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Ensino fundamental a distância precisa de 3G melhor e professor capacitado

Ensino à distância pode ser uma alternativa também para o ensino fundamental ao fim da pandemia - Alex de Jesus/O Tempo
Ensino à distância pode ser uma alternativa também para o ensino fundamental ao fim da pandemia Imagem: Alex de Jesus/O Tempo

Raphael Preto Pereira

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

09/04/2020 04h00

Educação a Distância é uma palavra muito comum para quem cursa ensino superior. Mas a chegada da modalidade para a educação básica aconteceu em caráter de emergência com a suspensão das aulas por causa da pandemia do coronavírus.

Agora, a aplicação das EADs para o ensino fundamental traz novos desafios, além da oportunidade de crescimento também fora do ensino superior num futuro próximo. Para as universidades particulares e públicas, por exemplo, o recurso ajuda a driblar os problemas de mobilidade das grandes cidades e permite que estudantes façam as aulas nos horários mais cômodos para eles. A modalidade deu tão certo que já oferece mais vagas do que o modelo presencial — só em 2018 foram 7.170.567 de vagas para o ensino a distância.

"O coronavírus vai acabar fazendo a gente entender melhor o que pode fazer nesse sentido, só que ainda é uma incógnita", aponta o professor João Mattar, diretor da Associação Brasileira de Educação a Distância.

Uma das dificuldades é o acesso dos alunos a equipamentos modernos e a uma internet de qualidade. "Quanto menor a renda do usuário, mais ele acessa a internet apenas por celular", explica o professor da Universidade Federal do ABC, (UFABC), Sergio Amadeu, representante da área acadêmica no comitê gestor da internet do Brasil.

Segundo ele, o acesso à internet via dispositivo móvel chega a 80% nas classes C,D,E. O uso restrito a aparelhos pode trazer alguns problemas para o aprendizado dos jovens. Para Amadeu, o ideal é que o acesso a plataformas educacionais seja feita por computador, em especial pela quantidade de recursos disponíveis, muito maior do que em um smartphone.

O professor João Mattar concorda e diz que a questão socioeconômica dos estudantes precisa ser avaliada, já que muitos dos estudantes da rede pública não possuem computador em casa.

Outro ponto diz respeito à qualidade da internet disponível no Brasil. Como não há uma definição técnica do que é banda larga, fica valendo qualquer conexão acima de 56 kbytes por segundo. "Uma banda 58 kbytes por segundo é sofrível para você assistir uma aula online, por exemplo" alerta Amadeu.

Uma opção seria transformar um aparelho móvel com boa conexão em roteador, de modo a retransmitir o sinal de internet de maneira compartilhada para outros aparelhos, mas não são todos os celulares que possuem essa função e o consumo.

O Secretário de Educação Estadual de São Paulo, Rossieli Soares, afirmou em suas redes sociais que o órgão está desenvolvendo um aplicativo próprio para os estudantes, que poderá ser utilizado sem consumir o plano de dados.

Professores precisam ser capacitados

O professor e diretor João Mattar pontua ainda outra questão importante que deve ser levada em conta antes da implementação da EAD para o ensino fundamental: a capacitação. "Como vamos fazer com os professores? Um bom professor que ministre aula em uma sala de aula não necessariamente será um bom professor à distância. É necessário treinamento", alerta.

Um dos caminhos possíveis é procurar conhecimento justamente de quem já passou por esse processo no passado. "Uma boa opção é procurar as universidades federais e estaduais. Elas provavelmente têm um centro de EAD bem organizado, e podem auxiliar", acredita.

Outra preocupação neste momento de definições de modelo deve ser acerca da privacidade desses jovens, ainda menores de idade.

Para Pedro Hartung, coordenador do Instituto Alana, referência na defesa dos direitos das crianças e adolescentes, é necessário proteger os dados dos alunos usuários das plataformas. "É preciso que as escolas expliquem corretamente para onde vão esses dados. É imperativo que não se crie um rastro digital, e é imperativo escolher plataformas que não abram espaço para publicidade infantil, por exemplo."