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Histórias de contar o Brasil

Lívia Duarte integrou o primeiro ciclo de curadores de Ecoa - Arquivo Pessoal
Lívia Duarte integrou o primeiro ciclo de curadores de Ecoa Imagem: Arquivo Pessoal

Lívia Duarte*

Curadora de Ecoa

16/11/2019 04h00

Se eu, você e todos nós pudéssemos contar o Brasil, que histórias ouviríamos sentados na mesa do café? Se a gente pudesse desenhar o Brasil, assim a mão livre, que cor ele teria? Que sons iriam compor sua imagem? Que vozes, que tons, que palavras iriam traçar suas fronteiras? Que danças rabiscariam os estados?

Contaria do dia que estive em Miranda, em Mato Grosso do Sul, onde mergulhei nas águas da cultura indígena terena, li com os pescadores ribeirinhos e almocei com as crianças aprendendo a enlaçar as tramas com os mais velhos. Ou falaria da tarde em Niterói, em meio ao som dos violinos, violas, violoncelos e dos sorrisos dos meninos e meninas da favela da Grota do Surucucu - cada nota era um presente para abrir ouvindo Bach, Vivaldi, Michael Jackson ou Asa Branca.

Poderia dizer sobre a ida a São José do Paiaiá, o povoado que fica em Nova Soure, no coração da Bahia, quando conheci a maior biblioteca rural do mundo e seu acervo de mais de 120 mil livros. Também de quando sambei o dia todo com a loucura do bloco de carnaval no subúrbio do Rio de Janeiro, e me emocionei com os afetos na costura das fantasias, no grito-manifesto da letra do samba enredo, nas mãos que tocavam liberdade no tamborim. Ou da Amazônia das artesãs ribeirinhas, que tecem suas histórias nos objetos nascidos das suas próprias mãos, onde testemunhei a arte-política indígena abrindo espaços para comportar a natureza-mãe dos povos tradicionais, talvez contasse sobre isso.

Poderia falar de quando pude ouvir um poeta analfabeto recitando o alfabeto da resistência da vida para um jovem igualmente poeta, que traduziu em filme suas palavras. Tudo isso pulsando no sertão semiárido do Pajeú, em Pernambuco, que fica ali vizinho de Teixeira, na Paraíba, onde conheci as inúmeras criações que ajudam a facilitar a convivência com a seca e tornar a vida mais digna.

E também de Recife, local onde assisti às mãos musicais riscando o ar em formato de poesia, dando voz a sinais, à língua dos sinais que são ponte para a integração de corpos, sons e lutas.

O que conecta a artesã indígena Terena que trança sua identidade no cesto de palha ao menino que entre as fantasias e alegorias da loucura do bloco de carnaval faz do som do tamborim sua voz e seu protesto? O que conecta você a eles e elas? Entre tantas estradas em construção, que Brasil estamos ouvindo e sendo? Que sonhos reais eu, você e todos nós estamos compondo e contando na mesa do café quando o sol se põe às cinco da tarde?

Cada um desses lugares, cada uma dessas histórias, cada uma dessas pessoas está sonhando e compondo suas próprias narrativas e sendo ponte para contar outras. Juntas, em luta e em existência, elas percorrem um fazer coletivo que escreve a diversa imensidão Brasil. O café tá servido e hoje eu conto a história de um Brasil que pulsa no plural pelas próprias mãos. A potência trabalha em rede.

*Lívia Duarte tem formação em jornalismo e mais de 10 anos de experiência em Comunicação para o Terceiro Setor. Desde 2010, atua como Coordenadora de Comunicação da Brazil Foundation, fundação internacional que investe em iniciativas sociais no Brasil.

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