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Não erre como eu

Um coletivo aprendeu que lanche e alumínio podem assustar um morador de rua

Mariana Centini, 36, é coordenadora do coletivo Entrega por SP  - Divulgação
Mariana Centini, 36, é coordenadora do coletivo Entrega por SP Imagem: Divulgação

Débora Komukai

Colaboração para Ecoa

08/01/2020 04h00

Mais que passar fome, viver em situação de rua é perder a identidade. Dessa dor, que poucos conseguem perceber, nasceu o Entrega por SP, uma rede de voluntários que, uma vez por mês, roda de carro ou a pé por nove rotas espalhadas entre as zonas Norte e Sul da Grande São Paulo. Durante a ação, que ocorre durante o fim de noite e madrugada, os voluntários entregam a pessoas em situação de rua um kit com oito itens: escova e pasta de dentes, sabonete, par de meias, roupas, garrafa d'água, bolacha e sanduíche.

Mas o projeto não fica restrito ao apoio material, já que o principal objetivo do coletivo é oferecer afeto, abraços e uma simples conversa. "Muita coisa chega às ruas. Mas, o que para gente é natural saber e falar o nome, para quem está em situação de rua não é. Já teve morador que me disse que há anos ninguém sentava e perguntava como ele se chamava, e que só de estarmos fazendo isso é como se tivéssemos devolvendo a dignidade dele", afirma a professora Mariana Centini, 36, coordenadora do Entrega por SP.

O movimento teve início em 2013 e, hoje, reúne em média 150 voluntários em suas reuniões mensais. Uma quinta-feira é o dia escolhido. O ponto de encontro fica na praça Horácio Sabino, em Pinheiros, na Zona Oeste. De lá, os grupos são divididos e escolhem uma rota para entregar os kits. No entanto, nem sempre foi assim. No começo, as entregas aconteciam às terças-feiras, mas Mariana e os coordenadores perceberam uma queda na frequência dos voluntários — havia a semana pela frente, e a maioria do quórum precisava acordar cedo para trabalhar.

ERRO Não pesquisar quais dias funcionam melhor para a maioria dos voluntários de antemão

APRENDIZADO Realizar reuniões constantes entre o grupo, ouvir a experiência de cada voluntário e agir de forma rápida para a frequência do grupo não diminuir.

Por meio de feedbacks coletivos — que ocorrem no fim de toda atividade —, a coordenação percebeu que o dia da entrega afetava o grupo. Mariana lembra que a equipe cogitou fazer as ações de sexta-feira, dia mais votado entre os voluntários, mas descartou a ideia. "Também perguntamos para as pessoas em situação de rua se iríamos conseguir encontrá-las durante esses dias (sexta-feira). Muitos falaram que sexta-feira é o dia que eles saem para catar latinhas, já que é um dia de movimento na cidade. Também percebemos que na sexta-feira tem mais gente que fica na rua mesmo não morando nela", explica Mariana.

Quandos se fala em doações, é normal a preocupação sobre o sucesso na arrecadação de fundos e produtos. No caso do Entrega, a questão caminhou para a direção oposta. No começo do movimento, com 1.400 kits entregues em apenas uma noite, o coletivo esbarrou em um empecilho: a casa dos coordenadores, que na época serviam de ponto de coleta, ficaram pequenas para o volume de produtos.

Além disso, com a quantidade de doações aumentando, o movimento seguiu a crescer, e os horários para receber as coletas, que seguiam a disponibilidade dos donos das casas, precisavam ser em tempo integral. Sem espaço e braços para atender a demanda, Mariana lembra que chegaram a encaminhar doações a outros coletivos e projetos voluntários.

Nesse cenário, os coordenadores apostaram nas parcerias. Lojas e até instituições educacionais, espalhadas em locais como Centro de São Paulo, Paulista, Higienópolis, Pinheiros, Vila Madalena, Vila Carrão e Osasco, abriram espaços para receber doações em dias pré-estabelecidos e, em sua maioria, durante o horário comercial, o que permitiu atender um público maior.

ERRO Não ter espaços apropriados e nem uma agenda fixa para receber as coletas.

APRENDIZADO Trabalhar com parcerias em diferentes regiões de São Paulo atendendo assim um maior número de pessoas e ter horários estabelecidos para receber as coletas.

Trabalhar em uma situação muito diferente da sua realidade gera aprendizado. O ato de entregar um alimento pode parecer benevolente e inofensivo, mas cada medo e reação dependem da realidade que você vive. Mariana lembra que um sanduíche embalado em papel alumínio chegou a ser confundido com uma faca — o coletivo ainda não contava com orientação para a produção e embalagem da comida. "A pessoa muitas vezes já está dormindo quando realizamos a entrega, então quando ela acordou, viu só o reflexo e assustou. Daí a gente entendeu que os sanduíches precisam ser embalados em plástico filme ou papel", explica.

ERRO Não analisar a realidade e os traumas das pessoas que recebem as entregas

APRENDIZADO Levar o caso adiante, explicar para todo o coletivo o que aconteceu, padronizar a confecção dos sanduíches com outro material e de forma idêntica para evitar outras situações

O Entrega por SP se define como uma mobilização social sem vínculos políticos ou religiosos. Para participar das caminhadas e entregas, a única regra é ter completado 18 anos. Entre os cerca de 150 voluntários em cada ação, há sete coordenadores, um time de fotógrafos e puxadores de rota — pessoas com mais experiência que ajudam a coordenar a entrega.

No processo de preparação, há uma divisão de grupos e tarefas entre o dia da coleta, o dia de organização dos itens no depósito e a vida pessoal e profissional dos envolvidos. Esse último ponto poderia comprometer a adesão de novos voluntários devido a uma possível demora no retorno a interessados, mas Mari e os coordenadores perceberam que a transparência sobre as dificuldades é a melhor estratégia para o Entrega funcionar de maneira saudável. "Sempre tentamos deixar claro que somos uma mobilização. Então, às vezes, demoramos um pouco para responder, mesmo fazendo o nosso melhor porque todo mundo aqui é voluntário", afirma a coordenadora.

Essa transparência vale mesmo para questões burocráticas. Mariana lembra que, no início do movimento, eles tinham receio em falar para empresas interessadas em apoiar as atividades que o Entrega não tinha CNPJ, o cadastro de pessoa jurídica que serve de identificação para a Receita Federal.

ERRO Não ter uma comunicação clara com os apoiadores mostrando quais eram as limitações do coletivo

APRENDIZADO Falar desde o início que o Entrega é um coletivo e que todos são voluntários para assim conseguirem uma comunicação e resultados melhores para o projeto

"Então o aprendizado foi ser transparente nas nossas dificuldades, porque assim mais ajuda se consegue. Quando se mostra as dificuldades, os outros entendem e tentam te ajudar, porque no final não é só a gente que está querendo que isso chegue até as ruas", conta Mariana, que lembra como o Entrega surgiu em um momento especial na sua vida.

"Me sentia sozinha na época. Daí recebi o convite. Fui para as ruas, passei a madrugada inteira conversando, trocando histórias, risadas. Quando eu cheguei em casa, meu coração estava preenchido. Não me sentia mais sozinha", afirma.

Não erre como eu