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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Entre os que amam e odeiam, o Natal nos pede atenção e cuidado com o outro

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Elaine Macedo

Elaine Macedo

Voluntária no Centro de Valorização da Vida (CVV) desde maio de 1995, Elaine Macedo exercita desde a infância o trabalho voluntário e a mobilização social, com atuações em igrejas, escolas, comunidades e entidades sociais. É pós-graduada em Gestão de Projetos Sociais em Organizações do Terceiro Setor pela PUC-SP, com especialização em Responsabilidade Social Empresarial pelo CEATS.

23/12/2021 06h00

Existe um misto de emoções, sensações e sentimentos ao redor das celebrações, festividades, feriados e datas que marcam registros em nossa memória afetiva. Como é isso pra você? Faz sentido?

Gosto de considerar as celebrações enquanto tempos de pausa para cultivar o "observai e vigiai", e cuidar da autorregulação consciente e intencional, como espécie de encontro marcado com aquela pauta. Transcender o gostar ou não gostar, e ir além da narrativa de polarizações, e para além das armadilhas do consumo para uns exacerbado, para outros necessário, e para outros consciente. Sim, dissipar juízo de valores, e nos conectar ao Ser Sustentável para Nós com a Vida e o Coletivo.

A percepção de que o que acontece ao nosso redor mexe com o nosso emocional, e o nosso emocional reflete em volta de nós, e repercute na consciência deste processo dinâmico.

Uma catástrofe, um acidente, um grande evento, final de eventos esportivos ou de novela e programas de grande repercussão, por exemplo, mexem com o consciente e inconsciente coletivo. E o Natal?

Peço licença para dialogarmos sobre o tema para além do sentido e aspecto religioso que esta data preconiza e refletir sobre nossas construções sociais e memórias afetivas, ao longo da vida. Ir além da dor e da fantasia, da fé e ausência de fé, do desespero ou cura, da fome ou do alimento.

O NATAL PARA CADA UM ou O NATAL DE CADA UM ou O NATAL PARA VOCÊ

Natal para uns significa oportunidade de encontro e reencontro, data marcada e reservada para a família, para espaços sagrados. Para outros, comercialização, data triste, só mais um dia, e por aí vai. Há também aqueles que estão dispostos a se conectar e não têm com quem e isso entristece.

Talvez você esteja entre os que amam o Natal, o celebrar e estar com os seus. Ou talvez, entre os que não suportam e têm mal-estar só de imaginar "ter que" estar com a família, ter que representar, estar num ambiente ou clima tóxico. Ou quem sabe no tanto fez, como tanto faz?

Enfim, podemos considerar que este momento mexe com o âmago coletivo. E que também serve para nos lembrar que a vida é mais, e pede mais de nós enquanto Pessoa, Família, Organização e Sociedade. Fragmentos, segundos que nos possibilitam perceber a bondade, a beleza e solidariedade no gesto, no ato, no olhar, na respiração, no movimento do outro, e de nós mesmos, podem nos descristalizar. Tempos de mudança, renovação e crescimento interior que repercutem no exterior de nós mesmos, criando ressonância genuína nos vínculos fraternos que valorizam e sustentam a vida.

Ir além da armadilha de querer julgar quem não suporte ou ame o Natal, a comercialização, as vendas. Transcender o olhar de quem ama celebrar e estar com a família, e acolher também quem sofre por estar ou não estar em família. Saber acolher-se para acolher, é um convite.

Perceber e considerar a existência de quem considera um fardo e tortura psicológica ter que representar e estar com pessoas com as quais os vínculos estão frágeis ou adoecidos; pessoas que passam ou estão presas a dores, sofrimentos, ou aquelas que estão a elaborar o luto, e potencializar a elas canais de ajuda, redes de apoio e acolhimento, caso queiram.

Amplificar a rede de proteção à vida socialmente é vivenciar o Natal no sentido do amor genuíno, da amizade incondicional que cura, eleva e liberta, e acalenta possíveis estados de ilhas e vastidão emocional.

Perceber e considerar a existência de quem reconhece no Natal algo profundo a ser vivenciado no cotidiano através do dar de si, com atos de generosidade, fraternidade e solidariedade, e que nos remete ao que é sublime e norteia o sentido do aprender a viver e conviver no afeto - isso também é importante.

