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Por um futebol antirracista

Marcelo Medeiros de Carvalho, Diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol - Arquivo pessoal/UOL
Marcelo Medeiros de Carvalho, Diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol Imagem: Arquivo pessoal/UOL

Marcelo Medeiros Carvalho*

08/12/2019 12h05

Muitos dizem que o futebol é um reflexo da sociedade, mas será ele só isso? Afinal, é um elemento que possui as mesmas virtudes, problemas e conformações. E, nos estádios, no sistema de produção, nos gabinetes do poder o futebol, o futebol não é apenas um espelho, mas um refletor que opera da mesma forma que a sociedade. E que precisa ser analisado não apenas como esporte, mas como um elemento catalisador que consegue, como poucas coisas, mobilizar as energias populares e reconfigurar o imaginário social.

O esporte que dizem ser o mais popular do Brasil o é, se analisarmos como pode ser jogado pelas ruas, vielas, praias e qualquer espaço onde algo redondo role, não necessariamente precisa ser uma bola de couro, pode ser uma bola de meia ou uma laranja, mas, se olharmos para sua estrutura, vamos nos deparar com um esporte nem tão popular assim.

Outra questão que aproxima o futebol do imaginário de ser popular é que ele alimenta o sonho de meninos e meninas pobres, da periferia, que pensam no futebol como salvação, como possibilidade de ascensão social, talvez única.

Mas não só meninos e meninas pobres que enxergam o futebol como instrumento social. Se analisarmos a história deste esporte no Brasil, vamos encontrar muitas e muitas histórias de políticos que se utilizaram do futebol para construção de plataformas políticas.

E foi da crença na força do futebol como instrumento de inclusão social e de luta contra a violência e a discriminação que nasceu o Observatório da Discriminação racial no Futebol, projeto construído com o objetivo de monitorar e denunciar os casos de racismo no futebol brasileiro, assim como ações afirmativas que utilizem do esporte para combater essa chaga que assola a sociedade.

De 2014 para cá o Observatório se transformou na principal fonte de referência da questão racial no esporte brasileiro e através de seus Relatórios é possível se verificar o aumento dos incidentes racistas nos estádios. O que antes era visto apenas como um caso isolado hoje é possível afirmar em números que não são, nunca foram, incidentes esporádicos.

De 2014 para cá, já foram catalogados mais de cento e cinquenta denúncias de racismo, isso que o trabalho só apresenta casos noticiados pela mídia. Foram 20 casos em 2014, 35 em 2015, 25 em 2016, 43 em 2017, 44 em 2018.

Em 2019, ano de tensão política muito grande no Brasil, com crescimento de partidos de extrema direita e de opiniões racistas de autoridades nos microfones, os números aumentaram ainda mais. O ano ainda não terminou e já são mais de 50 denúncias no futebol brasileiro e 13 casos com brasileiros no exterior.

Mas, para não apontar apenas dados negativos, é possível afirmar que, em 2019, os clubes brasileiros começam a entender o seu papel social. O Bahia, através do seu Núcleo de Ações Afirmativas, impulsionou diversos trabalhos pelo Brasil. São ações que lutam contra a homofobia, o machismo e o racismo. Ainda estamos longe do mundo ideal, mas verificar clubes divulgando dados da desigualdade racial em suas redes sociais e em suas camisetas de jogo é algo maravilhoso. Em um país que reconhece a existência do racismo, mas não se enxerga racista mesmo com tantos dados sendo trazidos a tona por diversas entidades do movimento negro é um avanço.

A luta do Observatório neste momento é por quebrar o silenciamento imposto aos atletas de futebol. É preciso criar uma rede de solidariedade e apoio para que mais e mais atletas falem sobre o racismo, seja denunciando o incidente do campo, a perseguição em espaços comerciais, seja na busca por mais espaços fora das quatro linhas. Não se pode largar a mão de quem levantar a voz, não se pode deixar que ele seja apenas um, pois assim ele será o alvo. O futebol já silenciou diversos jogadores que tentaram lutar contra o racismo, mas chegou a hora dos atletas inspirarem seus admiradores não só no corte de cabelo, na roupa, na música.

*Marcelo Medeiros Carvalho é idealizador e Diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Tem MBA em Gestão Empresarial pela FADERGS (Faculdade de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul), em 2015, e é graduado em Administração de Empresas também pela FADERGS (2015). Concluiu curso de Extensão em Gestão Esportiva pela UNISC (Universidade de Santa Cruz do Sul). É estudioso da questão étnico racial, com formação no curso "Cidadania e Reconstrução da Identidade Étnico-Racial", da Universidade Livre, uma realização do CECUNECentro (Ecumênico da Cultura Negra). É palestrante pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol em seminários sobre o racismo no futebol e outros eventos com temática étnico-racial. Publicou textos sobre o racismo no futebol em diversos jornais, revistas e sites nacionais e internacionais, além do livro "Fragmentos: Contos da Vida Cotidiana".

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