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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A esperada volta dos mantos Tupinambás

Manto Tupinambá - Celia Tupinambá
Manto Tupinambá Imagem: Celia Tupinambá
Naine Terena de Jesus

Naine Terena de Jesus

Naine Terena de Jesus é doutora em educação, mestre em artes, graduada e comunicação social, mulher do Povo Terena. Tem pós-doutorado em educação pela UFMT e UNEMAT. É docente na especialização em Gestão Cultural Contemporânea, do Instituto Itaú Cultural; Empreendedora Cultural na Oráculo Comunicação, Educação e Cultura e arte educadora.

12/09/2021 06h00

Constantemente citado quando o tema é o repatriamento de obras de arte e objetos culturais, os mantos Tupinambás prometem movimentar o cenário histórico e cultural dos próximos meses. Tenho a felicidade de poder aqui falar um pouco sobre essa produção toda, trazendo a perspectiva compartilhada por Glicéria Tupinambá, da aldeia de Serra do Padeiro (BA).

Quem espera que a novidade seja o retorno de algum dos onze mantos ao Brasil, já me desculpo, pois a notícia não é essa. Aliás, poderá até parecer uma conversa meio confusa, mas venho dizer a vocês que na sua essência, os objetos rituais nunca deixaram de existir por essas terras. Pretendo explicar o motivo.

Retomando só um pouco o contexto histórico, tem-se a informação de que tais peças foram levadas do Brasil no período colonial pelos europeus, passaram a integrar coleções reais, e nos dias de hoje existem apenas onze exemplares deles, que foram produzidos entre os séculos XVI e XVII. Todos em museus do exterior. Mas o que realmente são esses mantos e quais seus significados?

São objetos/vestuários rituais que eram confeccionados pelo povo indígena Tupinambá. Este povo habita em grande parte uma região ao norte da cidade de Ilhéus, na Bahia, e se estende da costa marítima da vila de Olivença até a Serra das Trempes e a Serra do Padeiro. Geralmente, essas vestimentas eram utilizadas pelas lideranças em rituais e fabricados com penas vermelhas de um pássaro chamado Guará.

Mas não é desses mantos que estou falando. Escrevo sobre sua existência sem a sua presença material por mais de 300 anos no Brasil — período em que deixou de ser confeccionado pelos Tupinambá.

Poderia dizer que sua confecção adormeceu por 300 anos e agora acorda através de sonhos que conduzem uma comunidade inteira para a nova produção, para a grande volta dos Mantos Tupinambá.

Nas palavras de Glicéria, esse objeto ritual é uma inteligência do povo Tupinambá. Ele é uma personagem muito forte, inclusive quando se trata da recuperação ambiental do território da Serra do Padeiro, onde os pássaros voltaram a fazer revoadas. A artista explica que o próprio manto ensinou a ser "reconfeccionado". Talvez não seja uma informação fácil de se compreender pela complexidade dos outros saberes e outras cosmologias que não fomos ensinados a conviver.

A partir da autorização dos encantados, começaram a ser confeccionados, e muito além de sua produção. Houve a autorização para que o Cacique Babau Tupinambá utilize um manto, no lugar do occar, nas ocasiões rituais e especiais para este povo.

É a força dos encantados dizendo que resistência se faz com memória e atuação coletiva. "A volta do Assojaba Tupinambá são os próprios Tupinambá dizendo que o manto está vivo, em movimento, um sinal da cultura forte e da chegada da cura. Porque o Manto é a presença dos deuses para a cura", afirma a artista Glicéria.

Mas onde estarão esses novos Mantos? Poderemos vê-los de perto? Serão iguais aos outros?

As novas vestimentas estão sendo confeccionados por Glicéria na Serra do Padeiro com apoio da comunidade e das aves (talvez precisaríamos de mais tempo para explicar isso).

Para os Tupinambá da Serra do Padeiro é a força deste objeto ritual que retorna para ativar a memória e dar continuidade aos processos de resiliência Tupinambá. Além de um processo interno, a produção também é uma forma de dialogar com a sociedade não indígena sobre a existência dos Tupinambá e seus aspectos rituais e culturais.

Algumas iniciativas têm ocorrido para reinserção dos novos mantos na sociedade Tupinambá, também para esclarecer a sociedade não indígena sobre a sua existência. Acerca das iniciativas para a reinserção deles no contexto Tupinambá, cito algumas delas: ao ser autorizado pelo mundo espiritual a utilizar o objeto ritual, o cacique Rosivaldo Ferreira da Silva (cacique Babau Tupinambá), o vestiu para receber o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), neste ano de 2021; os novos exemplares e outros elementos que contam sua história poderão ser apreciados em uma exposição que leva o nome "Kwá yapé turusú yuriri assojaba Tupinambá / Essa é a grande volta do manto Tupinambá", do Prêmio Funarte Artes Visuais 2020/2021.

Um perfil na rede social Instagram foi criado para compartilhar as narrativas acerca deste objeto ritual, e ficará à disposição dos interessados em conhecer um pouco mais sobre ele, entre outras iniciativas.

Sobre o repatriamento, perguntei à Glicéria: afinal, voltam ou não voltam para o Brasil os onze mantos Tupinambá?

Ela me apresenta a opinião da sua comunidade: não pensam em trazer nenhum deles para o Brasil. Existe aí uma outra orientação para a existência e permanência deles fora do país. Uma narrativa muito potente, importante, cheia de detalhes que uma visão apenas técnica não alcança.

A visão de dentro da movimentação cosmológica rege a opinião dos moradores da Aldeia Serra do Padeiro. Porém, Glicéria enfatiza: queriam ter a oportunidade de estar perto de algumas dessas onze peças e ver quais memórias carregam, o que cada pena, trançado e enlace resguarda, e qual mensagem os mantos guardam ali, para os Tupinambá da Serra.

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