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Tony Marlon


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Relatório inédito mostra casos de racismo crescendo no futebol brasileiro

Roger Machado, técnico do Bahia, e Marcão, treinador do Fluminense, vestem camiseta do Observatório da Discriminação Racial no Futebol durante partida válida pelo Campeonato Brasileiro - Thiago Ribeiro/AGIF
Roger Machado, técnico do Bahia, e Marcão, treinador do Fluminense, vestem camiseta do Observatório da Discriminação Racial no Futebol durante partida válida pelo Campeonato Brasileiro Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Tony Marlon

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro ? UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

07/08/2020 10h53

O Fluminense ter batido o Bahia por 2 a 0 foi o assunto menos falado nos programas esportivos e nas rodas de bar naquela noite de sábado, abertura da 25ª rodada do Campeonato Brasileiro, que seria vencido algumas semanas depois pelo Flamengo.

O encontro entre Roger Machado e Marcão, os dois únicos técnicos negros na elite do futebol brasileiro, rendeu conversas e reportagens por dias, dentro e fora do mundo esportivo. Virou manchete no The Guardian. A entrevista de Roger, ainda no vestiário, começou assim:

"Não deveria chamar a atenção dois treinadores negros se enfrentando depois de terem passagens como protagonistas no campo. Mas isso é a prova que existe preconceito. Temos mais de 50% da população negra, mas a proporcionalidade não é igual".

A história que rodou o mundo expondo como o racismo estrutura a sociedade brasileira, inclusive no futebol, começou no Twitter, alguns dias antes. Marcelo Carvalho usou seu perfil para convidar os dois clubes para uma ação, ao perceber que muitos jornalistas o procuravam para comentar algo que não deveria ser inédito no país com maior população negra no mundo, depois da Nigéria: dois homens negros treinando grandes clubes.

"Eu marquei o Fluminense e o Bahia dizendo que gostaríamos de ver os dois técnicos com a camiseta do observatório, e saí. Quando voltei de um compromisso aquilo tinha tomado uma proporção gigantesca, as pessoas compraram a ideia e passaram a mandar mensagens para o clube", me explicou.

A camiseta que Marcelo se refere é a do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, iniciativa criada por ele para mapear, denunciar e acompanhar o desdobramento de práticas racistas no esporte brasileiro.

Apaixonado por futebol, de passar fins de semana inteiros nos campos de terra perto de sua casa, na periferia de Porto Alegre, Marcelo começou a se perguntar na pós graduação porque alguns assuntos simplesmente não faziam parte do universo do esporte mais popular do país. Antes disso, até: porque não existiam naquele momento presidentes de clube, de federações, pessoas que se parecessem com ele, nos espaços de tomada de decisão do futebol? Marcelo tem uma hipótese:

"O futebol brasileiro é, basicamente, famílias se revezando no poder. Se você prestar atenção vai ver que o atual presidente, em algum momento, teve algum familiar que já foi da diretoria daquele clube. Essa estrutura permite pouco a entrada de pessoas empobrecidas ou negras", avalia. "Para você ser presidente de um clube você tem que ter, no mínimo, tempo livre para doar. De graça. Quantas pessoas negras tem hoje condições de trabalhar em algo sem um retorno financeiro?".

As muitas perguntas que iam se acumulando em sua imaginação de torcedor viraram o que hoje é o observatório no ano de 2014, depois de sucessivos casos de racismo espalhados pelo país. De um, em especial.

Em março, em partida válida pelo Campeonato Gaúcho, o árbitro Márcio Chagas da Silva encontrou seu carro amassado e coberto por bananas após trabalhar apitando Esportivo e Veranópolis. O Esportivo perdeu 9 pontos por causa do que aconteceu. Recorreu da pena, diminuiu para três pontos, acabando rebaixado.

Foi a partir daí que Marcelo passou a monitorar os casos, os organizando em um relatório anual com seus desdobramentos, além de fazer recomendações e trazer boas práticas ao redor do mundo que poderiam ser adotadas por aqui. O relatório de 2019, que ainda não foi lançado por conta da pandemia, apontou 65 casos de racismo envolvendo jogadores e outros profissionais do futebol. Em 2014 foram 20 registros.

Os casos têm aumentado ou a imprensa, em especial, melhorou sua cobertura sobre o tema? Para Marcelo, um pouco de cada. Ele explicou que muitos jogadores, especialmente os mais novos, tem se posicionado mais. Com as redes sociais, isso ganha repercussão rapidamente. Que perto do que acontecia há alguns anos já conseguimos dar passos importantes, mas ainda temos um longo caminho pela frente. Para ele, a luta antirracista precisa de aliados poderosos que ainda não entraram neste jogo.

"É um efeito cascata: se as federações passam se posicionar institucionalmente, os clubes e os jogadores se sentirão seguros e incentivados para seguir este caminho. A gente não tem no Brasil uma engrenagem funcionando neste sentido".

Para exemplificar o que precisaria ser feito, Marcelo contou sobre a MLS, a liga norte americana de futebol, e a NBA, que organiza o basquete por lá. A primeira fez de seu jogo inaugural um grande manifesto em favor do movimento Vidas Negras Importam.

O segundo tem uma estratégia especial de comunicação reforçando a todos momentos que a luta antirracista é uma responsabilidade de toda a sociedade. Por aqui, me explicou Marcelo, "ainda temos posicionamentos isolados, de clubes e atletas. Falta uma onda institucional parecida com os Estados Unidos".

Em especial, falta um dos craques deste jogo. Aquele que mantém tudo de pé, funcionando, para você e eu só gritarmos gol: os patrocinadores. Marcelo aponta que, estranhamente, marcas que estão envolvidas em campanhas e ações antirracistas em diversos campeonatos pelo mundo simplesmente não se posicionam por aqui. A explicação, segundo ele, pode estar em um traço cultural da nossa sociedade.

"Não temos aqui no Brasil a cultura de boicotar empresas, como acontece nos Estados Unidos. É essa pressão popular que faz as marcas se posicionarem, apoiarem lutas como essa contra o racismo. Por aqui o torcedor quase não liga o patrocinador que aparece na camisa com o seu clube de coração".

Para fechar, um pedido e uma dica: que as pessoas parem de acreditar que apenas árbitros e jogadores negros precisam se posicionar e denunciar práticas racistas. Em artigo recente na Folha de São Paulo, Marcelo explicou como essa cobrança exclusiva é só mais um dos vários pesos a serem carregados por estes profissionais. A luta antirracista é uma obrigação civilizatória.

Aqui, um fica a dica para quem toma decisões no mundo do futebol: "Deixei diversas ideias e propostas nas mesas de dirigentes, especialmente de federações. Precisamos de ações estruturais. É isso que o observatório que está olhando agora", finaliza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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