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Além do fit e do orgânico

Felipe Denz integrou o primeiro ciclo de curadores de Ecoa - Divulgação
Felipe Denz integrou o primeiro ciclo de curadores de Ecoa Imagem: Divulgação

Felipe Denz*

Curador de Ecoa

13/11/2019 09h28

Frequentemente somos bombardeados por modismos em relação à alimentação. Carboidratos, glúten, ovo, gordura, vegetais, vegan etc. De tempos em tempos, alguém descobre ou quer propagar um determinado olhar sobre algum alimento ou conceito. Entre idas e vindas, altos e baixos, nos últimos anos conheci um grupo de pessoas que me trouxe um olhar que ia além da tabela nutricional dos alimentos. Me foi apresentada a ideia de que era necessário também cuidar do ambiente onde nos alimentamos. Cada detalhe é fundamental para construir um cenário favorável a uma boa experiência alimentar. Isso abriu a possibilidade para muitas experimentações e descobertas.

Minha companheira e eu, desde o início da nossa relação, criávamos diferentes refeições que pudessem despertar os nossos sentidos. Além de pensar na qualidade dos alimentos e nos sabores, cuidávamos de detalhes, decoração e ambientação do espaço onde comeríamos. Isso passou a ser como um passatempo para nós. Disso tudo, aos poucos, fomos nos dando conta de que tinha algo novo que despertava: o entendimento de que o processo de construir a prática alimentar poderia gerar sensações maravilhosas. Ir à feira para escolher os produtos, cozinhá-los em companhia e depois degustar cada prato preparado geravam uma experiência muito mais completa do que apenas ir a um restaurante lindo e maravilhoso ou chamar uma entrega em casa. A diferença estava na "mão na massa" do processo.

Cada passo para uma boa experiência precisa ser pensado e executado por nós. Antes de comprar os alimentos, temos que pensar na experiência que queremos viver. Esse é o primeiro passo para criar algo espetacular. Juntos, decidimos o caminho a seguir e vamos à feira mais próxima de casa para escolher a base de tudo, alimentos orgânicos e frescos. A simples ida à feira já se torna algo único. O estímulo aos olhos e as conversas com os produtores enriquecem essa primeira etapa. Em casa, chega a hora de juntos darmos vida à segunda parte da experiência, cozinhar os alimentos, quase que como uma alquimia. Com o tempo de prática, cada gesto passa a ser sincronizado. Lavagem dos alimentos, corte, escolha certa dos temperos e cozimento. Passos executados em conjunto e que criam um ambiente mágico de conexão. Antes do término do cozimento, um dos dois já se antecipa e cria o melhor ambiente possível na sala. Nada rebuscado, apenas cuidado com amor para a terceira etapa, o compartilhar o alimento. Comida pronta, hora de se deliciar e perceber todos os sentidos sendo nutridos. Ao término do compartilhar, que inclui um bom papo, sempre cuidamos da última etapa da prática de se alimentar, o descarte dos resíduos. Cada item no seu lugar, sala e cozinha organizadas, a sensação de bem-estar é indescritível.

Esse ritual nem sempre é possível de acontecer. Muitas vezes somos engolidos pelos compromissos de trabalho e acabamos não conseguindo cuidar bem desses momentos. Está tudo bem! Acho muito difícil que alguém consiga viver sempre no ideal. O importante é que já construímos um repertório interno de sensações e habilidades para recriá-las. Com um pouco de planejamento e dedicação, temos conseguido manter uma boa frequência desses bons momentos em torno da mesa.

Estar atentos a tudo isso nos ajudou a descobrir o significado de um termo que já tínhamos ouvido falar mas não compreendíamos em sua profundidade, a comensalidade. Este é o conceito que define o ato de comer e todas as etapas envolvidas neste processo quando feitas em companhia, sendo algo que reflete a característica social humana de se relacionar. A palavra deriva do latim mensa, que significa 'conviver à mesa' e, somada ao significado de 'companhia' (do latim cum panes, 'dividir o pão com alguém'), reflete a base daquilo que moldou a história da alimentação e da humanidade. Esta prática, comum a todos seres humanos, quando feita com qualidade, eleva o senso de pertencimento entre as pessoas, gerando sensação de bem-estar, prazer e conexão. Entender todos esses conceitos permitiu que pudéssemos escolher inspirar outras pessoas a viver isso de forma mais frequente em suas vidas. Resolvemos guiar nossa atuação no mundo de uma maneira coerente e que contribua com a qualificação da comensalidade, principalmente nos grandes centros urbanos. Poder dedicar tempo à descoberta de estímulos e estratégias que respondam a vários desafios da vida contemporânea em sociedade virou nosso melhor passatempo.

Palavras soltas em rótulos, cores que tentam remeter à saúde e nomes de produtos industrializados já ocupam uma pequena parte do nosso consumo. Cada vez mais nos damos conta de que é necessário mergulhar no universo da comensalidade para encontrar respostas para a vida. Muito do que somos como sociedade se deu a partir do surgimento desta prática, muito tempo atrás. Nas últimas décadas criamos muitas estratégias para agilizar, acelerar e tornar a vida mais prática, porém estamos nos distanciando de coisas fundamentais à nossa existência. É importantíssimo abrir espaços de conversa sobre o tema para que juntos possamos construir os futuros padrões de alimentação e relacionamento. Estar com qualidade em companhia e em torno da mesa nunca foi tão necessário para experimentarmos momentos mais felizes.

* Felipe Denz é formado pelo programa Guerreiros Sem Armas, atuou como facilitador de diferentes ferramentas cooperativas e de mobilização social nos últimos anos. Transitou em diferentes grupos, como Germinar, Art of Hosting, Estaleiro Liberdade, Global Shapers e de estudos de Comunicação Não-Violenta. Entende a alimentação como o grande conector da vida e percebe a importância de cultivar beleza e práticas inspiradoras em torno da mesa. É sócio da Terra Mater, empresa que desenvolve utilitários e experiências que qualificam a prática de se alimentar, baseada no conceito da comensalidade. Integrou o primeiro ciclo de curadores de Ecoa, contribuindo, durante quatro meses, para a construção de pautas e busca de novos olhares para o conteúdo. Despede-se da função de curador com esta reflexão porque um novo ciclo se inicia, mas permanece conectado ao movimento para a construção de um mundo melhor.

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