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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A falta d'água é notícia onde você mora?

Photorama/ Pixabay
Imagem: Photorama/ Pixabay
Débora Britto

Débora Britto

Mulher negra, feminista, jornalista antirracista, defensora dos Direitos Humanos e ativista pelo Direito Humano à Comunicação. Foi repórter na Marco Zero Conteúdo, veículo de jornalismo independente e investigativo de Pernambuco. Constrói o Coletivo Terral de Comunicação Popular e é mestranda em Comunicação e Cultura Digital pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

10/03/2021 04h00

Falta água nas torneiras. Às vezes, por até 20 dias. Essa é a realidade de dezenas de bairros e comunidades de periferias de Recife, capital de Pernambuco. Mas isso, curiosamente, talvez não seja novidade. Muitas pessoas sabem que existem lugares em que a falta de água é praticamente característica local. Difícil, na verdade, é encontrar notícias que expliquem o porquê isso acontece e que mostrem quem são as pessoas mais atingidas pela falta de água.

Na semana que iniciou com o Dia Internacional da Mulher, milhares de pessoas estão há 20 dias ou mais dias sem ver água chegar na torneira. A maioria dessa população é de mulheres negras, empobrecidas, mães, chefes de família e trabalhadoras. O primeiro 8 de março com uma pandemia descontrolada, com ausência de políticas públicas, e a urgência de manter em segurança familiares e a si mesmas é marcado pela escassez com que muitas dessas mulheres enfrentam o dia a dia.

No Recife e nas periferias de outras cidades brasileiras, a falta de água é denominador comum que determina, entre outras coisas, o peso e o esforço necessário para encher baldes d'água, subir e descer escadarias, correr para lavar louça, casa, dar banho nas crianças durante a janela de tempo em que finalmente tem
"água da rua" chegando. Enquanto tudo isso acontece, é preciso reabastecer o estoque. Mais baldes, tonéis e caixas d'água para garantir os próximos dias, sejam cinco, dez ou mais.

Só quem já viveu, sabe, como diz um certo meme. Mas a real é que não tem espaço para riso nessa conversa, nem tempo a perder. Um dia sem água é complicado. Com dois ou três dias, a estratégia muitas vezes é de reduzir danos. Depois disso, existe a sobrevivência. As tecnologias sociais e ancestrais para viver nessas condições são de responsabilidade das mulheres que gerenciam, organizam e se ajudam para garantir o mínimo.

Em 2020, no começo da pandemia e com lockdown em diversas cidades, entrevistei diversas mulheres periféricas que, naquele momento, estavam em casa com os filhos, algumas sem trabalho e na expectativa do auxílio emergencial. Perguntei o que mais as assustava diante daquele cenário: àquela altura, muitas das respostas foram o medo da fome, a falta de água e de dinheiro para comprar álcool em gel como alternativa para garantir a prevenção à covid-19.

Não é acaso que sejam as mulheres, especialmente as negras, as mais afetadas e sobrecarregadas pela pandemia. A pesquisa "Sem Parar -- o trabalho e a vida das mulheres na pandemia" evidenciou como as desigualdades raciais e de renda foram decisivas para entender como as mulheres vem atravessando a pandemia: 40%
das delas afirmaram que a crise do coronavírus e o isolamento social colocaram a sustentação da casa em risco (desse universo, 55% eram mulheres negras), com comprometimento imediato na comida na mesa. E mais: 58% das mulheres escutadas que estavam desempregadas são negras.
Um ano depois, a realidade de muitas delas não mudou. A desigualdade social escancarada pela pandemia expôs algo estrutural, muitas vezes já naturalizado até pela mídia, que poderia pressionar por medidas e soluções, mas que não o faz. Um sintoma disso é um exercício simples, que qualquer pessoa pode fazer.

No sábado (6), na televisão, certo jornal exibia uma matéria sobre falta de água em um bairro de classe média, em frente à beira mar. O absurdo estava ali com todas as letras. Com tom de indignação, o repórter apontava para os baldes e panelas - até uma lixeira - utilizada pelos moradores para estocar água. Do alto de prédio, a poucos metros da praia, na janela de um apartamento com vista para o mar, vários minutos foram destinados para a denúncia de algo profundamente errado.

A rotina de falta de água na casa de Maria*, mãe solo de duas crianças e moradora de conjunto habitacional na periferia de Recife que só vê água na torneira de 15 em 15 dias, durante 2 horas, é exatamente isso: rotina. No Recife, desde janeiro mais de 30 bairros e milhares de pessoas têm sobrevivido à falta de água por semanas, mas uma busca por notícias resulta em listas de bairros que serão impactados, rankings, calendário do racionamento.

A naturalidade com que a palavra falta se faz presente na vida de quem não chega a ser citada por nome e sobrenome é estarrecedora. Ou pelo menos deveria ser. Deveria saltar aos olhos, estar em chamadas de notícias. Mas quem, afinal, permitiu que o absurdo, para alguns, fosse banalizado? Estruturalmente, do que estamos falando quando não falamos da falta de água? É preciso pensar quem são as pessoas mais afetadas e porque essas histórias não são contadas. A resposta para isso tem relação íntima com outro debate pouco privilegiado pelo que chamamos de grande mídia. Tem a ver com estrutura social, com racismo, divisão sexual do trabalho e classismo. Para começar a responder, o primeiro passo é reconhecer o absurdo que é silenciar vozes de mulheres, negras e periféricas. A partir daí, continuamos a conversar.

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