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Grande ideia

Brasileira que criou esponja capaz de sugar petróleo lamenta nova tragédia

Raíssa Müller desenvolveu membrana de alta absorção enquanto era estudante do curso técnico em química - Arquivo pessoal
Raíssa Müller desenvolveu membrana de alta absorção enquanto era estudante do curso técnico em química Imagem: Arquivo pessoal

Antoniele Luciano

de Ecoa

12/10/2019 07h00

Dos Estados Unidos, a gaúcha Raíssa Müller, de 23 anos, acompanha o noticiário brasileiro como quem assiste a um filme conhecido. O desastre ambiental que atinge a região Nordeste, a partir do derramamento de óleo cru no litoral em setembro, a fez se recordar, mais uma vez, de um caso ocorrido no Rio Grande do Sul, em 2006.

Apesar de a estudante ter só 11 anos naquela época, o efeito da catástrofe no Rio dos Sinos, que resultou em 86 toneladas de peixes mortos após o despejo de resíduos poluentes, foi tão marcante na vida da então menina que a levou a desenvolver, anos mais tarde, um projeto premiado.

Em 2014, no ensino médio, Raíssa criou uma esponja capaz de sugar óleos como o petróleo. O projeto ganhou vários prêmios, porém não chegou à indústria. "É muito triste ver isso acontecendo. Me sinto num ciclo infinito", comenta a jovem.

Desenvolvimento da esponja

O invento de Raíssa fez parte dos projetos desenvolvidos por ela enquanto aluna na Fundação Liberato Salzano Vieira da Cunha, uma escola técnica de Novo Hamburgo, a 43 quilômetros de Porto Alegre (RS). A instituição é conhecida por incentivar a pesquisa junto aos estudantes e já foi tema de reportagem de Ecoa. "No curso de Técnico em Química, retomei a ideia em relação ao que tinha visto no Rio dos Sinos. Do terceiro ao quarto ano, desenvolvi o projeto com vários professores. A ideia era criar um material em laboratório, um protótipo", relata.

Com apoio de orientadores e do colega de turma Gabriel Chiomento da Motta, ela conseguiu, em meio a um ano de testes, chegar a um material chamado criptomelano, nas condições desejadas. O composto desenvolvido, além de apresentar alta capacidade de absorção, age seletivamente em relação aos líquidos, isto é, absorve apenas óleos. "Deu muito errado por muito tempo, vários protótipos que fizemos não deram certo. Eram materiais que tinham potencial para esponja, mas não funcionavam bem", observa Raíssa.

Criatividade e sustentabilidade

O resultado esperado, no entanto, logo veio: o processo de fabricação da membrana acabou consistindo em uma série de etapas de pesquisa. Além dos equipamentos disponíveis em laboratório, a gaúcha usou da criatividade para fazer o estudo ir além - a lista de materiais incluiu um recipiente de achocolatado, uma escumadeira e até uma frigideira com fundo de teflon. "Primeiro, foi preciso fazer o composto, torná-lo sólido. Depois, abrir os poros do composto para tornar a absorção muito alta, fazer esse composto ser seletivo só para absorção de óleos e não de água e, o último passo, fazer o composto ser sustentável e conseguir ser limpo", pontua.

Pesquisa em laboratório incluiu panela com fundo de teflon: ao centro, a membrana sólida criada por Raíssa Müller - Arquivo pessoal
Pesquisa em laboratório incluiu panela com fundo de teflon: ao centro, a membrana sólida criada por Raíssa Müller
Imagem: Arquivo pessoal

A ideia, complementa Raíssa, era criar a possibilidade de retornar o óleo absorvido para a indústria e utilizar a membrana novamente. Batizada de MASE - Membrana de Absorção Seletiva, a esponja pode ser usada até cinco vezes. Raíssa calcula que, para cada centímetro cúbico de membrana, sejam absorvidos 22 centímetros cúbicos de óleo. O custo estimado para a produção era de R$ 15 o quilograma.
Segundo a jovem, o aproveitamento do material poderia ir além do uso para remediar acidentes ambientais. É o caso da utilização preventiva em marinas, postos de combustíveis e até para evitar que o óleo de cozinha chegue a mananciais.

Novos horizontes

Projeto foi levado por Raíssa e Gabriel da Motta (esq.) à Feira Internacional de Ciência e Engenharia (ISEF), nos EUA - Arquivo pessoal
Projeto foi levado por Raíssa e Gabriel da Motta (esq.) à Feira Internacional de Ciência e Engenharia (ISEF), nos EUA
Imagem: Arquivo pessoal

A pesquisa desenvolvida pela gaúcha foi levada para feiras nacionais e internacionais, incluindo o congresso de inovação da Harvard, a Feira Internacional de Ciência e Engenharia (ISEF, na sigla em inglês) e a Feira de Ciências do Google (GSF, na sigla em inglês), em 2014. O protótipo foi o primeiro projeto brasileiro a receber a premiação da GSF.

Foi nessa época que a estudante percebeu que poderia traçar uma trajetória diferente da imaginada por ela até então. Conseguiu ser aprovada para estudar Psicologia e Neurociência em Yale, no estado americano de Connecticut, onde vive há três anos. "Foi todo um processo de perseverança. A pesquisa, com certeza, ajudou com que eu fosse aceita na universidade", explica.

Colocar o projeto da MASE para ser produzido em escalas maiores, no entanto, ainda continua suspenso. "Seria superlegal levar para escala maior, mas a questão foi o 'timing'. Eu também não tinha recursos para isso. Tudo que eu tinha à disposição era um pequeno laboratório de ensino médio", diz Raíssa, ao avaliar que todo o planejamento para produzir um grande bloco de esponja capaz de absorver o óleo e repelir a água demandaria mais pesquisas e uma estrutura maior. "Há uma falta de interesse por questões ambientais e essas coisas [desastres] vão se repetindo", lamenta.