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ONG capacita entregadores de bike e propõe formatos de entrega mais justos

O projeto Viver de Bike da Aromeiazero oferece curso que inclui conteúdos de mecânica de bicicleta, informações importantes sobre pedalar na cidade e empreendedorismo e gestão financeira - Divulgação
O projeto Viver de Bike da Aromeiazero oferece curso que inclui conteúdos de mecânica de bicicleta, informações importantes sobre pedalar na cidade e empreendedorismo e gestão financeira Imagem: Divulgação

Kamille Viola

Colaboração para Ecoa, do Rio de Janeiro

03/07/2020 04h00

Com o debate sobre a precarização do trabalho dos entregadores de aplicativos, que fizeram uma paralisação nesta quarta-feira (1º), as discussões sobre formas alternativas de delivery ganham visibilidade. Modelos de negócio mais justos para o trabalhador e para os pequenos comerciantes — que sofrem com as altas taxas cobradas pelos apps — são possíveis?

O Instituto Aromeiazero afirma que sim. Fundado em 2011 em São Paulo, ele atua com projetos para a transformação social, redução das desigualdades e consolidação de cidades mais sustentáveis a partir da bicicleta. Uma de suas principais frentes é o projeto Viver de Bike, que promove geração de renda por meio da bicicleta, principalmente junto à população moradora das periferias e a de baixa renda.

Dentro dele, os interessados podem fazer um curso que inclui conteúdos de mecânica de bicicleta, informações importantes sobre pedalar na cidade e empreendedorismo e gestão financeira. "Durante as aulas, os alunos reformam uma bicicleta, que nós recebemos por meio de campanhas de doação — sobretudo bicicletas usadas que estavam paradas em condomínios —, e, no final, ela fica com eles, para que tenham essa parte essencial de um empreendimento de bicicleta que foi idealizado durante o curso", explica Natalia Lackeski, gerente de projetos da Aromeiazero.

Com o instituto, mais de 800 pessoas aprenderam sobre mecânica, mais de 4 mil bicicletas foram consertadas de graça e mais de 300 pessoas foram formados pelo Viver de Bike. "A gente acredita na ciclologística como algo com muito potencial para gerar renda de maneira inclusiva e com diversidade, assim como o cicloturismo, a mecânica, bicicletários comunitários e outras formas emergentes de fomentar o uso da bicicleta. Temos acompanhado isso há quase dez anos de forma bem atenta", descreve Murilo Casagrande, diretor e um dos sócios-fundadores da Aromeiazero.

Os aplicativos têm um grande apelo entre jovens de baixa renda, já que não há necessidade de envio de currículo ou de se passar por entrevistas. Uma pesquisa realizada pela Aliança Bike (Associação Brasileira do Setor de Bicicletas) e divulgada no ano passado traçou um perfil dos entregadores ciclistas que trabalham para aplicativos. Foram 270 entrevistados na capital paulista. Em geral, ele é um homem negro com entre 18 e 22 anos de idade, morador das periferias, com ensino médio completo, que estava desempregado e agora trabalha todos os dias da semana, de nove a dez horas por dia, com ganho médio mensal de R$ 992.

Apesar de algumas atividades do Aromeiazero estarem suspensas, por conta do isolamento, a ideia é retomá-las em uma plataforma digital ou de ensino a distância. Além disso, o instituto quis entender como o dia a dia dos entregadores tinha sido afetado durante a pandemia e realizou uma pesquisa, com 70 entrevistados, que deu origem a duas ações. Uma delas foi o Pedal Contra o Corona, que contou com manutenção da bicicleta gratuita para entregadores e distribuição 370 kits com máscara e álcool em gel, além de orientações para prevenção contra a Covid-19.