Nos inspira a cuidar desta data enquanto marco e tempo de pausa, uma oportunidade de balanço interior e exterior, de renovação da esperança e da fé na humanidade e na vida.

Por reflexão, cabe indagar: O que estamos fazendo aqui, e qual o sentido de tudo isto?

A VIDA QUE NOS PEDE PACIÊNCIA E PRESENÇA

A vida pede tempos de pausa e respiro, e as celebrações e rituais nos convidam a ajustar os tempos e ritmos interiores e exteriores, pessoais e coletivos, com a vida e o universo. Visitar, pensar ou repensar sobre o próprio propósito de vida.

Por assim ser, afinal perguntar a nós mesmos:

Qual o sentido da minha vida?

O que estou fazendo aqui?

Como está minha família?

Como está o meu relacionamento afetivo conjugal?

Como está o afeto nos meus relacionamentos interpessoais e intrapessoais? Como está a saúde dos meus relacionamentos?

O que quero preservar?

O que está no momento de desapegar?

Como desenvolver a habilidade do apego-desapegado?

O que está no momento de deixar ir?

O que está no momento de deixar chegar?

Afinal, o que significa agir socialmente de forma sustentável com a vida e o universo, de modo consciente para com os seus recursos naturais, materiais e espirituais?

Como descobrir que existem outras formas de ser um presente, bem como de ofertar um presente? Enquanto pista, é possível indagar-se: Como posso ser um presente para mim e para as pessoas? Como nutrir o poder e sentido da minha existência no mundo? Sou uma presença agradável? Minha presença nutre bem estar, leveza, ternura, confiança, afeto e cuidado?
Para tudo. Pare tudo agora, e perceba você, perceba teu corpo, tua vida, os batimentos cardíacos, a respiração, teus pêlos e cada parte do teu corpo.

Com qual frequência você costuma expressar: "eu te amo", "você é importante pra mim", "você faz a diferença na minha existência", "sinto tua falta", "sinto prazer com a tua presença", "você me enriquece", "te apoiar e estar com você me realizam", "sinto autorrealização e felicidade quando posso te ajudar", "quando você recebe minha ajuda, isso me gera conexão e bem estar", "gratidão por você existir", "eu te vejo", "como você está?", "me desculpe!", "pisei na bola!", "por vezes fico sem jeito, porém quero expressar que gosto de você!", "preciso de ajuda", "como posso contribuir?" (...) - É possível, aumentar essa frequência?

Respire, inspire, e acolha o que é desconfortável e o que é confortável. Confie na mensagem que cada experiência te traz, e então liberte-se do que te aprisiona. E aprisione-se do que te liberta, para simplesmente Ser Pessoa, numa experiência singular.

Um convite interessante é ofertar a si mesmo, por exemplo, a libertação das frustrações. Sair das comparações da "grama do vizinho é mais verde", e aceitar o que você tem, vivencia e é no aqui e agora, para ir além, no sentido do aproximar-se da experiência e nutrir novas ações:

- O que posso fazer agora, para aprimorar e elevar a qualidade das minhas relações, da minha vida, da minha saúde mental, emocional, física e espiritual?

- Quais estratégias posso utilizar para me sentir melhor a cada dia?

- O que posso fazer hoje, no meu aqui e agora, e escolho e faço, que repercute no investimento de tempos, dias, semanas, meses, e anos saudáveis e prósperos?

- Acolher as frustrações, os sentimentos e sensações desconfortáveis pode me libertar da negação e fuga da realidade?

No tempo de pausa e conexão, que você e cada um de nós possamos reconhecer e vivenciar o valor e sentido de acolher-se para acolher.

Que a cooperação e a colaboração encontrem espaço dentro e fora de cada um de nós, enquanto rede de apoio e proteção por entre gestos de temperança, na brandura e firmeza, envoltas na ternura e cuidado do bem querer e viver.

Que neste Natal se faça a expansão e fortalecimento das possibilidades das redes de apoio e proteção à vida, para que saibas que não estás só, mesmo sozinho. Que haja mais solitude e menos solidão entre nós, sozinhos ou na multidão.

Natal é tempo de acolher-se e acolher, e que se faça a cada dia.

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