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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ajuntamentos trans e travesti: estratégias para ocupar o futuro

Ajuntamentos trans e travesti: estratégias para ocupar o futuro - Rafa Kennedy
Ajuntamentos trans e travesti: estratégias para ocupar o futuro Imagem: Rafa Kennedy
Antonia Moreira e Hiura Fernandes

Antonia Moreira e Hiura Fernandes

Antonia Moreira é publicitária, produtora cultural e gestora da inovação social. Tem como missão fazer imaginações trans brilharem ainda mais, e para atingir esse objetivo atua como líder de planejamento estratégico no Ateliê TRANSmoras. @antoniaplayshard Hiura F. é multiartista visual, travesti, 26 anos, vivendo na capital paraibana - JP. Suas produções estão no campo da fotografia e performance buscando unir as artes do corpo à práticas cinematográficas. Recentemente lançou seu primeiro trabalho em direção geral audiovisual, no projeto “A Nova Era" da cantora Bixarte. @transmorfa

09/06/2021 06h00

Como podemos imaginar novas formas de habitar o mundo? Como romper com o terreno do realismo político colonial que sufoca nossa carne y nos impede de imaginar alternativas radicais para o presente? Abigail Campos Leal.

Para pessoas trans e travestis, construir o futuro é perceber a potência revolucionária de suas existências, sobretudo em conjunturas políticas e sociais conservadoras que estigmatizam, sufocam e matam cotidianamente. Nessa perspectiva, o acirramento das vulnerabilidades escancaradas pela pandemia de covid-19 expõem cada dia mais um modelo de sociedade que preza pela marginalização e invisibilidade de corpos pré-determinados.

Qualquer relatório da ANTRA já evidenciava o abismo social em que pessoas trans vivem, e pesquisa realizada durante a pandemia pela Vote LGBT mostra que 53% das pessoas trans não conseguem sobreviver sem renda por mais de um mês caso percam sua fonte financeira. Além disso, o ciclo de exclusão se acentua no isolamento social, com mais dificuldades no convívio familiar e no acesso à direitos. Ou seja, as táticas de sobrevivência precisam ser aprofundadas nessa situação.

Não conseguimos compreender o fim do mundo como única possibilidade para sairmos da lógica que insiste em ferir nossos corpos. Nos entregamos à imaginação e projetamos um futuro em que propomos soluções coletivas, não só para pessoas trans, mas para todas comprometidas com essa Terra.

Não é de hoje que pessoas trans e travestis produzem ajuntamentos que possibilitam a continuação da vida e as ferramentas digitais atuais se colocam como uma possibilidade de repensarmos a consolidação desses ambientes virtuais enquanto espaços de cuidado, afeto e in-formação.

É o que vem produzindo uma série de coletividades, notáveis por seu empenho de decifrar os códigos de nosso tempo e transformar isso em impacto real na vida das pessoas. Em São Paulo, a coletividade MARSHA!, por exemplo, gerou renda e emprego por meio de financiamento coletivo para artistas trans no início da pandemia em festivais online.

Igualmente pensando no coletivo, o Ateliê TRANSmoras, em Campinas, utilizou dinâmicas do design thinking e adaptou para as necessidades em produção cultural, negócios e moda, pilares de sua atuação. No digital, as oficinas se transformaram em meditação, atividades físicas, conversas, e claro, conteúdos, sempre gravados para diminuir a evasão.

Neste trabalho, ao passo que gera impacto social, a coletividade se especializa em formações para grupos vulnerabilizados em uma pedagogia que compreende suas demandas específicas, que vão além do conteúdo programático.

Na capital paraibana, João Pessoa, a Casa da Baixa Costura a partir do acolhimento mútuo consegue fomentar produções e gerar renda rompendo com a ideia de lucro predatório. A exemplo disso, tem-se a construção do álbum visual "A Nova Era", da cantora e compositora Bixarte, provando a possibilidade de construções inteiramente LGBTIA+.

Todo esse trabalho coletivo evidencia a força que os ajuntamentos trans têm de construir outras narrativas e fomentar a continuação da vida: uma investe na outra. Nossa insistência em investirmos em nós mesmas é uma oportunidade de cura, de retomada do valor em forma de vida e inspiração.

No final (ou início) das contas, esses ajuntamentos compreendem que imaginar o futuro é um ato revolucionário, pois se torna uma construção diária de labirintos. Trabalho e renda se convertem em redes de apoio intelectual, afetivo e financeiro, e o impacto não é medido somente em números, mas também em qualidade de vida, oportunidades e superação de barreiras em comum: da transfobia à autossabotagem.

Nas entranhas do capitalismo nascem formas de consumir e produzir que não querem somente o acesso ao capital e emprego formal. Nosso desejo vai além. Exigimos uma restauração completa sobre aquilo que disseram sobre nossos corpos, histórias e trajetórias. Por isso, decidimos pôr nossas mãos, potências e aflições organizadas numa história de futuro onde somos as protagonistas desse enredo.

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