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Modelo com Down saiu do coma e desfilou em Milão: 'Mas é luta, não aceitam'

A modelo Maju de Araújo fala sobre a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla - Laís Martins
A modelo Maju de Araújo fala sobre a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla Imagem: Laís Martins

Lílian Beraldo

Colaboração para Ecoa, de Brasília (DF)

25/08/2022 06h00

Uma jovem brasileira de 20 anos tem rompido preconceitos e estereótipos no mundo da moda. Ao cruzar as passarelas, a modelo Maria Julia de Araújo, ou Maju de Araújo, tem mostrado que a deficiência não precisa ser uma limitação para os sonhos. Reforçando a importância da Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, que é celebrada entre os dias 21 e 28 de agosto, Ecoa entrevistou a modelo.

Após superar um coma, Maju foi a primeira brasileira com síndrome de Down a desfilar em três famosas passarelas: Brasil Eco Fashion Week, São Paulo Fashion Week e na Semana de Moda de Milão. A modelo também foi capa da Revista Forbes — ao lado de nomes como Gil do Vigor e Rebeca Andrade — e entrou, no ano passado, para a conceituada lista Under 30, da revista, que destaca personalidades de até 30 anos que revolucionam o planeta.

Perseguindo um desejo de criança, Maju quer mostrar que a moda pode (e deve) ser inclusiva, com a participação de pessoas e corpos diversos, e que isso deve ser estendido a toda a sociedade.

"Eu sinto que conquistei o meu espaço, mas reconheço que ainda falta muito para que tenhamos mais representatividade nesse meio. Eu quero ver nas passarelas mais pessoas com deficiência, mais corpos diferentes."

Distante dos padrões impostos pelas passarelas, Maju, com 1,49 m de altura, conquistou visibilidade por seu engajamento nas redes sociais e pela paixão pela profissão.

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A modelo Maju de Araújo fala sobre a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla
Imagem: Laís Martins

Para Maju, a carreira de modelo é um sonho que começou na infância. "Desde criança eu já sonhava em ser modelo. Eu sempre amei me arrumar, escolher looks e tirar fotos. Gostava de pegar maquiagem e as roupas das bonecas das minhas irmãs. E em todo lugar que eu ia, eu precisava entrar desfilando", relembra a jovem que contou com a torcida e o incentivo da família nessa jornada — além da mãe, Adriana de Araújo, que ajudou Maju a responder as perguntas de Ecoa, as duas irmãs, Larissa, 25 anos, e Ana Lua, 24, e o pai, Orlando.

As coisas começaram a ganhar forma depois de um episódio grave de doença. Maju, com 16 anos, entrou em coma, por causa de uma meningite bacteriana. Ao acordar, ela insistiu: queria ser uma modelo famosa.

Percebendo que o desejo de Maju só crescia, a mãe foi atrás da realização da filha e a matriculou em um curso profissional de modelo.

Maju se formou, em 2019, na School Models, escola de modelos de Niterói (RJ), onde ela aprendeu a posar para fotos, a se comportar diante das câmeras e como desfilar.

"As pessoas não aceitavam eu estar ali"

Com a chegada da pandemia de covid-19 ao Brasil e o necessário isolamento social para contenção do vírus, a vida de Maju deu uma guinada com a ajuda das redes sociais. Ela tinha acabado de se formar profissionalmente como modelo e tinha desfilado em duas semanas de moda (Brasil Eco Fashion Week e Osasco Fashion Week). Voltar a se isolar, para Maju, não era uma opção.

"Eu já tinha experimentado essa vida de isolamento, por conta do preconceito e dificuldade de acesso aos meus direitos e não queria voltar a viver uma vida solitária e monótona que trouxe uma grande depressão pra mim. Eu estava começando a mudar a minha vida e queria continuar evoluindo e vivendo com alegria e propósito", afirma a jovem.

Seguindo o conselho da irmã Ana Lua, ela abriu um perfil no Instagram e começou a postar fotos de sua história e do trabalho como modelo. O sucesso na internet veio rápido e rendeu a Maju um contrato com uma agência de publicidade. Hoje, a jovem carioca tem mais de 620 mil seguidores na rede social e conquistou, em junho de 2021, o cargo de embaixadora global da marca de cosméticos L'Oréal Paris.

"Eu consegui trazer a valorização ao meu trabalho graças às redes sociais", diz Maju. O caminho para chegar aos principais palcos da moda, entretanto, não foi sempre de flores.

"Enfrentamos muitos preconceitos de pessoas que não aceitavam eu estar ali naquele espaço ou não acreditavam que eu poderia chegar onde cheguei", afirma a jovem, lembrando que o mundo da moda ainda é muito fechado para a diversidade.

"Cada deficiência é única"

Com a visibilidade no Brasil e no exterior, Maju quer abrir espaço para que mais pessoas com deficiência possam ser vistas e aceitas, em suas limitações e potencialidades.

Desde 2017, o Brasil instituiu por lei a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla. Lembrada, anualmente, de 21 a 28 de agosto, a data busca combater o preconceito e a discriminação por meio da conscientização da sociedade sobre a importância de promover a inclusão dessa população que tem necessidades específicas.

"Ser uma pessoa com deficiência já é um desafio muito grande, não pela deficiência em si, mas pela forma como as pessoas nos enxergam por conta dela", afirma Maju.

Cada deficiência é única e só podemos aprender a dar acessibilidade quando nos permitimos conviver com PCDs [pessoas com deficiência]. Seja no mundo da moda, nos bastidores, nas campanhas de marketing. Podemos estar em todos esses lugares, mas ainda faltam oportunidades justas. Maju de Araújo, modelo.

Para pessoas com deficiência, como ela, a modelo carioca tem um recado: "Acredite nos seus sonhos e corra atrás deles. Você pode escrever a sua história e escolher o que quer ser. Não posso dizer que será fácil. Mudar o pensamento das pessoas leva tempo e exige muita perseverança e resiliência. Mas, juntos, podemos transformar a nossa sociedade em um espaço mais acolhedor e com mais representatividade."