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Eu não quero seu abraço!

Amanda Ramalho - Arquivo Pessoal
Amanda Ramalho Imagem: Arquivo Pessoal

Amanda Ramalho*

18/12/2019 04h00

"Quanta petulância!", você deve estar dizendo aí do outro lado. Tudo bem, chamei sua atenção. Sigamos?

Agora, peço paciência por alguns breves momentos, já que tive que exercitar a minha ao longo de todos esses anos. E, acredite, para uma ansiosa crônica, isso nunca foi — e nunca será — uma tarefa fácil.

Lembro de sofrer com um frio na barriga constante desde meus cinco anos de idade. Um medo sem explicações de situações corriqueiras sociais. Eu era a medrosa, a chorosa, a estranha da sua sala. Sim, essa era eu. E se você não estudou comigo, com certeza existiram pessoas como eu durante sua vida ao seu redor. Pense nelas nesse momento.

Mas por que não quero seu abraço? Porque você nunca me perguntou se eu gostava ou não de abraços! Ou sequer parou para pensar como me relacionei com eles ao longo da minha existência. Já esqueceu que eu era a chorona medrosa da sua sala?

Dizem que abraços podem acalmar. De fato podem mesmo, mas você já parou para pensar que, pelo meu histórico, talvez eles me deixassem mais acuada? Muitas vezes tensa e até paralisada. Eu fui acostumada ou, digamos, ensinada a abraçar? Você nunca perguntou antes de oferecer tal ato de generosidade!

Quando se tem depressão ou ansiedade, muitas vezes os dois juntos (por mais que pareçam antagônicas, essas sensações podem ser consideradas co-irmãs e se misturam o tempo todo) a gente sabe pouco do que precisamos, mas talvez a gente consiga saber com mais facilidade do que não precisamos.

Como assim, Amanda?

Explico: A tal da empatia só é conquistada quando nos despimos de qualquer julgamento e preconceito para sentirmos pela perspectiva do outro. Isso é fácil? Não mesmo! E, de verdade, se você ainda não consegue, mas tenta, pra mim está tudo bem, mesmo que por enquanto. Tudo leva tempo e cada um tem o seu próprio (sou ansiosa e convivo com a depressão desde sempre. Eu não vou te criticar).

O exemplo do abraço pode ser substituído por qualquer outro, mas, quando se oferece um abraço ou outro tipo de "ajuda" do alto da sua não-experiência com o sofrimento, você subestima tudo que aquele que sofre passa e já passou. A solução "abraço" surge como a mais simples, genérica e silenciosa, quase cruel: já recebi muito abraço "generoso" por ser o recurso mais rápido e sem comprometimento.

Solução silenciosa?

O que eu quero dizer com tudo isso é bem mais simples que petulante como brinquei no começo: Escute quem sofre, mas escute de verdade. Só quem está deprimido ou em crise pode dizer como você pode ajudá-lo.

E, antes de oferecer um abraço por que lhe pareça razoável e digno, seja um bom ouvinte. O abraço pode surgir naturalmente — ou nunca surgir.

Paz nos estádios.

* Amanda Ramalho é radialista há mais de 15 anos, há um ano com "Esquizofrenoias", podcast pioneiro sobre saúde mental.

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