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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

De Capitólio aos desabamentos pelas chuvas: não sabemos ler os sinais

Vista dos cânions do Lago de Furnas, Capitólio, em Minas Gerais - Getty Images/iStockphoto
Vista dos cânions do Lago de Furnas, Capitólio, em Minas Gerais Imagem: Getty Images/iStockphoto
Beatriz Mattiuzzo

Beatriz Mattiuzzo

Beatriz Mattiuzzo é oceanógrafa, mestranda em Práticas de Desenvolvimento Sustentável, instrutora de mergulho e cofundadora da Marulho, negócio socioambiental que intercepta redes de pesca junto a pescadores locais em Angra dos Reis. A Marulho foi a vencedora da categoria ?Empresas que Mudam? do Prêmio Ecoa 2021.

09/02/2022 06h00

Minha primeira reação vendo o vídeo da queda do cânion em Capitólio, em Minas Gerais, foi similar à de muitas pessoas: puro choque, um misto de incredulidade e um tanto de pânico por ver aquelas pessoas ali, ainda sem saber o que havia acontecido com elas.

Mas, enquanto o choque foi passando, a ideia de que tínhamos perdido dez vidas daquele jeito não saía da minha cabeça. E por um tempo eu pensei: "Não é possível, como as pessoas não perceberam? Os outros estavam gritando, tentando avisar". Até que eu entendi que quem não percebeu, e ainda não está percebendo nada, somos nós.

Capitólio é só mais uma tragédia anunciada num álbum de figurinhas macabro que parece que estamos colecionando contra a nossa vontade há anos. Me bastou uma conversa com uma amiga geóloga para isso ficar nítido para mim. Ela havia visitado a região e também observado uma fratura que, em 2012, já estava exposta. A mesma que o médico Flávio Freitas publicou em seu perfil no Facebook e depois virou matéria na Folha de S. Paulo.

Um desabamento, como aconteceu, parecia um problema distante a depender do período de seca ou chuva. Era isso que disfarçava o problema, que já era grave. Mas os outros sinais de atenção, que eu como oceanógrafa também aprendi a observar, estavam ali: blocos na base da fratura que já tinham caído, a cor mais escura indicando o caminho que a água estava percorrendo e desgastando a rocha.

À esquerda, foto de 2012 tirada pelo médico Flávio Freitas; à direita, foto de 2018, pela geóloga Carolina S. Paes - Reprodução - Reprodução
À esquerda, foto de 2012 tirada pelo médico Flávio Freitas; à direita, foto de 2018, pela geóloga Carolina S. Paes
Imagem: Reprodução

Mas era de fato o mesmo cânion? Francamente, não tenho certeza. Há quem afirme que sim, alguns defendem ser o mesmo paredão visto de outro ângulo, e há quem diga que era outra rocha. Minha experiência como oceanógrafa, avaliando apenas fotos online e sem nunca ter visitado a região fisicamente, não permitiu chegar a uma conclusão. De toda forma, acredito que essa seja a pergunta errada.

O que de fato merece nossa atenção é que se trata de mais um caso em que todos os indicadores estavam presentes, e em que não houve falta de aviso e nem de estudo: áreas de risco precisam de monitoramento constante, especialmente quando são turísticas, e pesquisadores avisam há muito tempo que cânions são paisagens que precisam de especial atenção justamente por já serem resultado da erosão pela água.

Novamente falhamos como espécie por não olhar para os sinais e não dar atenção à ciência. E isso vem custando a vida de várias pessoas. Em 2020, segundo a Confederação Nacional dos Municípios, foram mais 1.697 decretos de emergência ou estado de calamidade pública, e um prejuízo estimado em mais de R$10 bilhões — sem falar nas diversas vidas perdidas. Começamos fevereiro com enchentes e desmoronamentos em São Paulo que levaram mais vidas e a cidade flerta com a crise hídrica ao mesmo tempo que recebe chuvas torrenciais. A própria cratera que se abriu na marginal não foge do tema: falta de monitoramento civil, como deveriamos ter tido em Capitólio, para evitar acidentes.

Tudo está interligado: as barragens que se rompem, os deslizamentos que acontecem, as queimadas que devastam as terras: a crise climática existe e está acontecendo agora. Não são simplesmente acidentes, obras do acaso. Quando vamos compreender isso? É a falta de monitoramento e a nossa incapacidade de perceber os sinais naturais que fazem tragédias como essas aconteçam. O problema é que, no Brasil, as tragédias em geral têm raça e classe.

Onde estão as boas ideias

A necessidade de entendermos que somos natureza e aprendermos a ler os sinais que ela nos mostra é urgente, tanto nos moldes da ciência ocidental, quanto escutando os povos tradicionais. Em tempos de atenção dividida entre tantas telas e tarefas, em que não faltam notícias ruins, cabe a cada um de nós tentar propagar as boas ideias. Que tal dar palco para quem está tentando fazer essa ponte entre a ciência e a diminuição de riscos? Aqui vão 4 ideias que valem a pena:

  • Procure saber se a Defesa Civil da sua cidade emite alertas por SMS. Muitos municípios do Brasil têm esse serviço gratuito.
  • O perfil @igeologico no Instagram traz bastante conteúdo explicando como algumas paisagens lindas (mas perigosas) se formaram para também entendermos os riscos relacionados a elas.
  • O projeto Dados Fora D'água é uma parceria de pesquisadores brasileiros com diversas universidades internacionais que ensina gratuitamente a mapear riscos hidrológicos e está lançando o aplicativo Dados Fora D'água para facilitar esse mapeamento em alguns municípios de risco do país.
  • Desde 2011, o Brasil tem um Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) que emite boletins diários sobre riscos de enchentes e deslizamentos.
  • A FourSafe é um negócio socioambiental que une dados de algoritmos para prever riscos, e você pode se inscrever gratuitamente no site.