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Empatia e(m) transformação

Flavio Bassi

Flavio Bassi

É antropólogo, educador popular e biólogo com mais de 20 anos de atuação no campo social no Brasil e no mundo. Foi fundador e diretor executivo da Ocareté, atuando com povos indígenas e comunidades tradicionais. Atualmente é vice-presidente da Ashoka, onde lidera a sua estratégia de Educação e Infância na América Latina.

04/11/2020 04h00

Nunca se ouviu falar tanto em empatia. Embora todo mundo tenha alguma ideia do que a palavra signifique, seu sentido é muito mais complexo do que pode parecer à primeira vista.

É muito comum achar que empatia se resume a "sentir a dor do outro". Isso não é por acaso, já que a palavra foi criada a partir do grego en (em) + pathos (dor, afeto, paixão). Mas a origem do conceito é bem mais recente do que imaginamos. Ele vem da teoria estética alemã da segunda metade do século 19, que cunhou o termo einfühlung (sentir em) para explorar a capacidade humana de "entrar" em uma obra de arte e sentir as emoções que ela provoca. Por exemplo, a sensação de prazer e calma que o quadro de uma paisagem idílica nos causa.

Essa projeção do sentimento humano para o mundo da natureza me parece um ponto de partida muito rico porque nos ajuda a pensar a empatia como um percurso de encontro ao outro, e não apenas um afeto pontual. Sendo assim, a empatia não é simples identificação com o outro, ao contrário, seu percurso só começa quando essa identificação termina.

Empatia é assim, e antes de tudo, exercício de alteridade. Habita no desconforto, acolhe o incômodo, o conflito e a dúvida - e não os silencia. Nutre-se da escuta e da produtividade infinita das diferenças. Eis aí a sua potência de transformação: não na busca de solução para o problema do outro, mas na produção de novas possibilidades de existência.

Nessa diversidade de existir também residem outras formas de conceber a empatia. Do sul da África herdamos a concepção de empatia a partir da filosofia do Ubuntu, comumente articulada como a máxima: "Eu sou porque nós somos". Segundo o arcebispo anglicano e líder antiapartheid na África do Sul, Desmond Tutu, a ética do Ubuntu tem a ver com a nossa interconexão, pois nos ensina que ficamos diminuídos quando outros são humilhados ou diminuídos e vice-versa.

A maioria das línguas faladas nas ilhas do Pacífico possui expressões que denotam a capacidade de compreender as emoções de outra pessoa e de olhar o mundo a partir de sua perspectiva. É o caso da expressão nanoanga, usada pelo povo banabano de Fiji e que poderia ser traduzida, literalmente, por "dar o coração".

Também está presente nas sociedades ameríndias. Há um provérbio dos indígenas cheyennes dos Estados Unidos, por exemplo, que aconselha: "Não julgue seu vizinho antes de caminhar com os seus mocassins". Os povos indígenas de língua tupi-mondé no Brasil possuem um radical, -atih, que é usado para falar da compaixão que uma pessoa sente por outra e evoca sempre uma noção de reciprocidade e troca: aquele que "recebe" compaixão, que cuida e sofre pelo outro, deve também retribuí-la.

Essas concepções ameríndias nos ensinam uma dimensão ainda mais profunda de empatia: a alteridade radical, ou seja, a nossa relação e trocas com os não-humanos. No perspectivismo ameríndio, o mundo é povoado de seres dotados de agência e cultura, cada qual se vendo a si mesmo como gente e todos os demais como não-gente. A partir dessas cosmologias em que a cultura é una e as naturezas múltiplas, a prática da empatia não se limita a uma espécie, mas é condição mesma de relação entre todos os seres que são afetados e se afetam mutuamente. Qualquer desequilíbrio nessas trocas pode provocar sofrimento, doença e morte.

As cosmologias ameríndias também nos mostram que para participar da sociedade é preciso, em primeiro lugar, interessar-se por ela. Esse encantamento com o mundo desperta em nós a vontade de cuidar dele e do outro para nos tornarmos, juntos, cada vez melhores. Ele nasce e se nutre da empatia. É por isso uma força de coesão social poderosa, fundamental para construir a solidariedade sem a qual nenhuma sociedade se sustenta.

Mas essa potência da empatia só se realiza na prática. É o caso do Diálogos no Escuro, criado pelo empreendedor social alemão Andreas Heinecke. Durante algumas horas, a sua intervenção permite aos participantes entrarem em um espaço escuro em que descobrem como é não conseguir enxergar. Os deficientes visuais tornam-se seus guias. Aqueles que são comumente objeto de discriminação e piedade despontam em sua plena potência. Já os que enxergam se tornam "incapacitados". Com essa inversão de papéis, os participantes aprendem a depender de seus outros sentidos para interagir e se comunicar e, no processo, desenvolvem um entendimento diferente de seus próprios limites e habilidades. Mas não para por aí: Andreas descobriu que a escuridão em si é um ambiente ideal de aprendizagem - entre seus benefícios, está o estímulo à produção de melatonina no cérebro, que ajuda na memória. Mais tarde, Andreas passou a desenvolver oficinas de diálogo semelhantes em zonas de conflito e pós-conflito, usando a troca de perspectivas para fortalecer a solidariedade social, o respeito e a confiança.

É a empatia em ação que multiplica a nossa potência coletiva de sentir e agir - condição fundante para transformar o mundo.

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