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Morte no Oiapoque gera alerta por Covid-19 entre indígenas na região Norte

Região do Norte do País, onde concentram-se maior número de povos indígenas no país, sofre com alerta e subnotificação de dados - Alex Pazuello/Prefeitura de Manaus/Agência Câmara de Notícias
Região do Norte do País, onde concentram-se maior número de povos indígenas no país, sofre com alerta e subnotificação de dados Imagem: Alex Pazuello/Prefeitura de Manaus/Agência Câmara de Notícias

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo

12/05/2020 04h00

No início de abril, uma mulher da etnia Palikur morreu por insuficiência respiratória em um hospital de Macapá. A suspeita era de um câncer, já que um teste para detectar a Covid-19 deu negativo. Porém, um mês após o diagnóstico inicial, um novo resultado: a vítima estava com o novo coronavírus quando morreu.

A morte da mulher 35 anos é uma amostra da distância percorrida pelo novo coronavírus rumo aos povos indígenas na região Norte do país. O caso é representativo: a paciente morava na aldeia Kumenê, no Oiapoque, município no Amapá com a fama de ser o "ponto mais distante do país". Além do Amapá, há casos confirmados ou suspeitos entre indígenas no Pará, Roraima e Acre.

A orientação do governo voltada aos indígenas é a mesma dada às cidades: isolamento social. A implementação das medidas, porém, é posta em prática pelos esforços conjuntos entre lideranças indígenas. Uma rede de informação foi criada para encontrar evitar a subnotificação e estimar o tamanho real do problema.

A preocupação de quem está na linha de frente é por soluções que reforcem o isolamento social e criem políticas públicas específicas para diminuir o número de casos suspeitos, confirmados e mortes provocadas pela doença.

Soluções para comunidades indígenas:

Lideranças apontaram caminhos para evitar a disseminação nas aldeias.

1

Ampliar a rede de comunicação entre os povos para compreender expansão do vírus, a despeito do governo federal;

2

Oficialmente, contabilizar indígenas fora das aldeias;

3

Levar informação a aldeias afastadas.

O contágio entre as etnias indígenas tem seguido um padrão. Moradores são infectados ao irem a centros urbanos em busca de serviços, alimentos, atendimento médico especializado e dos R$ 600 do auxílio emergencial.

A vítima no Oiapoque, por exemplo, dirigiu por 10 horas por estrada de terra até Macapá para receber atendimento especializado. O corpo retornou para a aldeia, e por sorte familiares não foram infectados.

Após o caso, a líder comunitária Simone Karipuna e lideranças indígenas no Oiapoque se uniram para controlar quem sai e quem entra na região. Também foram eles os responsáveis por reforçar as indicações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para evitar o contágio. Caciques se organizaram para fechar acessos por terra em aldeias no Amapá, como Terra Indígena Wajãpi, e distribuírem guias para evitar a propagação do vírus.

Os esforços não evitaram que dois indígenas do povo Kaline e três Karipuna adoecessem após terem precisado ir a áreas urbanas — os cinco se recuperam em isolamento.

Atendimento em Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) na região do Oiapoque - Reprodução/Dsei - Reprodução/Dsei
Atendimento em Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) na região do Oiapoque
Imagem: Reprodução/Dsei

A etnia Palikur e os índigenas no Oiapoque, que já enfrentaram surtos de sarampo e gripe que os obrigaram a transitar entre os limites brasileiros e os da Guiana Francesa no início do século 20, enfrentam uma nova tensão.

"A situação no Oiapoque não é diferente de outros povos amazônicos. Há o medo e o cuidado para seguir os procedimentos da Organização Mundial da Saúde a todo momento", diz.

Em Roraima, um menino de 15 anos natural da Terra Indígena Yanomami, que morava no município de Alto Alegre, a 87 quilômetros da capital Boa Vista, morreu de Covid-19. Alvanei Xirixana vivia com lideranças indígenas, mas ia à cidade para continuar o ensino fundamental.

Em dois casos confirmados pela Funai, um indígena Tikuna foi transferido para tratar de problemas cardíacos em uma UTI em Tabatinga, no Amazonas. No hospital da cidade, também morreu devido ao novo coronavírus. Uma indígena da etnia Kokama, internada desde o final de fevereiro, morreu por complicações causadas pela covid-19 em um hospital de Manaus.