A outra é o Delivery Justo, em andamento, com iniciativas para conectar negócios a entregadores de bairro. A ideia é trazer benefícios tanto para os pequenos comércios locais, que não têm condições de pagar as altas taxas dos aplicativos, como para os entregadores, que, já não bastasse sofrerem com trabalho precarizado, viram uma diminuição de sua remuneração durante a pandemia, provavelmente pelo aumento de entregadores nas ruas — ainda que os aplicativos tenham tido crescimento de 30% no faturamento. O Aromeiazero incentiva os comerciantes de bairro a implementarem seus próprios serviços de entrega e busca, e conectá-los a trabalhadores ou cooperativas, como a Señorita Courier, voltada para mulheres e pessoas trans, e o Giro Sustentável.

O Aromeiazero também tem iniciativas para ajudar a fomentar um ambiente acolhedor para mulheres e pessoas trans - Divulgação - Divulgação
O Aromeiazero também tem iniciativas para ajudar a fomentar um ambiente acolhedor para mulheres e pessoas trans
Imagem: Divulgação

"A gente potencializa essas conexões, tanto para empregabilidade quanto para formação desses negócios emancipatórios, que precisam ser criados urgentemente, no lugar de alternativas de geração de renda em que você ou é precarizado, ou passa fome. Fomentamos a criação dessas soluções de geração de renda dignas, sustentáveis nas periferias, pelas pessoas das periferias, essas alternativas que não reproduzem racismo nem desigualdade de gênero — já que, no modelo atual, esse é um trabalho muito hostil para a população feminina e trans", pontua Natalia Lackeski.

O instituto também atua cobrando ações do poder público. Fez parte do grupo de trabalho que ajudou a formular um projeto de lei da ciclologística (proposta do vereador Caio Miranda, do DEM/SP), aprovado e sancionado pelo prefeito Bruno Covas (PSDB/SP), e acompanha o andamento do PL para garantir que a legislação seja cumprida. "Pode ser aquela lei que 'ganha, mas não leva', pode ficar no papel, então nós ficamos em cima", diz Murilo Casagrande. "O que a gente mais procura articular com outras organizações é a ampliação dessa política pública. Não só a questão trabalhista — que é inclusive pouco pertinente à cidade, está mais na esfera federal, embora tenha que ser feita essa demanda, essa judicialização até. A gente olha para fomentar outras formas de renda com a ciclologística, que é bom para quem pedala e para a cidade. Queremos a melhoria da estrutura. Precisa de bicicletário, de paraciclo nos prédios comerciais e públicos, e tem que ser acessível, e também esses programas de educação, de empreendedorismo, de apoio. Isso vai ser muito importante agora, porque, neste momento, o Brasil pela primeira vez tem mais desempregados do que empregados", analisa Casagrande.

O Aromeiazero defende que é possível construir alternativas de trabalho mais transparentes, dignas e sustentáveis a partir da bicicleta. "Descentralizar esse trabalho é estratégico por vários motivos, inclusive para que a gente possa pensar uma cidade mais limpa, porque, a partir desse raio de entrega menor, a gente consegue fazer as entregas de forma eficiente de bicicleta, sem reproduzir essa lógica motorizada, dando uma rede de apoio maior para os entregadores, já que eles estão próximos de casa, e redistribuindo essa circulação financeira na cidade. A gente consegue construir uma cidade menos desigual, mais humana e mais colaborativa. A bicicleta, historicamente, é um instrumento de liberdade, de emancipação, de autonomia. É muito perverso transformar a bicicleta nesse instrumento de exploração e precarização do trabalho", frisa Natalia.

Para o diretor da ONG, a tendência é que, se os grandes aplicativos não revisarem suas práticas, eles percam cada vez mais investimentos. "Há dois anos toda semana tem notícia ruim de precarização", observa. "Esse impacto negativo vai minar essas rodas de investimento dessa galera, se eles não se mexerem rápido, se não olharem para o modelo de negócio e para o que eles têm gerado. Mas não somos radicais, de não querer o diálogo. Acreditamos que são modelos aperfeiçoáveis, tanto com novas iniciativas como também se abrindo para o diálogo com os entregadores e organizações como o Aromeiazero e outras. É preciso pensar na humanização e na sustentabilidade dessas empresas", finaliza.

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