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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Escrevi para a morte não ter a última palavra

Escrevi para a morte não ter a última palavra - Fridas comunica e fotografa
Escrevi para a morte não ter a última palavra Imagem: Fridas comunica e fotografa
Natália Sousa

Natália Sousa

Natália Sousa é jornalista, escritora, autora do livro “Tua Vida em Mim” e do podcast “Para dar Nome às Coisas”.

30/06/2021 06h00

Eu escrevo esse texto na mesa da sala, exatamente do mesmo lugar em que eu fechei os olhos e suspirei um pedido, em forma de prece, pela primeira vez. Com a voz baixa, como se assim eu também pudesse me ouvir, eu disse: "já que eu vou ter que passar por isso, então me ajuda a sair daqui maior…me ajuda sair desse túnel escuro com algum aprendizado para que essa dor não seja em vão…me ajuda Deus"

Minha mãe havia morrido em 2014, meu namorado em 2015. A sensação era de ser engolida por uma onda interminável, justamente no momento em que eu tinha conseguido colocar a cabeça para fora da água e puxar o ar. Eu lutava para não me afogar, mas via a todo tempo que a dor não dava pé. Tirava o chão. O caminho que antes havia, de um instante para outro, tinha se dissolvido.

A morte é sempre um antes e depois.

Lembro de fazer negociações fantasiosas com Deus. Dizia a todo tempo: entrego tudo para tê-los de volta. Pode levar qualquer coisa, mas deixa eu vê-los aqui, de novo. Deixa eu só ouvir mais uma vez a risada deles no sofá de casa. Pedia numa esperança cega, mas era só abrir os olhos para ver o vazio, quase palpável, ecoando em cada pedaço dessa sala. O cruel da morte é que ela é inegociável. É um ponto final em uma história que você sabe que poderia ter muitos outros capítulos. É uma narrativa que acaba antes do ápice. É um capítulo que termina no meio, antes do fim.

Só que eu não estava disposta a aceitar o fim.

Tomada por indignação, comecei a escrever sobre o Gino. Queria que alguma coisa desse conta de preencher aquelas linhas escritas pelo meio. Queria que as minhas palavras pudessem ser os encontros que ele não teve, queria que as minhas letras fossem a vida que lhe faltou. Queria que o mundo inteiro o conhecesse, que ele pudesse ser conhecido, que ele ainda pudesse dizer, mesmo quando a morte o calou. Durante um ano, transformei a minha dor em parágrafo. Em letra. Em texto.

E escrevendo consegui voltar à superfície e constatar satisfeita: na minha vida, a morte não teve a última palavra. Na minha vida, ela não teve. O livro nasceu. O "Tua Vida em Mim" nasceu. E nasceu nesses milagres que a gente não controla, porque embora tenha sido escrito em um ano marcado de dor, ele fala sobre amor. Essa potência que é sentimento-gesto e que sempre salva, de um jeito ou de outro, o peito da gente.

Escrever me curou também da solidão de atravessar o luto. Lidamos mal com assunto. Quem perde, carrega na pele uma verdade que é evitada a todo custo: a vida mesmo, quando longa, é breve. E pode acabar a qualquer momento. Inundados por essa perplexidade, criamos barreiras entre nós e a morte. Entre nós e o enlutado. Por vezes até queremos ultrapassar esse muro e fazer algo, mas não sabemos o quê. Achamos que o nosso papel é resolver a morte, quando na verdade bastaria cuidar da vida. Daquela vida que, naquele momento, está doída. Não aprendemos isso. Por isso, dor e inadequação se misturam no processo de quem sofre.

Choramos - repentinamente - no meio de uma reunião de trabalho, de uma confraternização de amigos e nos sentimos culpados, porque é como se a nossa dor não coubesse. Como se a morte não coubesse. Socialmente, fingimos que a morte não faz parte da vida e vivemos como se nunca fôssemos morrer. E vamos. Todos nós, sem exceção. E precisamos - coletivamente - falar sobre isso. Para que a dor do tabu não se some à dor do fim.

Mas há algo - além disso - que podemos aprender. E eu uso a frase do psicanalista Villy Fomin para ensinar, e é: "as pessoas podem deixar de viver, mas elas não precisam deixar de existir". O Gino ainda existe nesse livro. A minha mãe, também. E enquanto você puder apresentar aqueles que partiram, por meio dos seus sonhos, desenhos, escritos, fotos, experiências, vivências e memórias, eles ainda poderão morar, inclusive, em peitos e lugares, que eles não tiveram a chance de frequentar. Esse é o meu conceito preferido de eternidade.

Deixo aqui a minha solidariedade a todas as famílias que perderam seus amados para a covid-19. Não há texto que console a dor e a revolta de perder uma vida para a ignorância, o negacionismo e a indiferença de quem - por princípio e compromisso - deveria zelar. Sintam-se acompanhados nessa indignação.

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