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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Líderes de verdade e o princípio de realidade de Freud

Guilherme Bcheche

Guilherme Bcheche

Guilherme Bcheche é psicanalista e consultor de estratégia e desenvolvimento de lideranças. Mestre pelo INSEAD com distinção, é professor de liderança na Fundação Dom Cabral e cofundador da Polifonia Escola de Transformação. Dedicou mais de 15 anos de sua carreira para apoiar líderes ao redor do mundo na solução de problemas complexos e, por vários anos, fez parte do time da McKinsey & Company.

07/04/2021 06h00

A pandemia já fez aniversário e não tivemos sequer um líder no Brasil, seja da iniciativa pública ou privada, que conseguisse colocar o país numa direção de preservação da vida e da esperança. Entre trocas de ministros, rixas entres governos, aberturas e fechamentos de hospitais de campanha, desvios de dinheiro usados para combater a covid-19, nenhum líder brasileiro foi capaz de levantar a voz. Somos vítimas da covid-19 e, pior, da falta de liderança.

Estudo e trabalho com lideranças há muitos anos: como psicanalista e consultor, já ajudei a formar líderes de grandes corporações e tenho atendido grandes CEOs em crise e nunca vi tamanha ausência de liderança no Brasil. Talvez porque, nos últimos tempos, nunca houve um chamado tão gritante ao aparecimento de lideranças como nesse que tenha deixado escancarado o vazio da liderança de verdade.

Isso me faz lembrar da palavra "protagonista", ou seja, "protos"-"agonistes": aquele que está à frente e não acima de ninguém, que aguenta porrada, que decide correndo risco, que abre mão do seu status quo por um bem coletivo e que, essencialmente, coloca um grupo, uma comunidade em movimento. Testemunhei, neste ano pandêmico até aqui, líderes de times, comunidades e de outros grupos menores fazendo de tudo para apoiar os seus. O que não vi foram vozes para o país, para toda a população.

Por um lado, temos que admitir que, em 2020, diante de um novo vírus e de incertezas de suas causas, sintomas e efeitos, tivemos que esperar para entendê-lo minimamente. Demorou um tempo para que as autoridades científicas pudessem nos orientar com intervenções assertivas. Por outro lado, mesmo depois da definição de protocolos de saúde pública, ficou evidente, pelo menos no Brasil, que não pensamos no coletivo. Na ausência de vozes de lideranças insistentes, o "salve-se quem puder" reinou: governantes desgovernados; presidentes de empresas, mesmo fazendo doações aos governos, esquecendo que são as principais referências de uma "razão social", intelectuais se manifestando em redes sociais cujos algoritmos programados para que os posts apareçam apenas para suas tribos.

Todos se escondendo em seus refúgios - reais ou virtuais - esquecendo que o conceito de liderança contemporâneo está muito mais relacionado à influência mútua, com o foco no desenvolvimento de outros e do sistema, ou seja, do coletivo, em vez do próprio umbigo. Estamos carecas de saber que falta educação de qualidade no país. Acrescentaria a falta de educação para liderança - liderança com um olhar generoso, social, coletivo, sistêmico.

"Mas essa não é função do presidente? Não só dele. Claramente, essa não é uma qualidade do nosso presidente, o que não me surpreende. A surpresa está exatamente em perceber que essa também não parece ser uma qualidade de outras vozes relevantes do Brasil - que só resolveram se manifestar depois do discurso do ex-presidente Lula.

Não sou petista nem lulista. No entanto, vi no discurso dele uma mudança de rumo de todo o Brasil. Lula encorajou o país a fazer o certo: se movimentar em direção à saúde e ao bem coletivo. Até o dia do pronunciamento, onde estavam os presidentes de grandes empresas, outros políticos, intelectuais e artistas? Onde eu estava? Onde você estava? A resposta para grande parte de nós é: no silêncio, no cansaço, na desesperança.

Segundo o "princípio do prazer" de Freud, buscamos o prazer imediato a todo custo. Evitamos a dor e o sofrimento em detrimento das nossas necessidades imediatas de sentir satisfação. Foi o que fizemos, egoicamente, nas festas clandestinas desde o Natal até o Carnaval. Contrário ao "princípio do prazer", existe o "princípio de realidade", do qual também estamos dotados. Ele consiste em adiar o prazer imediato por uma aposta no futuro. Isso é o que fazemos quando enfrentamos dificuldades com paciência. Para o Brasil, esse futuro não tem outro caminho senão o do coletivo. Sem pensar no público - no que é de todos, para todos, com todos, por todos - não será possível fazer valer o individual. Exatamente o contrário do que estamos fazendo, sistematicamente, desde março de 2020. Para o futuro, precisamos de líderes corajosos, reais.

Grandes lideranças aparecem principalmente nos momentos de crise. Ou deveriam aparecer. E é impressionante ver os efeitos do discurso ousado de um ex-presidente que, guardadas todas as críticas, foi capaz de colocar os silenciosos em movimento: carta de empresários e intelectuais, unidos, direcionada ao presidente da república; falas a favor da ciência de presidentes de hospitais, discurso do próprio presidente da república em rede nacional a favor daquilo que foi ele contra até então. Precisamos que mais pessoas levantem a voz e sustentem suas posições.

Um convite aos líderes públicos e privados do Brasil: levantem-se da poltrona, saiam de seus refúgios, rompam o silêncio. Adiem a busca pelo prazer imediato, apostem no futuro. Sejam protagonistas.

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