidencial única", ele começou.

A troca de legenda foi comunicada à direção do Podemos, a quem agradeço todo o apoio. Para ingressar no novo partido, abro mão, nesse momento, da pré-candidatura presidencial e serei um soldado da democracia para recuperar o sonho de um Brasil melhor
Moro sobre saída do Podemos e filiação ao União Brasil

Moro certificado filiação - Divulgação/União Brasil - Divulgação/União Brasil
Ficha de filiação de Sergio Moro ao União Brasil
Imagem: Divulgação/União Brasil

Trajetória

Juiz federal no Paraná desde 1996, Moro conduziu grandes processos contra crimes financeiros por quase 20 anos. Mas sua imagem só ganhou alcance nacional a partir do final de 2014, quando a operação Lava Jato começou a avançar sobre grandes empreiteiras e agentes públicos ligados à Petrobras.

Moro, que inicialmente rejeitava a ideia de entrar para a política, aceitou o convite do então presidente eleito Jair Bolsonaro, em novembro de 2018, para assumir o ministério da Justiça e Segurança Pública no futuro governo. O ex-ministro foi, à época, questionado por ter entrado para o governo depois de condenar e tornar inelegível Lula, maior concorrente de Bolsonaro.

No governo, Moro contou com o apoio de Bolsonaro e seus aliados em junho de 2019, quando passou a ser objeto da série de reportagens Vaza Jato, que foi capitaneada pelo site The Intercept e teve a participação de vários veículos de comunicação, inclusive o UOL. Sem negar a autenticidade das mensagens vazadas, o ex-ministro repetiu várias vezes que não houve irregularidades no material exposto.

A relação entre Moro e Bolsonaro declinou a partir do segundo semestre, especialmente por disputas em torno do comando da Polícia Federal. Em abril de 2020, ele saiu do governo afirmando que o presidente interferia no órgão, o que provocou a abertura de um inquérito no STF.

Depois de sair do Executivo, Moro passou a trabalhar na iniciativa privada. No período, voltou a ser criticado por ter atuado no escritório Alvarez & Marsal, que tem entre seus clientes a empreiteira Odebrecht, um dos principais alvos da Lava Jato.

Moro em jantar com o presidente do União Brasil, Luciano Bivar - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Sergio Moro em jantar com o presidente do União Brasil, Luciano Bivar
Imagem: Reprodução/Twitter

Mudança de domicílio eleitoral

A filiação de Moro ao União Brasil foi definida em um jantar com Bivar na segunda-feira (28). Além de mudar de partido, o ex-juiz alterou seu domicílio eleitoral do Paraná para São Paulo.

"O Moro serve para qualquer cargo, e ele não colocou condicionantes neste sentido. Ele se colocou como soldado à disposição daquilo que o presidente Bivar está perseguindo, que é unir o polo democrático" afirmou o deputado Júnior Bozzella.

Sobre o possível cargo que Moro pode concorrer pelo União Brasil no pleito de outubro, Bozzella disse que não deverá ser para o Senado, já que o apresentador José Luiz Datena deve disputar uma vaga de senador pela legenda por São Paulo.

"Se já tem o Datena no Senado, já não pode ser o Senado. Muito claro isso. Não foi discutida nenhuma hipótese (de candidatura), a gente só discutiu a filiação. O Moro falou 'estou à disposição do partido para aquilo que o partido determinar'. O que ele vai ser no futuro, o partido vai ter um equilíbrio suficiente", disse o parlamentar.

Caso concorra a eleição para deputado federal, Moro pode disputar o cargo com a sua esposa, a advogada Rosângela Moro, que se filou ao Podemos ontem de olho em uma vaga na Câmara por São Paulo.