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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que fazer MAIS uma campanha contra a Fome?

Campanha fome de ação - Divulgação
Campanha fome de ação Imagem: Divulgação
Flora Bitancourt

Flora Bitancourt

Flora Bitancourt é empreendedora social, sócia da Impact Beyond e do Socialab Brasil, diretora do fiiS Brasil e presidente voluntária do Instituto Movimentarte, integrante da rede de empreendedores do Fórum Econômico Mundial, Global Shapers. Em maio de 2021, ajudou a fundar o projeto Fome de Ação

13/06/2021 06h00

Mais de 125 milhões de brasileiros estão sofrendo com a insegurança alimentar durante a pandemia, segundo recente estudo publicado pela Folha de S.Paulo, o número corresponde a mais da metade da população Brasileira (59,3%). A fome é uma realidade no Brasil há décadas. Com a covid-19, o cenário se agravou.

Diante deste ambiente de desesperança, temos que unir forças e agir em nome do coletivo. Na era do cancelamento, a sociedade pede posicionamento. Não dá mais para ficarmos isentos. É preciso ter uma atitude alinhada ao nosso discurso virtual, ao nosso fazer real.

Sinto que existe uma falsa sensação de que a falta de comida no Brasil é algo que está sendo resolvido por campanhas diversas de doação de alimentos. Estamos muito longe de acabar com essa triste realidade que é a fome no país. Ainda há muito a ser feito e as ações sociais e doações são urgentes para conseguirmos superar este momento desafiador, rumo a um período de menos angústia para que, então, possamos pensar na recuperação.

Uma cesta básica média (R$ 100) atende uma família de quatro pessoas por cerca de quinze dias, mas a fome não espera. Por isso, a distribuição de alimentos precisa ser contínua e organizada. Isso nos ajudou a entender por que precisamos criar mais campanhas, já que não existe concorrência quando o objetivo é ajudar o próximo.

Não, o problema não se resolve sozinho. Muita gente já faz muita coisa, mas muito ainda precisa ser feito, destaco algumas campanhas que estão gerando muito impacto nacionalmente como a Ação Cidadania e a campanha Tem gente com Fome, dá de comer, mobilizada pela Coalizão Negra por Direitos e outros aliados que levantam juntos também, a importante bandeira da desigualdade racial. Mesmo antes da pandemia o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já destacava em seu relátório Segurança Alimentar 2013, que mulheres e negros são os mais atingidos pela fome no Brasil, fato este que só se agravou com a pandemia.

Na calculadora de doações da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), entre 2020 e 2021, o Brasil bateu recorde em número de doações ultrapassando a casa dos R$ 7 bilhões desde o início da pandemia. Porém, deste valor, apenas 20% foi destinado efetivamente ao combate da insegurança alimentar, o que nos traz um número de R$ 1,4 bilhão doados na distribuição de cestas básicas e logística.

Com uma conta simples, partindo do valor médio de R$ 100 por cesta básica, atingimos a doação de 14 milhões de cestas básicas. Então, considerando o número médio de quatro pessoas por família, impactamos, desde o início da pandemia, 56 milhões de pessoas fornecendo-lhes uma proporção de 25% (um quarto) de uma cesta básica para cada, o que apoia essas pessoas em sua alimentação por quinze dias.

Ou seja, com tudo que foi mobilizado entre 2020 e 2021, não estamos nem perto de resolver a fome no Brasil, pelo contrário, se todas as pessoas que precisam tivessem recebido suas cestas, elas só teriam tido o que comer por uma semana.

Diante destes alarmantes dados, e da minha própria provocação - em meu último artigo aqui no Ecoa - resolvi agir. Me juntei, há quatro semanas, com algumas empreendedoras e criamos o "Fome de Ação", uma rede de solidariedade, liderada por mulheres e agentes de transformação local espalhados pelo Brasil.

Desde que começamos, conseguimos arrecadar R$ 350 mil em doações. Contamos para isso com a parceria de 35 empresas de impacto, que estão nos apoiando na disseminação, mapeamento de agentes locais e na difícil logística das ações emergenciais descentralizadas. Para garantir a transparência da prestação de contas, contamos com a parceria do Instituto Phi. Nos próximos meses, vamos expandir nossas ações focando em combater o desemprego e a desigualdade social.

É preciso dizer que, no primeiro mês de campanha, atravessamos muitos obstáculos, portas fechadas, nenhum espaço na mídia e pessoas perguntando o porquê de estarmos fazendo mais uma campanha. O fato inexorável, viemos explicando aos que nos questionaram, é o que acabo de dizer e repetirei sempre que necessário: mesmo com o sucesso de grandes campanhas nacionais contra a fome, milhões de pessoas continuam sem receber ajuda.

As ações de nosso programa são direcionadas, principalmente, a comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e caiçaras, além de grupos de agricultores familiares, vendedores ambulantes e refugiados, que estão sem perspectiva e com pouca esperança. São populações que sempre tiveram seus direitos ameaçados e que enfrentam novos desafios na pandemia. Soma-se a isso o aumento da exclusão que vivem particularmente neste momento político brasileiro. Muitos destes territórios carregam nossa ancestralidade, nossa história - que está sendo negligenciada e apagada

São famílias que vivem em locais de difícil acesso, com dificuldade de comunicação e que não estão sendo alcançadas. Por isso, nos articulamos para fazer as doações de alimentos chegarem ainda mais longe.

Faço agora o convite para que todos nós, empresas, pessoas físicas e organizações da sociedade civil nos questionemos se existe alguma coisa a mais que possamos fazer. Apenas juntos e dando o nosso melhor conseguiremos começar a realmente enfrentar esse problema de frente. E se você se sentiu chamado a também participar, colaborando com a campanha "Fome de Ação" basta acessar o site através do www.fomedeacao.com.br. Todo apoio importa e trará mudanças reais para quem tanto precisa.

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