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O que fazem indigenistas como Bruno Pereira, desaparecido na Amazônia

O indigenista Bruno Pereira (ao centro) vinha sofrendo ameaças por combater invasões a território - Bruno Jorge/Funai
O indigenista Bruno Pereira (ao centro) vinha sofrendo ameaças por combater invasões a território Imagem: Bruno Jorge/Funai

Camilla Freitas

de Ecoa, em São Paulo (SP)

14/06/2022 06h00

Os nomes de Bruno Pereira e Dom Phillips tomaram conta dos noticiários nacionais e internacionais nas últimas semanas. Desaparecidos na Amazônia, mais especificamente no Vale do Javari, eles foram vistos pela última vez em 5 de junho em uma embarcação durante uma viagem a trabalho.

Dom Phillips é um jornalista britânico que atua como colaborador do jornal "The Guardian", enquanto Bruno Pereira é um indigenista, servidor de carreira da Funai (Fundação Nacional do Índio). No entanto, Pereira está afastado da entidade pois pediu licença após ter sido exonerado da Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém-Contatados, em outubro de 2019.

Atualmente, Bruno Pereira trabalha na ONG Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), mas durante sua passagem pela Funai, um pouco antes de ser exonerado, chefiou a maior expedição para contato com os indígenas isolados em 20 anos.

O trabalho de Bruno Pereira como indigenista gerou, contudo, uma dúvida em parcela da população que não conhecia essa área de atuação. Ecoa conversou com especialistas para entender, afinal, o que é indigenismo e o que fazem os indigenistas.

Cartaz - CARL DE SOUZA / AFP - CARL DE SOUZA / AFP
Manifestante segura cartaz com dizeres "Onde estão Dom Phillips e Bruno Pereira?" no protesto de domingo (12), no Rio de Janeiro
Imagem: CARL DE SOUZA / AFP

O que é indigenismo?

O indigenismo é um fenômeno político que pode unir diversas áreas do conhecimento, ou seja, é um campo de conhecimento e de atuação sobre povos indígenas.

O que faz um indigenista?

O indigenista é, então, uma pessoa não indígena que atua em prol da garantia dos direitos dos povos indígenas perante os órgãos políticos e públicos. São especialistas que se dedicaram a estudar os povos originários para ajudar o Estado e a sociedade a conhecerem mais sobre eles. Essas pessoas podem ser de governos ou de organizações da sociedade civil criadas junto com os povos indígenas.

Nesta segunda (13), indígenas do Vale do Javari cobraram respostas sobre o desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira e pediram mais segurança na região - REUTERS/Bruno Kelly - REUTERS/Bruno Kelly
Nesta segunda (13), indígenas do Vale do Javari cobraram respostas sobre o desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira e pediram mais segurança na região
Imagem: REUTERS/Bruno Kelly

Qual a importância do trabalho de indigenistas para os indígenas?

A importância de um trabalho indigenista, seja estatal como da própria Funai, seja da sociedade civil como das organizações não governamentais, é garantir os direitos e autonomia dos povos originários, ou seja, auxiliar os povos indígenas na garantia e proteção de seus direitos territoriais, de saúde, educação e de autonomia, entre outros.

Qual a relação entre indigenistas e a proteção do meio ambiente?

Garantindo os direitos territoriais dos povos indígenas, como a sua demarcação e a expulsão de invasores como garimpeiros e madeireiros, o meio ambiente estará sendo protegido.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), mostra exatamente isso. Segundo a pesquisa, Terras Indígenas (TIs) concentram o menor desmatamento da região da Amazônia, além de apresentarem menos incêndios.

Como o indigenismo se apresenta no Brasil?

Parte do surgimento do conceito do indigenismo está referenciado principalmente nos países da América Latina que passaram por processos de colonização. Ele surgiu no México como parte do movimento intelectual nacionalista que se caracterizava pela defesa e valorização dos povos originários. No Brasil, podemos colocar como um marco do indigenismo estatal a criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), que operou entre 1910 e 1967, quando foi encerrado e substituído pela Funai.

A década de 1970 é tida como um marco do indigenismo e fortalecimento do movimento indígena no país com a criação de duas organizações sociais importantes para o indigenismo: o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), em 1972, e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 1975. Além disso, é nessa década que ocorre maiores movimentações dos próprios povos indígenas demandando demarcação de terra.

Fontes: Ana Carolina Amorim, antropóloga e docente da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), André Baniwa, liderança indígena, artigo "O movimento indígena e a política indigenista: Uma breve análise sobre o movimento do povo Tremembé de Raposa-MA de Luana Appel dos Santos.

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