Tony Marlon

Tony Marlon

Siga nas redes
Só para assinantesAssine UOL
Opinião

Com apenas 23 anos, Vini Jr. parece lutar sozinho no campo contra o racismo

Na última quarta-feira (13), o brasileiro Vinicius Junior foi, mais uma vez, alvo de ataques racistas por parte de torcedores espanhóis. Agora o crime partiu da torcida do Atlético de Madrid, com músicas e gestos. Vinicius nem ao menos entrou em campo.

Até o momento em que escrevo este texto nenhuma entidade representativa do futebol, nenhum patrocinador do campeonato, clube ou jogador de expressão mundial condenou o que aconteceu. E mais que isso: ninguém ofereceu nenhuma ação prática para que as coisas parem por aqui. E por aqui já é longe demais.

Isso não me assusta tanto, e isso é infelizmente. Não deveria. O que é a vida de alguém numa correnteza sem fim de euros que entra por segundo em tantos bolsos?

Pode não parecer, já que lemos e escutamos sobre o Vini há algum tempo, mas o atacante tem apenas 23 anos de idade. É pouca idade para sustentar sozinho nesse momento algo tão grande e grandioso: a luta contra criminosos racistas não só em seu país de trabalho, mas vindo de todos os cantos do planeta. É muita coisa para uma pessoa só, gente.

Agora, pense em você com essa idade e tente se colocar no lugar dele. Como estaria a sua cabeça ao enfrentar essa violência absurda e criminosa, dia após dia, em tudo quanto é lugar que você fosse, e até mesmo quando não fosse? Que foi o caso de ontem.

Como estaria a sua saúde mental ao saber que, enquanto estivesse fazendo algo que ama, centenas, milhares de pessoas estão verbalizando e desejando o seu mal em alto e bom som, e ninguém parece se chocar muito com isso. Só você e quem se parece com você.

A certeza da impunidade faz com que cada vez mais torcedores se sintam no direito de fazer o que fazem. Perceba que não para, se espalha. Os próprios criminosos filmam, colocam nas redes sociais. A barbárie virou paisagem, como escrevi por aqui outro dia. E mais que isso nesse caso: rende likes, reconhecimento e, quem sabe, até algum dinheiro com publi. Isso está muito errado, não te revolta?

Há outra parte dessa história que é a conivência das estruturas, sejam elas os clubes, as federações ou as entidades de classe. Vini Jr aponta o dedo, sem dó, para quem se beneficia de um jogo que não para, mesmo com tantos absurdos em campo. Coisa a que essas estruturas não estão acostumadas: serem questionadas. E elas reagem como? Notas de repúdio que não movem nada na sociedade. Ou, questionando quem sofre as violências. Javier Tebas, presidente da LaLiga, organizadora do Campeonato Espanhol, vira e mexe insinua que Vini exagera nas críticas à falta de ações. Veja bem você.

E existe uma terceira camada de pessoas envolvidas nesse ciclo de violência, que igualmente poderiam agir e transformar tudo: os jogadores. Mas, nada. Uma ou outra voz que se levanta - geralmente pessoas negras buscando se defender; uma ou outra publicação que é feita e é isso; um ou outro comentário sobre o absurdo que é tudo isso, mas daí em diante, nada também.

Continua após a publicidade

Imagine só se metade dos jogadores do Espanhol se recusassem a entrar em campo, rodada após rodada, enquanto não existissem punições severas a esses criminosos? Imagine só se dois clubes saíssem de campo toda vez que fossem identificados cânticos e ofensas racistas num estádio? Mas, nada. Nada acontece. Semana após semana. 23 anos de idade, leitores. O Vinicius tem 23 anos de idade e parece ter que enfrentar tudo isso sozinho. Não é um absurdo?

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Deixe seu comentário

Só para assinantes