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Primeira Infância

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gestação, o começo de tudo

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Imagem: iStock

Luanda Nera e Carol Guimarães

09/07/2021 06h00

A atenção à gestante é a primeira estratégia de cuidado para a primeira infância. Hoje o Brasil pode se orgulhar de uma cobertura elevada da assistência pré-natal, chegando próxima aos 99%. O Ministério da Saúde recomenda um mínimo de seis consultas durante a gravidez, mas, para além da saúde física, a gestante demanda também acompanhamento em aspectos relevantes ao desenvolvimento infantil, como a saúde emocional da mãe, a rede de apoio que encontra entre amigos e familiares e orientações sobre a construção do vínculo com o bebê.

Os avanços conquistados ao longo de décadas ficaram ameaçados durante a pandemia do coronavírus, já que os números por aqui são bem assustadores: segundo a Fiocruz, em julho de 2020 o Brasil era responsável por 77% das mortes mundiais de grávidas e puérperas por covid-19. O problema envolve, ainda, a questão racial, já que a mortalidade materna em mulheres negras devido à covid-19 foi quase duas vezes maior que a observada em mulheres brancas.

Para acolher as necessidades específicas de bebês, crianças e seus cuidadores, gestores se apoiam em programas e diretrizes técnicas que subsidiem ações locais. No Rio Grande do Sul, o Programa Primeira Infância Melhor (PIM) é uma política intersetorial de promoção do desenvolvimento integral na primeira infância, regido por legislação estadual desde 2003.

Em São Paulo, a Rede Municipal de Atenção Materno Infantil consolida o Programa Mãe Paulistana, uma estratégia do SUS que tem como objetivo dar assistência durante o ciclo da gravidez, desde as consultas de pré-natal até o segundo ano de vida do bebê.

Mas, se é localmente que os gestores têm de lidar com o desafio de oferecer serviços públicos de qualidade e para todos, o gargalo permanece nas cidades. Assim como a manutenção das praças e parques, calçadas e passeios públicos, cabe ao gestor público municipal a entrega dos serviços básicos de qualidade e para todos os cidadãos, dos bebês aos idosos.

Não é de se estranhar, desta forma, que ainda existam desafios para o atendimento das gestantes brasileiras, especialmente aquelas que vivem fora dos grandes centros urbanos. Para superá-los, os grupos informais de mulheres (gestantes, mães ou aquelas que ainda planejam ter filhos) ocupam um lugar fundamental na nossa sociedade. Essa rede solidária de trocas acaba cumprindo o papel, inclusive, de informar sobre os serviços públicos oferecidos e as instituições que acolhem pais e filhos nas primeiras fases da vida.

Pioneira no parto humanizado no Brasil, a Casa Angela, em São Paulo, oferece atenção humanizada na gestação, parto e primeiro ano de vida do bebê, além de formações, pesquisa e consultoria na área. Iniciado ainda nos anos 1980 com o trabalho de uma enfermeira alemã (que depois deu nome ao espaço), é referência em assistência humanizada e organização comunitária e social.

Já na cidade litorânea de Praia Grande (SP), iniciativas mais abrangentes, que se propõem a uma abordagem holística, estão garantindo a atenção integral, como o projeto Mãe Coruja e o Espaço da Gestante. O objetivo é incentivar a participação nas consultas, exames e procedimentos relacionados ao pré-natal, com o objetivo de colaborar para redução do índice de mortalidade infantil. A gestante que realizar todo o acompanhamento ganha uma bolsa para bebê com enxoval e itens de higiene. O agente comunitário de saúde faz a busca ativa da gestante, a equipe de enfermagem oferece o atendimento inicial e colhe alguns exames e o médico realiza a consulta.

E as ações vão além da preocupação com o aspecto físico da futura mãe. Os projetos preveem atendimentos de profissionais do Núcleo Ampliado da Saúde da Família na Atenção Básica (Nasf-AB) como nutricionista, assistente social e dentista. O esforço não foi em vão para a cidade, que reduziu a mortalidade infantil de 41% para 13% entre 1995 e 2016.

Da mesma forma, os benefícios de uma ação integral não se restringem à saúde física do bebê - os impactos podem ser sentidos ao longo de toda a vida. Relatório da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal reuniu pesquisas sobre o desenvolvimento de bebês a partir da gestão. Um dos resultados aponta que, por volta da vigésima quinta semana de gestação, os bebês já são capazes de apreender experiências e sensações que podem ser consideradas aprendizados.

A complexidade que cerca a construção de um ambiente ideal para bebês e crianças reforça a importância de um atendimento integral para as gestantes. A ampla cobertura do SUS é fundamental para dar acesso aos cuidados de saúde em um país continental como o Brasil, mas é na capilaridade das cidades que permanecem os gargalos do atendimento. É também no local que surgem as ideias mais criativas, os projetos mais inovadores e as mais inesperadas articulações.

Carol Guimarães estará distante nos próximos meses vivenciando, agora na prática, a primeira infância na cidade durante sua licença-maternidade

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL