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Primeira Infância

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

2022: Comida no prato, vacina no braço e escolas abertas

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Imagem: iStock

Luanda Nera e Carol Guimarães

07/01/2022 13h26

O Ano-Novo chegou e, como sempre, as esperanças em uma vida e um mundo melhor se renovam a cada janeiro. Mas não basta esperançar, não é? É preciso agir, fazer de 2022 um ano realmente novo. E, então, por onde começar?

No âmbito pessoal, o movimento reflexivo vem acontecendo e se aprofundando devido a tudo o que estamos enfrentando nessa crise global que a pandemia instaurou dentro e fora de nós. Repensamos nossos hábitos, nossas relações, nossos lugares de pertencimento e começamos de fato a mudar nossos comportamentos.

Na sociedade brasileira também é hora de retomar o olhar para o que é mais básico. Seis em cada dez lares brasileiros vivem hoje situações de insegurança alimentar. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contam que 5,4 milhões de crianças de 0 a 6 anos (28% do total) vivem em domicílios pobres, com renda mensal abaixo de R$250. Um artigo publicado no Jornal de Pediatria em 2021 demonstrou que a desnutrição está diretamente associada a piores resultados no desenvolvimento infantil no âmbito da comunicação, no desenvolvimento motor e nas habilidades sociais.

Não há como escapar, é preciso comida no prato. Fortalecer políticas públicas como as de transferências de renda do governo federal e também as ligadas à primeira infância no âmbito estadual, como o recém-criado CRIA em Alagoas ou o Mais infância Ceará, é assumir que ainda precisamos olhar para o básico. São recursos que apoiam as famílias mais pobres na criação de melhores condições para que seus filhos possam atingir seu potencial, não podem ficar para trás.

Nós, da sociedade civil, também podemos fazer a nossa parte. Apoiar organizações que trabalham para favorecer a alimentação saudável e o enfrentamento à insegurança alimentar. As ONGs Gastromotiva e Banco de Alimentos são exemplos de que a união faz a força e todos podem ser parte da solução: governo, iniciativa privada, sociedade civil organizada e cada um de nós, como cidadãos. Se queremos assegurar o capital humano na vida adulta precisamos dar condições para que as crianças se desenvolvam.

A vacinação é outro ponto de gigantesca atenção. Pela primeira vez na história o Brasil não atingiu as metas mínimas de vacinação em 2019 e 2020. A vacinação contra o sarampo, por exemplo, que contava com a meta de 95% de cobertura, não chegou a 70% em 2020. E os dados preliminares de 2021 são ainda bem piores. Estima-se que a cobertura vacinal tenha sido abaixo dos 50% no ano passado, segundo dados do Datasus. Mais preocupante não poderia ser. Precisamos retomar com afinco o calendário vacinal dos nossos bebês. Há outras epidemias se formando, ganhando força, e não podemos deixar isso acontecer. É hora de retomar com toda garra o calendário vacinal do qual sempre nos orgulhamos e de que somos exemplo para o mundo todo.

Por fim: crianças precisam ir para a creche e para a escola. A pandemia impediu que crianças frequentassem creches e escolas por um tempo grande demais, maior do que em quase todos os países do mundo. Uma vergonha nacional ter shoppings e clubes abertos e escolas fechadas. Perdem oportunidades de interações preciosíssimas nesse começo da vida. Embora a educação infantil seja obrigatória a partir dos 4 anos no Brasil, ainda temos mais de 7% das crianças brasileiras fora da escola nessa idade. Precisamos universalizar a escola para essa faixa etária além de retomar a busca ativa pelos jovens que desistiram durante a pandemia. Quanto às creches, a meta de 50% de cobertura segue ativa e precisa ser perseguida, oferecendo educação de qualidade para todas as famílias que querem e precisam. Ainda temos apenas 34% das crianças brasileiras de 0 a 3 anos em creches.

A falta de creches ou da escola afasta também muitas crianças da boa nutrição e das campanhas de vacinação. Também impede os cuidadores da possibilidade de ter o processo educativo de seus filhos compartilhado com o estado, gerando condições de trabalho e geração de renda para a família, saúde mental e maior qualidade de ofertas de experiências positivas para seus filhos. Sozinhas, as famílias ficam estressadas, cansadas e, muitas vezes, agressivas e violentas.

Comida no prato, vacina no braço (não só a da covid!!!), escolas abertas, ativas e atentas, responsabilidade compartilhada. Sejamos parte da solução para um 2022 novo, tático, mostrando que é possível, com nossos comportamentos, mudar o mundo das nossas crianças a cada ato, a cada dia, a cada ano.

(Por Claudia Vidigal, mestre em psicologia social e representante da Fundação Bernard van Leer no Brasil)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL