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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Clima e periferias: risco e emergência climática enfrentados de perto

Franco da Rocha, em SP, sofreu com enchentes e desmoronamentos após chuvas ocorridas em janeiro deste ano - Rivaldo Gomes/Folhapress
Franco da Rocha, em SP, sofreu com enchentes e desmoronamentos após chuvas ocorridas em janeiro deste ano Imagem: Rivaldo Gomes/Folhapress
Fernanda Pinheiro, Thais Santos e Vanessa Nascimento

sobre os colunistas

Fernanda Pinheiro

Fernanda Pinheiro da Silva é geógrafa, pesquisadora da FGV e integrante do núcleo Cidade e Clima do Instituto de Referência Negra Peregum.

Thais Santos

Thais Santos é química e doutoranda em Bioenergia. Educadora popular, cofundadora da Comunidade Cultural Quilombaque e coordenadora de núcleo da Uneafro Brasil.

Vanessa Nascimento

Vanessa Nascimento é diretora-executiva do Instituto de Referência Negra Peregum, finalista do Prêmio ECOA 2021 na Categoria Iniciativas que Inspiram.

13/04/2022 11h29

Desde novembro de 2021, a campanha Qualidade do Ar nas Periferias tem sido articulada a partir do Núcleo Cidade e Clima, do Instituto de Referência Negra Peregum. Um marco importante desse processo é a instalação de duas estações meteorológicas em regiões periféricas, onde a Uneafro Brasil atua ativamente com cursos preparatórios para o vestibular e formação cidadã. Com isso, além de pensar as mudanças climáticas nas e a partir das periferias urbanas, a conexão entre estações meteorológicas e a educação popular reforça a importância da formação nas estratégias de produção e difusão de conhecimento para o Instituto.

No curso do tempo, a primeira estação foi instalada em Perus, na zona noroeste do município de São Paulo. Fica na Comunidade Cultural Quilombaque, bem próxima à estação Perus da CPTM. O equipamento registra as particularidades climáticas deste território periférico que integra o Território de Interesse da Cultura e da Paisagem (TICP) Jaraguá/Perus/Anhanguera, instrumento urbanístico do Plano Diretor Estratégico do município que reflete luta e articulação política em torno do reconhecimento desse território enquanto parte da memória e cultura da cidade de São Paulo.

Além da pluralidade de manifestações culturais e movimentos de resistência que fazem parte desse reconhecimento, a região é considerada pela UNESCO como reserva da biosfera do cinturão verde, pois parte do seu território é preservado com grande cobertura vegetal e remanescentes da Mata Atlântica com conjuntos de bacias hidrográficas tributárias do rio Juqueri.

Em adição, o território abarca elementos antropogênicos que podem interferir no clima local. Um exemplo é a proximidade das duas únicas barragens de contenção de rejeitos de mineração existentes no município São Paulo, oriundas da extração de pedra e areia para construção civil e que permanecem ativas em meio a uma região que está a cada ano sendo mais densamente habitada.

Por sua vez, a segunda estação meteorológica foi instalada no município de Poá, no núcleo 11 de Agosto, vizinho do Terminal Rodoviário Pedro Fava/ Cidade Kemel. A localidade faz fronteira com distritos da zona leste da capital, além de estar próximo dos municípios Itaquaquecetuba e Ferraz de Vasconcelos. Neste caso, o entorno do equipamento tem como principal característica o adensamento da ocupação urbana, que segue de modo contínuo desde os bairros da zona leste da capital até o Rodoanel Mário Covas. Inúmeros bairros e conjuntos residenciais, comércio e estruturas de serviço compõem uma paisagem periférica com pouca presença de cobertura vegetal, a não ser por enclaves como o Parque das Águas, localizado no bairro Cidade Kemel, só que do município de São Paulo.

O registro de elementos do clima como temperatura e pluviosidade em territórios periféricos possui algumas intenções deliberadas. A primeira delas é demarcar de forma radical que as médias não dão conta das particularidades que interessam às discussões sobre clima urbano nas bordas da cidade. Se é verdade que as medidas difundidas pelos órgãos oficiais dificultam até mesmo a compreensão de particularidades do clima local nas regiões centrais, dada a sua amplitude e diversidade, no caso de áreas mais distantes dos pontos de medição, como em geral são os territórios periféricos, as distorções são ainda maiores.

Como exemplo, indicamos um caso paradigmático já alcançado pelos nossos sensores territorializados. Em Perus, o acumulado de chuva para os dias 16 e 17 de dezembro de 2021 chegou a 116,7 mm. Enquanto isso, na estação meteorológica oficial da cidade de São Paulo - Mirante de Santana - era registrado um acumulado de 74,8 mm. Além disso, com uma capacidade de registro da chuva por escalas menores de tempo, foi possível identificar que durante apenas duas horas daquela madrugada choveu um total de 103,2 mm na região.

Se uma intensidade e volume de chuva em tão pouco tempo é preocupante em muitas regiões da cidade, numa localidade marcada pelo racismo ambiental a situação torna-se ainda mais grave. As imagens do entorno da estação na manhã do dia 17 dão ainda mais concretude para a ocorrência.

O registro territorializado de elementos do clima urbano não permite somente acompanhar de modo processual os eventos climáticos e, portanto, também as suas mudanças. Por meio de um monitoramento do presente mais fidedigno à realidade territorial é possível refinar a previsão do tempo em uma determinada localidade e, com isso, melhorar a curto prazo os dispositivos de alerta para a população.

Além disso, é mais que evidente que a sujeição ao risco geológico, de enchentes e alagamentos, ou ainda relacionada à poluição atmosférica, não deve ser pensada somente por medidas de curto prazo.

Sim, é importante melhorar os sistemas de alerta, contudo, a necessidade desse tipo de sistema já é um indicativo da existência do risco. Por essa razão, o horizonte das ações promovidas pelo Instituto é enfrentar a produção social de risco e incidir sobre as políticas públicas de adaptabilidade climática e responsabilização do Estado.

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