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O que é identidade de gênero? Como isso impacta na vida das pessoas?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Beatriz Sanz

De Ecoa, em São Paulo

17/11/2020 04h00

Quando uma pessoa está grávida e faz o ultrassom, o médico informa aos pais se a criança será menino ou menina com base nos órgãos genitais que costumam ser revelados pelo exame.

Muitas vezes, a partir daí, a família faz chá revelação, outorga características à criança e planeja todo um futuro baseado nessa informação: nome, cor do quarto, modelo de macaquinho, adereços.

Contudo, nem sempre ao crescer a pessoa vai se identificar com aquele gênero que lhe foi atribuído antes mesmo de seu nascimento.

O que é identidade de gênero?

"A identidade de gênero é a forma pela qual eu expresso o gênero com o qual eu me identifico", resume Bruna Benevides que é TransAtivista e Secretaria de articulação política da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). Isso acontece porque a expressão de gênero leva em conta muito mais fatores sociais e culturais do que biológicos.

Na prática, isso significa que uma pessoa que foi categorizado como menino no nascimento pode não se sentir confortável nessa identidade e "performar" ações e atitudes que são entendias como femininas pela sociedade.

Esse desconforto pode levar a um questionamento sobre a sua própria identidade. A partir daí, a pessoa pode entender que se sente confortável se expressando dentro de outro gênero ou até mesmo não expressando gênero algum.

O debate sobre gênero e, posteriormente, sobre identidade de gênero é muito recente e tem origem no debate feminista pós-modernista.

"O termo gênero passou a tomar relevância internacional ao ser usado oficialmente, pela primeira vez, na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, coordenada pela ONU, em 1994", explica a internacionalista, mestre em Gênero, Desenvolvimento e Globalização pela LSE (Escola de Economia e Ciência Política de Londres) e consultora em Diversidade e Inclusão, Marina Sperafico.

Qual a diferença entre sexo biológico e identidade de gênero?

Ao contrário do que muitos pensam, não é o sexo biológico que define o gênero com o qual a pessoa se identifica.

"Sexo é biológico, gênero é social. E o gênero vai além do sexo: o que importa, na definição do que é ser homem ou mulher, não são os cromossomos ou a conformação genital, mas a autopercepção e a forma como a pessoa se expressa socialmente", informa o guia "Orientações Sobre Identidade de Gênero: Conceitos e Termos" que foi desenvolvido para o SUS (Sistema Único de Saúde) pela professora de Psicologia no IFRJ (Instituto Federal do Rio de Janeiro), pós-doutora pela Escola Superior de Ciências Sociais da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Jaqueline Gomes de Jesus.

Sperafico destaca que a identidade de gênero se refere ao gênero com o qual a pessoa se identifica enquanto o sexo biológico está relacionado aos aspectos anatômicos da espécie humana, "como as genitálias, por exemplo".
A especialista diz que equivaler sexo biológico como o determinante da identidade de gênero pode reforçar estereótipos, "uma vez que se utiliza de cores específicas para identificar meninos e meninas".

Como isso impacta na vida das pessoas?

O impacto da identidade de gênero é muito grande na vida de uma pessoa, já que diz respeito à forma como ela se identifica, vive e é reconhecida pela sociedade.

Além disso, a identidade de gênero pode e deve impactar em políticas públicas, como por exemplo, no oferecimento de exames de mama para homens, sejam eles cisgênero (aqueles que se identificam com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer) ou transgênero, já que eles também podem ser acometidos pelo câncer de mama.

"Quando se fala em identidade de gênero fica parecendo que só pessoas trans tem identidade de gênero e as pessoas que não são trans não têm identidade de gênero, o que é errado porque todas as pessoas que estão e compõe a humanidade de alguma forma estão performando uma identidade de gênero, seja ela cisgênera, seja ela transgênera", afirma Bruna Benevides.

Qual a importância de se falar sobre gênero e identidade de gênero?

Já que o impacto desse debate pode ser sentido em diversas áreas da vida cotidiana, o debate sobre esse tema precisa ser feito levando isso em consideração.

Ao se fazer isso, as pessoas que não se enquadram nos padrões que foram estabelecidos conseguem pontuar suas demandas e necessidades.

Para Sperafico, o debate também pode "desconstruir as amarras que subjugam as mulheres, limitando suas existências além de lhes expor à violência, aliviar os homens e permitir que vivam em plenitude suas emoções, desfrutando de tudo o que se desdobra a partir disso e equilibrar as relações sociais de poder".

O pesquisador voltado aos estudos de gênero e a teoria queer no diálogo social e doutorando na ECA-USP, Gean Gonçalves, complementa que essa conversa "ajuda a desnaturalizar conflitos e anseios na família, na escolarização, no trabalho, na vida cívica".

Por sua vez, Benevides destaca que essa conversa deve ser feita "sem mitos e tabus, sem implementar estigmas ou disseminar inverdades".

Ela destaca ainda que falar sobre gênero não incentiva ou faz com que uma pessoa mude sua orientação sexual ou identidade de gênero, bem pelo contrário. "Nenhuma pessoa trans foi ensinada a ser trans. Todos fomos educados e socializados para sermos pessoas cisgêneras".

Quantas identidades de gênero existem?

O mais comum é vermos seis identidades: mulher ou homem cisgênero, mulher ou homem transgênero, gênero não-binário e agênero.

Contudo, existem subdivisões e classificações intermediárias. Quando uma pessoa cria uma conta no Facebook, por exemplo, a plataforma oferece 50 opções de identidade de gênero.
Já no estado de Nova York, nos Estados Unidos, um cidadão pode escolher entre 36 identidades de gênero diferentes ao tirar seus documentos.

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