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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Empreendedorismo negro: mesmo padrão de sucesso, diferentes oportunidades

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Tamila dos Santos

Tamila dos Santos

De Salvador. Assistente social (UFBA) e especialista em Gestão de Inovação Social, Tamila dos Santos é apaixonada por educação, diversidade e inovação e acredita seriamente na importância de construirmos futuros mais inclusivos. Atua e tem experiência com inovação, empreendedorismo e diversidade, sendo fundadora e diretora executiva da Afroimpacto - Escola de Afroempreendedorismo.

03/04/2022 06h00

Nunca se falou tanto sobre ser seu próprio chefe e ganhar muito dinheiro à frente de seu próprio negócio. Empreender virou um verdadeiro símbolo de independência. O que não nos contam é que o ponto de partida faz toda diferença nessa história.

Será que, para a maioria dos empreendedores negros, a realidade é herdar o negócio da família, estudar nas melhores escolas e alcançar a independência financeira aos 10 anos?

Segundo o IBGE, pessoas negras são maioria no Brasil, como também a maioria à frente de um negócio. Segundo dados do Sebrae, estima-se que a cada 100 adultos, 40 empreendem. Entre esses, a maioria microempreende. Ou seja, têm uma entrada financeira bem menor. E isso se deve à forma como damos os primeiros passos, já que você pode iniciar o seu negócio por oportunidade (quando encontra uma possibilidade no mercado) ou por necessidade (quando empreender é a única solução para manter a família). Mas podemos nos aprofundar no contexto do que é empreender e o que é subsistência em outro momento.

Por hora, vamos imaginar um cenário em que pessoas que precisam complementar a renda, ou ficaram desempregadas, começam a vender alimentos, como salgados e doces. Ou a oferecer algum serviço de cuidado e estética. Será que elas necessariamente estão preparadas para gerir a estratégia, o marketing ou o financeiro dos seus negócios?

O resultado é expressivo: a maioria dos empreendedores negros não têm lucro em seus negócios. Estamos falando de uma população historicamente discriminada, que até hoje enfrenta situações de racismo para acessar até os direitos mais básicos: educação, lazer, saúde. Imagine então os desafios em conseguir um microcrédito, por exemplo. Assim, podemos compreender o quanto precisamos falar sobre empreender sendo negro.

Segundo o estudo do Movimento Black Money em conjunto com a RD Station e a Inventivos, até quando pensamos na exceção, que são aqueles que empreendem por oportunidade, estes também enfrentam dificuldades no acesso a estratégias digitais, financiamento e ferramentas de crescimento dos seus negócios.

Logo, não estamos falando sobre quem se esforça mais ou conhece mais. A nossa conversa é sobre quem sempre teve as oportunidades e quem, mais uma vez, não tem. E olha que eu não estou aprofundando aqui as manifestações de racismo no ambiente corporativo.

Para termos um empreendedorismo verdadeiramente inclusivo e com possibilidades de sucesso financeiro para todos, é preciso considerar os diferentes pontos de partida. E, principalmente, ter o desejo de criar oportunidades para quem começa nesta corrida em lugares diferentes.

Ao perder a ideia da meritocracia é possível dar passos iniciais para enxergar estes desníveis, criar programas de fomento e desenvolvimento para afroempreendedores e, principalmente, espaços de representatividade. Aí sim conseguimos falar sobre independência financeira para pessoas negras à frente de seus negócios. Provavelmente não aos 10 anos, mas com possibilidades reais.

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