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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Se pudesse, eu gritaria em um megafone: ACORDEM!

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fome, pobreza Imagem: iStock
Luciana Chinaglia Quintão

Luciana Chinaglia Quintão

Luciana Chinaglia Quintão, economista, mestre em Administração de Empresas, formada em Antroposofia, fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos e autora do livro Inteligência Social ? A perspectiva de um mundo sem fome(s).

08/05/2021 06h00

O último inquérito alimentar do Brasil (*), feito nos três últimos meses de 2020, chocou o país. Em números absolutos, 116,8 milhões de brasileiros NÃO têm acesso pleno e permanente a alimentos. Ou seja, um em cada dois brasileiros vive em insegurança alimentar e milhões em fome extrema.

Sou uma entusiasta da vida humana. Sempre me perguntei como poderia dar uma contribuição a outros seres humanos e à preservação da natureza, que nos sustenta, o que acredito ser obrigação de todos nós que dela dependemos. A maior riqueza de um país são seus cidadãos e seu meio ambiente, que devem ser preservados e não descuidados. No entanto, a realidade está aí para provar o contrário: um terço dos alimentos produzidos no mundo vai para o lixo; no Brasil, 17 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas a cada ano. Aqueles que vão dormir com fome assistem anonimamente a este descalabro. Observam sem serem observados. Inconformada, há 23 anos venho combatendo a fome por meio do combate ao desperdício de alimentos.

O desperdício é uma desordem social, uma grande negligência - pessoas, empresas e governos produzem e consomem de forma a desperdiçar recursos que solapam outras pessoas e destroem o meio ambiente. As consequências do desperdício global representam uma grande insanidade pública.

São recursos financeiros que vão para o ralo, é a desigualdade social cada vez mais exacerbada, o que é ruim para a sociedade como um todo, não só para 56% das famílias brasileiras que constituem a classe D e E, em um país onde seis brasileiros concentram a mesma riqueza que metade da população mais pobre. Na melhor das hipóteses, esses dados mostram que temos um campo e oportunidade imensa para agir.

Como seres humanos vivendo em sociedade, temos grande poder realizador! Por não me conformar com tanta pobreza no meio de tanta riqueza, criei o primeiro Banco de Alimentos do Brasil nascido dentro da sociedade civil. Fui desobediente civil, diziam que seria presa, e hoje tenho o trabalho reconhecido pelo pioneirismo e pela grande ajuda pública e humanitária. Nessa época de grande necessidade em que vivemos, já ajudamos a alimentar mais de 1,5 milhão de pessoas pontualmente, o que é um resultado enorme, mas sabemos que a fome precisa ser saciada todos os dias! Se um cidadão pode, milhares podem, seja lá qual for a sua área de atuação.

O que fazer? Para começar, é necessário conhecer, de fato, a realidade para mudar o nosso estar e agir no mundo. Ser responsável é uma atitude diária a ser abraçada. A fome só terá fim quando mudarmos a nossa forma de estar no mundo. Daí a importância de cada vez mais pessoas convergirem suas percepções e reflexões para esta questão. A verdade é que, apesar de ter aumentado na pandemia, a fome é secular no Brasil. Embora líder no agronegócio mundial, o país continua a produzir famintos não só de comida mas de tantas outras fomes, de justiça, saúde, educação, moradia. Um país distante daquele gigante que todos sonharam, por nossa própria incapacidade de autogestão.

Empresas, governo e sociedade têm o poder, a capacidade de criar soluções. Mas falta o que eu chamo de Inteligência Social, que nos traga uma perspectiva de um mundo sem fomes! As pessoas são as responsáveis pela construção do mundo à sua volta e é preciso expandir a Inteligência Social para a sociedade, com todas as camadas que a compõem integradas e correlacionadas conscientemente, no intuito de criar um tecido social saudável.

E é nessa hora que eu, se pudesse, gritaria em um megafone: ACORDEM! Só a inteligência voltada para o coletivo pode construir o necessário para que haja justiça social e uso sustentável dos recursos naturais, para criar riquezas em vez de desperdiçá-las! É necessário mudar a forma de fazer política e a estrutura econômica, além de criar um novo currículo educacional para que crianças e jovens aprendam a se conhecer melhor e a viver em sociedade, dando e recebendo de forma construtiva. Isso começa dentro do quintal de cada pessoa, cada político, cada empresário, cada professor!

Vamos olhar, prestar atenção. Acordar para a realidade e não alimentar as tantas fomes geradas por todos os atores sociais, pela sua incapacidade de enxergar e corrigir o necessário. Essa incapacidade tem que se transformar para virar capacidade! Este é o nosso desafio!

Antes da pandemia, 57 milhões de pessoas viviam em insegurança alimentar no Brasil. Agora, metade do país vive em insegurança alimentar. O que isso tem a ver com cada um de nós?

(*) Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, desenvolvido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN)

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Imagem: Arte/UOL

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