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Ignoradas na história, as cientistas estão no cerne da luta contra Covid-19

A bióloga brasileira Rafaela da Rosa Ribeiro foi para a linha de frente das pesquisas sobre Covid-19 durante trabalho de pesquisa na Itália - Arquivo Pessoal/Divulgação
A bióloga brasileira Rafaela da Rosa Ribeiro foi para a linha de frente das pesquisas sobre Covid-19 durante trabalho de pesquisa na Itália Imagem: Arquivo Pessoal/Divulgação

Edison Veiga

Colaboração para Ecoa, de Bled (SLO)

04/06/2020 04h00

Menos de 48 horas após o registro do primeiro caso oficial de Covid-19 no Brasil, foi uma mulher quem ganhou a mídia para anunciar um fato científico importantíssimo, o sequenciamento genético da cepa do vírus encontrado no paciente brasileiro. Trata-se da médica imunologista Ester Cerdeira Sabino — e sua equipe, predominantemente feminina e liderada pela cientista Jaqueline Goes de Jesus.

Sabino é a primeira mulher a dirigir o Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP). Há pouco mais de um ano, criou, em conjunto com pesquisadores britânicos, o Centro Conjunto Brasil-Reino Unidos para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus. Muito antes da pandemia de Covid-19, sua preocupação estava em doenças como dengue, febre amarela, zika e chikungunya. A premissa da atuação do grupo é mapear a propagação de epidemias, em tempo real, e munir sistemas de saúde com informações que os auxiliem a combatê-las.

Mas naquela terça-feira de Carnaval, dia 26 de fevereiro, o feriado da equipe foi interrompido com a notícia de que o Brasil tinha um caso oficial de infectado pelo novo coronavírus. Sabino coordenou a força-tarefa e, dois dias depois, o vírus estava sequenciado. Na ocasião, foi um recorde, já que esse trabalho vinha sendo realizado em cerca de 15 dias em outros laboratórios pelo mundo.

Em todo o planeta, as cientistas estão liderando pesquisas que ajudam a compreender o novo coronavírus e, espera-se, serão úteis no desenvolvimento de uma vacina ou um medicamento que seja seguro e eficiente contra a doença que já infectou mais de 6 milhões de pessoas.

A médica imunologista Ester Cerdeira Sabino esteva à frente da equipe que fez o sequenciamento genético da cepa do coronavírus no Brasil - Arquivo Pessoal/Divulgação - Arquivo Pessoal/Divulgação
A médica imunologista Ester Cerdeira Sabino esteva à frente da equipe que fez o sequenciamento genético da cepa do coronavírus no Brasil
Imagem: Arquivo Pessoal/Divulgação

Historicamente marginalizadas no mundo científico, representantes do sexo feminino são apenas 54 dentre os 919 já laureados com prêmios Nobel, por exemplo. Mas as mulheres estão no cerne da descoberta daquilo que conhecemos como coronavírus. Não esse novo, o SARS-CoV-2 causador da Covid-19, mas o primeiro coroninha identificado cientificamente pelo ser humano.

A protagonista dessa história se chamava Dorothy Hamre (1915-1989). Virologista e infectologista do departamento de Medicina da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, ela foi a primeira pessoa a isolar uma cepa de coronavírus. O organismo foi batizado de 229E, e a descoberta foi publicada em artigo escrito em conjunto com outro cientista, o então jovem pesquisador John Procknow.

Com estrutura diferente dos já então conhecidos influenza, causadores de gripes, e rinovírus, dos resfriados, o coronavírus passou a assombrar a humanidade com suas cepas. Depois do "original" HCoV-229E, contaminaram pessoas o HCoV-NL63, o HCoV-OC43, o HCoV-HKU1, o MERS-CoV, o SARS-Cov-1 e o famigerado SARS-CoV-2, que fez o mundo se prostrar diante de uma pandemia.

Hamre nunca foi amplamente reconhecida. Mesmo enciclopédias médicas costumam omitir seu nome, creditando a descoberta a colegas homens. Conforme pontuou a Ecoa a jornalista Sabine Righetti, coordenadora da plataforma de divulgação científica Agência Bori, isso é recorrente no meio acadêmico.

"Mesmo que as mulheres sejam a mão de obra, a maioria dos chefes de pesquisa ainda são homens", comenta ela, sobre o contexto. Em 1972, Hamre publicou uma pesquisa, chamada Virologic Studies of acute respiratory disease in Young adults: V. Coronavirus 22E infections during six years of surveillance. Foi um tratado epidemiológico, no qual a cientista analisou o comportamento do vírus que ela própria havia descoberto.

