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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em homenagem à atriz Sheron Menezes, livro celebra a identidade negra

Capa do livro Princesa Violeta, obra de Veralinda Menezes - Reprodução
Capa do livro Princesa Violeta, obra de Veralinda Menezes Imagem: Reprodução
Niní kemba Náyọ̀

Niní kemba Náyọ̀

De Salvador, Niní kemba Náyọ̀ é pedagoga, escritora, contadora de histórias pretas e pesquisadora autônoma da literatura negra e africana infantil. Idealizadora da LiteAfroInfantil.

24/10/2021 06h00

Em um cenário racial que invisibiliza pessoas negras nas literaturas infantis brasileiras, a obra de Veralinda Menezes é como um sonho para toda menina negra que teve que aturar e admirar em toda sua infância princesas que não se pareciam com elas. A Princesa Violeta foi publicada em 2008 e é uma homenagem à filha da escritora, a atriz Sheron Menezes.

A obra conta a história de um reino encantado, o Reino Tropical, governado por um rei justo e bom e que conta com a colaboração de toda a comunidade. A família real tem como sua herdeira uma princesa chamada Violeta, que vive feliz com sua família em suas terras belas, férteis com muita natureza ao redor.

A presença dos mais velhos e das crianças apresenta na narrativa da história um marcador afrocentrado para a obra, que nos remete ao resgate ancestral africano que tanto buscamos.

A obra apresenta características de um conto e traz uma história de fantasia e encanto. Podemos observar uma narração leve, uma linguagem que atinge todas as idades e, o melhor, descreve as características das personagens, sem estereótipos, focando na beleza natural de cada uma delas.

A escritora compara a cor da pele das personagens com chocolate e brigadeiro e os cabelos encaracolados com favos de mel, o que encanta e acessa o universo infantil de forma lúdica e representativa para crianças negras.

A partir desses elementos de admiração, a criança negra pode descobrir e construir outro olhar de si mesma, de seu corpo, de seu cabelo, de sua pele. Por ainda conviverem diariamente com os estereótipos descritos, para representar seus corpos é que acreditamos que as descrições de personagens negros devem ser elaboradas com muito cuidado.

A Princesa tem os cabelos crespos, enroladinhos em cachinhos miúdos macios e perfumados que caem em seus ombros como uma cascata, seu pai tem cabelos fofinhos com cachinhos que lembram o desenho de um favo de mel. A força e determinação feminina também estão presentes quando a princesa Violeta luta para proteger seu reino e provar ao seu pai que, mesmo sendo mulher, ela pode ser forte, inteligente e garantir a continuidade de seu reino.

Assim, após o reino ser atacado por homens pertencentes ao Reino Gelado, a princesa Violeta e todos da comunidade se unem para lutarem juntas e juntos e salvarem o reino Tropical que permanece em harmonia e equilíbrio.

A literatura que transforma

Como pesquisadora da literatura negra e africana infantil, principalmente numa perspectiva afrocentrada, indico essa história para profissionais da educação e todas as famílias que valorizam a diversidade e a representação de crianças negras na literatura. Pensando no contexto racista em que vivemos, geralmente os livros infantis não apresentam personagens negros e quando o fazem sempre é de forma estereotipada, em situações de submissão e/ou inferioridade.

A criança constrói sua imaginação, sua identidade e auto estima através da vivência com as diversas representações ligadas a fase da infância. Os livros infantis fazem parte dessas representações e apresentam à criança um mundo de possibilidades, ludicidade, aprendizado e entretenimento. Quando crianças negras não se enxergam como belas, inteligentes e capazes de gerir a própria vida, observamos um dano enorme em sua autoestima, na construção do autoconceito que será refletido ali.

A literatura negra infantil, sobretudo de perspectiva afrocentrada, possibilita que a criança negra se veja de forma positiva, como um indivíduo pensante, autônomo que conhece suas origens, que conhece a verdade sobre si e sobre seu povo.

As narrativas sobre nossas origens africanas, sempre atravessadas de racismo, vem por séculos acabando com a possibilidade de crianças negras crescerem felizes e com orgulho próprio e por isso que enxergamos nessa literatura o poder de libertação mental para nossas crianças e respeito à diversidade para todas as crianças.

Por uma literatura que apresente de forma bela e inteligente todas as crianças e conte a verdade sobre nosso povo, nossas origens, nossas raízes.

Mais quatro livros importantes que você deve conhecer

Capas de livros - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

1 - Contos e músicas da África
Autor: Souleymane Mbodj

2 - Makori
Autor: Marcos Cajé

3 - Plantando com Malik
Autora: Caroline Adesewa

4 - O divertido glossário da Jana
Autora: Lorena Ribeiro

A Curadoria de Ecoa

Toni Edson - Causadores - Amanda Bambu/ UOL - Amanda Bambu/ UOL
Imagem: Amanda Bambu/ UOL

As histórias e pessoas apresentadas todos os dias a você por Ecoa surgem em um processo que não se limita à prática jornalística tradicional. Além de encontros com especialistas de áreas fundamentais para a compreensão do nosso tempo, repórteres e editores têm uma troca diária de inspiração com um grupo de profissionais muito especial, todos com atuação de impacto no campo social, e que formam a nossa Curadoria. Esta reportagem, por exemplo, nasceu de uma conexão proposta por Toni Edson, curador de Ecoa.

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