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Degradação ambiental não é a causa, mas a consequência da pobreza

O ministro da Economia, Paulo Guedes, representou o Brasil em Davos - Agência Brasil
O ministro da Economia, Paulo Guedes, representou o Brasil em Davos Imagem: Agência Brasil

Delcio Rodrigues e Silvia Dias

21/01/2020 14h42

É preocupante a recorrente falta de conhecimento, informação e dados por parte de membros do governo federal. Houvesse o ministro da Economia, Paulo Guedes, se debruçado minimamente sobre a questão da degradação ambiental no Brasil, nunca teria destacado a pobreza como sua causa. Pelo contrário: ela é uma de suas mais perversas consequências.

A pobreza leva à degradação ambiental? Talvez a uma parcela ínfima. Por exemplo, quando são ocupadas áreas de risco e destruída a mata ali existente. Mas este é um componente mínimo quando comparado à destruição ambiental que o país testemunha há séculos. Tomemos a Amazônia como exemplo: segundo cálculos do Ministério Público Federal, atear fogo em uma área de mil hectares custa cerca R$ 1 milhão ao mercado. Ou seja: embora o trabalho possa até ser desempenhado por pessoas pobres, quem financia essa operação está bem longe da linha da pobreza.

No final de outubro do ano passado, o procurador Joel Bogo explicou, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, que existe o desmatamento da pobreza, para fins de subsistência, mas que este representa um percentual marginal da destruição da Amazônia. O desmatamento de grandes proporções — que realiza cortes de 200, 500, 1 mil hectares de uma só vez — é financiado por grileiros que buscam se apoderar da terra pública, ou por fazendeiros que querem expandir sua área de produção sem levar em conta a legislação ambiental. Em resumo: nada a ver com a pobreza, mas com o crime, muitas vezes organizado.

Mas o inverso é verdadeiro: a degradação ambiental produz a pobreza. Levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) mostrou que os indicadores de qualidade de vida nas regiões desmatadas muitas vezes são piores do que onde a floresta está preservada. Mesmo onde a pobreza é semelhante, a qualidade de vida é totalmente diferente, já que a floresta oferece inúmeros recursos de subsistência, como peixes, frutos e ervas medicinais. Quando ela é suprimida, as populações precisam adquirir o que antes era de graça, acentuando a pobreza. Lucra apenas aquele que deu início ao círculo de destruição, pois o desmatamento gera um enriquecimento localizado e volátil graças à exploração predatória da madeira. O que se segue, no entanto, é a falta de recursos naturais e a baixa produtividade de um solo que perde a fertilidade.

A degradação ambiental produz pobreza também em ambientes urbanos: a falta de saneamento e de qualidade do ar comprometem a saúde da população, onerando seu orçamento e reduzindo sua produtividade. Não é só o indivíduo que sofre: os orçamentos públicos acabam invariavelmente defasados diante dos crescentes problemas de saúde pública causados pela degradação ambiental.

O enfraquecimento das políticas ambientais promovido pelo atual governo terá seu preço — no IDH e na fria economia. Nossas exportações, fortemente baseadas em commodities, encaram mercados cada vez mais preocupados com a sustentabilidade de sua produção. Até a China, considerada um mercado menos suscetível a argumentos ambientais, está começando a incorporar variáveis de sustentabilidade em suas cadeias de valor. Aliás, a China é um excelente exemplo: a despeito do enorme esforço das últimas décadas para elevar o padrão de vida da população, este é ameaçado pelos crescentes problemas de saúde causados pela poluição ambiental (do ar, da água, do solo).

Com mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados de extensão e uma economia fortemente baseada em recursos naturais, o mínimo que se espera é que o Ministro da Economia entenda das relações entre meio ambiente e economia — tema dominante em Davos, em virtude do urgente desafio global que é o enfrentamento da crise climática. É lamentável que ele chegue a esse encontro tão alheio à seriedade do debate.

*Delcio Rodrigues é físico, ambientalista e diretor executivo do Instituto Climainfo. Silvia Dias é relações públicas especializada em questões ambientais e diretora de comunicação do Instituto Climainfo.

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