O que dizem os dados

Segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), foram confirmadas 16 mortes de indígenas no país. Pouco mais da metade, 9, concentram-se na região do Alto Solimões, no Amazonas.

A região do Rio Negro e Solimões é a que apresenta o maior coeficiente de mortalidade no país, com um índice 251,7 por 1 milhão de habitantes, de acordo com levantamento do UOL a partir de dados oficiais. A Sesai afirma que 214 indígenas foram infectados no Brasil e 72 deles ainda estão.

Como evitar aumento de casos

Para as lideranças na região norte, uma das saídas é a manutenção do isolamento social, atendimento médico especializado, envio de testes rápidos para aferir o tamanho do problema e envio de recursos para evitar que a população tenha de ir às cidades. E, claro, a união entre os povos em busca de soluções.

Uma das coordenadoras da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI/AC), Vera Olinda Sena cobra a criação de uma política de Estado específica para o envio de mantimentos e bens de saúde. Assim seria possível manter indígenas em isolamento por "três ou quatro meses", explica.

"Quanto mais no interior das florestas, mais seguros estarão". De acordo com ela, a sinalização do governo federal em diminuir a pandemia no Brasil também joga contra o respeito mais rígido às regras de isolamento.

Durante entrevista a Ecoa na quinta-feira (7), Vera foi comunicada sobre os primeiros casos confirmados do novo coronavírus entre indígenas no Acre.

O primeiro infectado é um técnico de enfermagem do povo Huni Kuï, que trabalha e mora em Rio Branco. O segundo, também um estudante Huni Kuï. Os dois estavam na capital acreana. O estudante é acompanhado pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Purus, no município em Santa Rosa do Purus. O técnico está em isolamento em Rio Branco.

Corrente de informação

Uma corrente de informação foi uma das soluções para estimar o impacto da doença entre indígenas.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil conta mais de 40 mortes de indígenas por Covid-19 no país. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) contava 49 mortos pela doença somente na região amazônica até quinta (7).

A subnotificação seria causada pela contagem apenas das mortes e infecções de indígenas em aldeias pela Sesai, e não de indígenas que moram ou transitam pela cidade. Dados de 2010, do IBGE, aponta que 36% dos indígenas brasileiros residem em áreas urbanas do país.

Líder comunitária em Oiapoque, Simone (foto) acredita ter sido um "lance de sorte" não haver mais vítimas no ponto "mais distante" do país - Reprodução - Reprodução
Líder comunitária em Oiapoque, Simone (foto) acredita ter sido um "lance de sorte" não haver mais vítimas no ponto "mais distante" do país
Imagem: Reprodução

O atendimento médico dos chamados Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) é, em si, fruto das reivindicações conjuntas dos povos indígenas. Cuidados básicos de saúde são alocados e prestados nas próprias aldeias desde 1999; a medida criou o próprio órgão de atendimento médico indígena ligado ao Ministério da Saúde. Apesar disso, representantes dizem que o serviço não consegue acompanhar a dimensão e a velocidade do vírus.

O representante da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Ubirajara Sompre, do povo Gavião Parkatêjê, que atua pela organização nas reivindicações no atendimento de saúde indígena pela organização, estima um número maior de testes rápidos para conhecer a proporção do problema. "As notificações não estão sendo feitas de acordo com a realidade que o povo está vivendo", defende.

A Sesai afirma que segue a uma cartilha técnica desenvolvida pelos Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei), que está em contato com caciques e apoia as medidas de isolamento apresentada pelas lideranças locais, como fechamento de acessos a terras indígenas. Também afirma enviar testes rápidos para aferir os casos da doença entre os indígenas.

Neste fim de semana, a chamada "Assembleia de Resistência Indígena" debateu políticas públicas e o reforço do isolamento a atendimento médico à população indígena — tudo online e transmitido via YouTube — que mais uma vez é abatida por uma doença oriunda do mundo exterior. O encontro também fez uma cerimônia em memória dos indígenas mortos pela Covid-19.

Ecoa