Em artigo publicado pela revista indiana "Frontline", o cientista Padmanabhan Balaram, do Instituto de Pesquisa Fundamental Tata, em Bangalore, na Índia, lamentou o fato de que Hamre tornou-se uma "desconhecida" para a história. "Ela deve ter sido dotada de imaginação e resiliência", pontuou. "Deve ter aperfeiçoado suas habilidades experimentais no cadinho duro dos laboratórios de doenças infecciosas. À medida em que o coronavírus atinge os continentes, Dorothy Hamre surge como uma presença distante e anônima."

Mulheres e a pandemia

Em conversa com Ecoa, a brasileira Sabino reconhece que o fato de ser mulher tornou sua carreira — e sua ascensão profissional — mais difícil. "São várias dificuldades. Às vezes de forma inconsciente, há muita desqualificação", comenta.

As pessoas costumam, mesmo que de forma velada, colocar mais objeções quando estão ouvindo algo de uma mulher. Considero esta a maior dificuldade: a dificuldade de ser ouvida, ou o fato de ser menos ouvida.

Ester Cerdeira Sabino, 60, médica imunologista

Em carta publicada na edição de 15 de maio da revista "Science, a bióloga Fernanda Staniscuaski, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e outras colegas demonstraram preocupação com a produtividade em tempos de home office. "Os pais de crianças pequenas para quem a escola foi cancelada enfrentam responsabilidades desafiadoras. Embora os acadêmicos pais não sejam imunes aos impactos do parto, tradicionalmente são as mulheres que assumem a carga mais pesada", diz a carta.

Artigo na revista Science sobre impacto da Covid-19 no trabalho de pesquisa de mulheres cientistas - Reprodução - Reprodução
Artigo na revista Science sobre impacto da Covid-19 no trabalho de pesquisa de mulheres cientistas
Imagem: Reprodução

"Essas mulheres correm o risco de sofrer mais uma pena da maternidade. Em vez de escrever artigos, é provável que estejam dedicando tempo às crianças em homeschooling e às tarefas domésticas", pontua, enfatizando que o período pode "aumentar a distância entre elas e seus colegas homens e sem filhos". "A desigualdade de gênero na ciência é uma questão urgente e a maternidade desempenha papel importante nela. Não podemos permitir que essa pandemia reverta avanços e aprofunde ainda mais a lacuna de gênero na ciência."

Periódicos científicos vêm notando o fenômeno, na prática. Editores de algumas publicações já afirmaram que o recebimento de pesquisas científicas assinadas por mulheres caiu ou se manteve constante neste período, ao mesmo tempo que trabalhos de homens vêm aumentando. "Insignificante o número de submissões recebidas de mulheres no último mês. Nunca vi algo assim", postou no Twitter uma das editoras do British Journal for Philosophy of Science, Elizabeth Hannon.

Por outro lado, a solução para a pandemia poderá sair justamente de cérebros femininos. Uma das pesquisas mais avançadas para a descoberta de uma vacina é liderada pela vacinologista britânica Sarah Catherine Gilbert. Ela é especializada no desenvolvimento de vacinas contra influenza e outros patógenos virais e professora na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Na mais otimista das previsões anunciadas, seu laboratório concluiria o desenvolvimento de uma vacina em setembro deste ano.

É um trabalho intenso e pesado. Tanto que a assessoria de imprensa da instituição responde a todos os pedidos da mesma maneira: Gilbert não está disponível para entrevistas. O argumento se justifica: foco total na pesquisa.

Com tantas cientistas à frente de avanços importantes nos últimos meses, será que o Nobel deste ano vai reconhecer mais mulheres? Righetti acredita que não. "Apesar de as mulheres serem maioria na área de saúde, a produção feminina caiu muito na pandemia", pontua ela, que acompanha atentamente tudo o que vem sendo publicado cientificamente.

"Mulher com filho ou responsável por familiares, por exemplo pais mais velhos, basicamente não está conseguindo produzir."
Sabine Righetti, coordenadora da plataforma de divulgação científica Agência Bori

Pesquisa na Itália levou ao fronte

Enquanto isso, as que podem seguem pesquisando pelo mundo. Não lutando apenas para transpor as barreiras impostas pela invisibilidade de gênero mas, sobretudo, para tentar vencer a pandemia. A bióloga brasileira Rafaela da Rosa Ribeiro se viu obrigada a mudar os rumos de sua pesquisa de pós-doutorado justamente por estar baseada em Milão, o primeiro epicentro da doença fora da China, quando o mundo virou de cabeça para baixo.

Em projeto de pós-doutorado relacionado ao vírus da zika, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e realizado pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, ela vive na Itália desde junho do ano passado — sua pesquisa previa um período de um ano de cooperação no hospital universitário San Raffaele, em Segrate, na província milanesa.

Então veio a pandemia. Aos poucos, ela foi sendo envolvida por trabalhos referentes ao coronavírus e viu também os instrumentos, equipamentos e técnicos do laboratório cada vez mais monopolizados pela urgência da situação. "Diante da prioridade, acabei integrando a equipe", conta ela a Ecoa. "No momento, trabalhamos em duas frentes principais: testando fármacos que possam inibir a entrada do vírus nas células e fazendo coleta de sangue e outras amostras de pacientes infectados, para montar um biobanco a ser utilizado nas pesquisas."

Na inglesa Universidade de Oxford, outra brasileira foi cooptada pela ciência em tempos de Covid-19. Jurista de formação, com experiência em pesquisas na área de políticas públicas, a pesquisadora Beatriz Kira passou a integrar a equipe do Oxfort Covid-19 Government Response Tracker, uma ferramenta "para comparar e mapear respostas de políticas públicas ao redor do mundo, de forma rigorosa e consistente". "O banco de dados reúne mais de 150 países e coleta informações sobre uma série de indicadores de distanciamento social, políticas econômicas, e políticas de saúde pública, desde 1º de janeiro, e é atualizada constantemente", explica.

Representatividade e futuro

A epidemiologia Emily Martin é especialista em doenças respiratórias virais na Universidade de Michigan - Arquivo Pessoal/Divulgação - Arquivo Pessoal/Divulgação
A epidemiologia Emily Martin é especialista em doenças respiratórias virais na Universidade de Michigan
Imagem: Arquivo Pessoal/Divulgação

Na linha de frente científica, as mulheres contemporâneas trabalham para honrar a pioneira Dorothy Hamre e deixar seu registro na história. Professora de epidemiologia na Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, a especialista em doenças respiratórias virais Emily Martin avalia que muitas vezes "as mulheres são consideradas menos especialistas, apesar de terem experiências comparáveis a dos homens".

"Definitivamente, vejo isso em comentários do público em geral", diz. "Sinto-me privilegiada por ter colegas, homens e mulheres, que se apoiam. E por trabalhar em uma universidade que respeita especialistas que são mulheres."

Dados compilados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a Unesco, indicam que mulheres respondem por apenas 28,8% do total de pesquisadores acadêmicos no mundo. "Ser mulher é sempre um desafio na ciência", afirma Ribeiro. "Em questão de reconhecimento, sinto, sim, uma diferença."

Ela diz que nota uma diferença sobretudo em reuniões na qual precisa expor seu ponto de vista. "Já houve episódios em que eu sinto que preciso me firmar com mais clareza e firmeza, trazendo mais dados para validar o que estou falando. Vejo que há uma desconfiança maior pelo fato de eu ser mulher", comenta.

A pesquisadora no hospital San Raffaele, na Itália, Sara Contu tem outra experiência. "Não me sinto em dificuldade porque sou uma mulher. Durante meu percurso acadêmico, trabalhei e conheci tantas mulheres cientistas de destaque, cheias de ideias e determinação, maravilhosas professoras que frequentemente me inspiram", relata à reportagem. "Claro, às vezes pode parecer difícil para uma mulher alcançar o topo, mas com tenacidade, determinação e paixão, é possível ascender e combater as diferenças de gênero que, talvez, em alguns contextos, existam em maior extensão."

O caminho para um futuro mais igualitário passa por todas essas cientistas que estão na linha de frente hoje e servirão como exemplo para as novas gerações de pesquisadoras e especialistas. Representatividade é importante e faz diferença no desenvolvimento e permanência de mais mulheres na área.

Kira levanta outro ponto relevante. Ela acredita que o fato de não ter sofrido discriminação de gênero na profissão possa estar associado ao fato de sua equipe ser chefiada por uma mulher. "Eu sou bastante privilegiada de trabalhar em um departamento que é chefiado por uma mulher, uma referência mundial em governança internacional e políticas públicas", comenta ela, referindo-se à neozelandesa Ngaire Woods. "Acho que também por isso a cultura de trabalho do meu departamento é bastante igualitária, e nunca sofri nenhum tipo de discriminação ou dificuldade por conta de ser mulher."

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