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Especialistas questionam pesquisa que mostra Lula e Bolsonaro empatados

O ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro                              - RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA E CAROLINA ANTUNES/PR
O ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro Imagem: RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA E CAROLINA ANTUNES/PR

Felipe Betim

Colaboração para o UOL, em São Paulo

24/02/2022 14h37Atualizada em 29/03/2022 11h39

Uma pesquisa feita pela Futura Inteligência divulgada nesta quarta-feira (23) mostrou o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tecnicamente empatados na simulação de primeiro turno das eleições. O resultado destoa das demais pesquisas, que mostram o petista ainda muito à frente do atual mandatário, levantando dúvidas sobre a metodologia adotada.

De acordo com especialistas consultados pelo UOL, há indícios de uma super-representação de eleitores bolsonaristas na pesquisa. A Futura afirma que o sorteio de seus entrevistados é feito randomicamente "em um cadastro com mais de 200 milhões de registros" (leia mais abaixo).

Encomendada pelo Modal, que teve a compra anunciada pelo banco de investimentos do Grupo XP em janeiro, a pesquisa da Futura mostra Lula com 35% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro aparece com 34,7%. Em seguida vêm Sergio Moro (Podemos), com 7,5%; Ciro Gomes (PDT), com 5,8%; André Janones (Avante) com 2,1%; e João Doria (PSDB), com 1,8%. Os indecisos foram 6,1%. A pesquisa ouviu 2 mil pessoas por telefone entre os dias 14 e 17 de fevereiro, com uma margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos.

Além disso, o atual presidente aparece numericamente à frente quando se trata das intenções espontâneas de voto, com 34,3% contra 33,3% de Lula. Em simulações de segundo turno, porém, Lula vence todos os adversários — ele tem 48% das intenções de voto, contra 40,1% de Bolsonaro. Contra os demais adversários, Bolsonaro vence em todos os cenários de segundo turno.

Em comparação, a pesquisa do Instituto Ideia, contratada pela revista Exame e divulgada hoje (24), mostra Lula com 42% das intenções de voto, contra 27% de Bolsonaro (PL).

Percentual semelhante aparece na pesquisa CNT/MDA divulgada na última segunda-feira (21): Lula aparece com 42,2% das intenções de votos, ao passo que Bolsonaro ficou com 28%.

A pesquisa Ipespe, patrocinada pela XP Investimentos, mostrou o petista com 43% das intenções de voto e o atual presidente, com 25%, segundo os resultados divulgados em 11 de fevereiro.

Por sua vez, a pesquisa da Quaest Consultoria, patrocinada pela Genial Investimentos, coloca Lula com 45% das intenções de voto e seu principal rival, com 23%, conforme mostrou em 9 de fevereiro.

Já a pesquisa PoderData de 16 de fevereiro mostrou uma diferença mais apertada, com Lula com 40% das intenções de voto contra 31% de Bolsonaro.

Eleitorado bolsonarista

O resultado controverso da pesquisa Modalmais/Futura gira em torno da super-representação dos eleitores bolsonaristas na pesquisa, explica o cientista político Antonio Lavareda, presidente do Conselho Científico do Ipespe. Em entrevista para o UOL, ele recorda que resultados similares já apareciam na pesquisa da Modalmais/Futura de 25 de janeiro, quando Lula tinha apenas 5,5 pontos à frente de Bolsonaro — destoando das demais pesquisas.

Na ocasião, a Futura Inteligência perguntou para os entrevistados em quem haviam votado em 2018. A pergunta é essencial para, segundo Lavareda, garantir que a amostra seja representativa não só do ponto de vista demográfico como também político. No Brasil, a régua usada pelos institutos de pesquisa para garantir essa representatividade política é justamente a resposta sobre o voto nas últimas eleições.

"Em 2018, Bolsonaro ganhou de Haddad por 39% a 32% em votos totais, uma margem de sete pontos percentuais. Mas, ao questionar os entrevistados sobre em quem haviam votado, a diferença entre Bolsonaro e Haddad captada pela pesquisa foi de 16 pontos percentuais", explica. Isso indica que mais eleitores bolsonaristas foram entrevistados pela Futura. "Havia uma sobrerrepresentação de eleitores bolsonaristas, distorcendo o resultado", completa.

O questionário de janeiro registrado no TSE indica também que a Futura fez a pergunta sobre as eleições de 2018 antes de questionar sobre o pleito de 2022. De acordo com o Lavareda, isso foge da prática dos demais institutos de pesquisa, porque pode levar ao que chama de viés de consistência. "Significa que uma parte dos eleitores pode ficar constrangida a dizer que não vai votar como votou em 2018." O mais correto, diz ele, é que a pergunta sobre as eleições anteriores seja a última a ser feita pelos entrevistadores.

Esses mesmos problemas ocorreram na pesquisa Modalmais/Futura divulgada na quarta-feira? Não se pode dizer ao certo. Desta vez, a Futura simplesmente decidiu retirar a pergunta sobre as eleições de 2018, de acordo com o questionário registrado pelo instituto de pesquisa no TSE. "Portanto, nós jamais saberemos se a amostra é representativa das correntes políticas do eleitorado", critica Lavareda.

O cientista político Andrei Roman, diretor-executivo da consultoria Atlas Político, compartilha da mesma avaliação de Lavareda. "Olhando o relatório da pesquisa anterior, existe uma divergência brutal entre o desempenho de Fernando Haddad e de Jair Bolsonaro na amostra da pesquisa em comparação ao desemprenho dele nas eleições de 2018", explica. "Parece haver sistematicamente uma super-representação dos eleitores de Jair Bolsonaro, e que não foi em nenhuma forma melhorada a partir de qualquer ajuste ou correção de viés de seleção", acrescenta.

Metodologia da Futura

Procurada, a Futura afirma que "em quase 30 anos de trabalho", sua experiência "mostra que à medida que o tempo avança em relação às eleições há um aumento na menção dos candidatos vencedores e uma diminuição nos que dizem que votaram nos candidatos que perderam à eleição". "Não entendemos que isso explique a diferença existente e possa ser dada como verdadeira a 'super-representação Bolsonarista'", afirma.

"Por outro lado, vale ressaltar que essa diferença de resultado com a grande maioria dos outros institutos, que vem ocorrendo desde a primeira pesquisa que fizemos, aplicada em julho do ano passado, tem nos feito, a cada rodada, verificar o que podemos fazer para aumentar a qualidade da informação que estamos buscando e divulgando", acrescenta.

Sobre a metodologia aplicada, o instituto afirma usar nas pesquisas para presidente "amostra por cotas, segmentando o eleitorado por: Estado (Capital, Outros da Região Metropolitana — onde elas existem — e Interior), Porte de Município, Sexo, Faixa Etária, Renda e Escolaridade".

"O nosso sistema permite que ouçamos a gravação das entrevistas realizadas. Neste sentido temos checado muito mais dos que os 20% dos entrevistados, recomendados pela melhor técnica", afirma. Sobre a super-representação Bolsonarista, a Futura diz não ter "como reconhecer, já que utilizamos as técnicas estatísticas, inclusive a aleatoriedade, no cadastro de acordo com a amostra predefinida".