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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Casa própria para quem? O Brasil financeiro que não entende os Brasis

FG Trade/Getty Images
Imagem: FG Trade/Getty Images
Fernanda Ribeiro

Fernanda Ribeiro

É CCO da Conta Black, Fellow IVLP - Internacional Visitor Leadership Program, Conselheira Administrativa no Instituto C&A, finalista do prêmio Global Tech Innovator da KPMG, vencedora do Prêmio Empregueafro Talento da Diversidade e Prêmio CITI Jovens Empreendedores. Reconhecida na lista dos 50 profissionais Hustlers a serem seguidos segundo a Gama Academy. Formada em turismo e pós graduada na área de comunicação corporativa, atuou em empresas multinacionais. Dedica-se também ao desenvolvimento de ações e programas para fomento da diversidade, inclusão econômica e social relacionados às temáticas de gênero e étnico-raciais, com ênfase em empreendedorismo e finanças. Foi finalista do Prêmio ECOA 2021 na categoria Empresas que Mudam.

06/04/2022 14h34

Constantemente ouvimos de educadores financeiros que a tão sonhada casa própria não pode ser considerada como um investimento. Do ponto de vista racional, esse conceito pode ser factível se considerarmos a realidade de um sujeito extremamente organizado financeiramente, com uma boa renda, conhecimento técnico para fazer um investimento mensal de no mínimo 25% do salário, e sobra de orçamento para seguir arcando com as despesas da locação de um imóvel e com as demais, provenientes da vida real.

Acontece que essa infelizmente está longe de ser a realidade de boa parte dos brasileiros, principalmente quando consideramos que o nosso salário mínimo está longe do que poderia ser considerado ideal. Segundo o Dieese, o valor condizente seria R$5.900, quase cinco vezes mais, comparado ao atual que é R$1.212. Não podemos também ignorar os impactos recentes ocasionados pela pandemia. Segundo a FGV, a renda média da população caiu 9% comparada à de 2019.

Cada vez mais as pessoas precisam recorrer à geração de uma renda extra para sobreviver, na contramão do esperado, que seria uma renda complementar para ser destinada aos investimentos.

Todo esse cenário contempla apenas as pessoas bancarizadas, imagina se considerarmos a fatia de aproximadamente 34 milhões de brasileiros que sequer possuem uma conta bancária e que por sua vez movimenta mais de R$ 1,4 trilhões fora do sistema financeiro tradicional. Sim, essas pessoas em sua maioria não têm casa própria e estão bem longe da realização desse sonho.

Recentemente tive a oportunidade de conversar com o Anderson Ferreira, que aos 43 anos havia passado por simplesmente 26 mudanças de casa ao longo da sua infância/adolescência. A sua família era considerada "não grata" pela maioria dos locatários, porque era composta por seis crianças. Há cinco décadas os casais brasileiros tinham em média seis filhos; atualmente, dados do IBGE apontam para uma média de dois.

Se avaliarmos as despesas de uma então família brasileira "tradicional", sabe lá Deus para quem, que não contemplaria as mães-solo, por exemplo, a realidade financeira é totalmente outra, afastando cruelmente a possibilidade do acesso ao lar.

Observando esse cenário, é muito nítido o quanto a escassez é uma condição recorrente e é gratificante quando ela se transforma em abundância. É injusto limitar quem vive essa realidade a uma única escolha. A realização desse "sonho" carrega consigo uma perspectiva de segurança. Ter uma casa para chamar de sua é a materialização do que chamamos de realização. É preciso considerar que, diariamente, a perspectiva de futuro de muitas pessoas é ceifada e ter um lar é, sim, uma conquista.

Finalizo com a pergunta: Será que o sistema financeiro atual contempla as múltiplas realidades brasileiras? Precisamos urgentemente de pessoas diversas sentadas nas mesas de decisão, sobretudo segurando as canetas.

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