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Covid-19 impacta tratamentos e acessibilidade de pessoas com deficiência

Mona Rikumbi foi diagnosticada com Covid-19 - Arquivo Pessoal
Mona Rikumbi foi diagnosticada com Covid-19 Imagem: Arquivo Pessoal

Raphael Preto Pereira

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

12/05/2020 04h00Atualizada em 12/05/2020 22h18

Pessoas com deficiência já têm grande dificuldade no acesso a seus direitos básicos, como locomoção e saúde. Em um cenário de pandemia e isolamento social, precisar da ajuda de terceiros nos afazeres da rotina, bem como ter tratamentos importantes interrompidos devido à quarentena são alguns dos novos dilemas enfrentados por essa população — que, no Brasil, soma 46 milhões, cerca de 24% do país.

Mona Rikumbi, 59, é atriz, bailarina e trabalhou na área da saúde até se aposentar. Ela tem uma doença neurológica degenerativa e, em abril, acordou com uma dor forte na parte abdominal, além de uma tosse insistente. Cadeirante, foi para um hospital público em São Paulo e passou a noite esperando para ser atendida.

"Nunca eu acharia que era corona. Ainda bem que minha médica me convenceu a ir ao hospital. Quando eu cheguei lá, me disseram que talvez eu não aguentasse. Fizeram a tomografia e já estava com o vírus. Também demoraram para fazer o teste, falaram que só estavam testando quem já tinha muitos sintomas — o que eu acho um absurdo", critica.

Depois da medicação e do diagnóstico, ela foi orientada a voltar para casa, ficando em isolamento. "Não estou 100%, mas já estou melhor", disse, em entrevista a Ecoa, na semana passada. Nesta terça-feira (12), porém, Mona relatou que teve uma recaída. "Cantei vitória antes do apito final. Não tinha a mínima informação que isso pudesse acontecer", contou ela, que nesse cenário sente a diminuição de seu nível de independência.

Um relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou que "a pandemia de coronavírus está aprofundando as desigualdades para mais de um bilhão de pessoas [uma a cada sete pessoas no mundo] que têm alguma deficiência". Como pobreza e deficiência estão relacionadas, o quadro de vulnerabilidades se agrava. Entre as pessoas que estão abaixo da linha da pobreza em todo o mundo, 20% têm algum tipo de deficiência, afirma a ONU (Organização das Nações Unidas).

Quem também foi pega de surpresa pela doença e teve de lidar com uma série de dificuldades foi Maria Paula Vieira, 27, jornalista e fotógrafa. Diagnosticada com uma doença genética inconclusiva que acarreta em alguns problemas de mobilidade, ela é cadeirante e mora com a mãe, o pai e o irmão. Ao longo de abril, os quatro se contaminaram com o novo coronavírus.

A jornalista e fotógrafa Maria Paula Vieira é cadeirante e, junto a sua família, teve Covid-19 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
A jornalista e fotógrafa Maria Paula Vieira tem mobilidade reduzida e contraiu a Covid-19 em abril junto a todos de sua casa; sua terapia de reabilitação também foi interrompida na quarentena
Imagem: Arquivo Pessoal

Eles foram avaliados primeiro por meio de telemedicina: um grupo de médicos julgou que os sintomas eram correspondentes à síndrome respiratória. Depois, tiveram a confirmação fazendo o teste em uma clínica. Isolada em casa, a família fez o acompanhamento a partir de videochamadas com uma equipe de um hospital particular da capital paulista.

"Eu sou semi-independente — consigo, por exemplo fazer a transferência, isto é, sair da cadeira e ir pra cama numa boa. Com o vírus, eu sentia que meu peso tinha aumentado, e era muito complicado fazer isso sozinha", explica. Além disso, pedir ajuda era complicado pois não sabiam quem estava ou não infectado antes de serem avaliados. Ela conta que os sintomas começaram com o pai, passaram para ela, e depois a mãe e o irmão tiveram o mesmo quadro. Tudo em cerca de 20 dias.

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos lançou uma cartilha com orientações para PCDs durante a pandemia. A importância de cuidados com a higiene é reforçada, diante de um quadro em que muitas pessoas simplesmente não podem evitar contato físico.

Além da rotina alterada pela doença, Maria Paula teve de mudar sua terapia regular diante da quarentena. Ela faz reabilitação em uma clínica em Santo André (SP), onde mora, mas a necessidade de isolamento social fez o tratamento ser interrompido.

Ela não é a única. A AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), referência na área, manteve apenas os atendimentos de pacientes que ficam internados na instituição e a oficina ortopédica. Para que os pacientes que estão em casa possam manter a rotina de exercícios, foi criada uma lista de vídeos no canal da associação nas redes sociais.

"A gente orienta sobre a forma correta de fazer um treino de marcha ou um alongamento. Além disso, mantivemos a entrega dos aparelhos ortopédicos, entregando nas casas", explica Alice Rosa Ramos, superintendente de Práticas Assistenciais da instituição.

Com a paralisação de atividades presenciais, a associação tem recebido doações geradas a partir de lives de artistas, a fim de garantir a sua continuidade. Valdesir Galvan 56, CEO da AACD, conta que, além da atual crise de saúde afetar a receita, também foram gerados custos extras. "A compra de máscaras e equipamentos para todo o corpo clínico e pessoas internadas já custou mais de dois milhões de reais."

Edson Brito, superintendente de marketing e relações institucionais da associação, diz que a cultura de doação, quando não há uma campanha para este fim, ainda é baixa no país. Com a queda na arrecadação, será necessária a captação por doações de até R$ 130 milhões. Antes da pandemia, a previsão era de R$ 80 milhões arrecadados com donativos.

COMO POSSO AJUDAR?

Cinco associações que auxiliam pessoas com deficiência e estão recebendo doações:

Desigualdade