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Notícias da Floresta

REPORTAGEM

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#LutoIndígena 5: Na Bahia e em SP: experiências distintas e semelhantes

Cerimônia Guarani Mbya na Terra Indígena Ribeirão Silveira.  - Divulgação/Prefeitura de Bertioga.
Cerimônia Guarani Mbya na Terra Indígena Ribeirão Silveira. Imagem: Divulgação/Prefeitura de Bertioga.
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A Mongabay é uma agência de notícias sem fins lucrativos que visa aumentar o interesse e a valorização de terras e animais selvagens, ao examinar o impacto das tendências emergentes no clima, na tecnologia, na economia e nas finanças em conservação e desenvolvimento.

28/06/2021 06h00

No litoral do Brasil, dois povos que vivem às margens do Oceano Atlântico, em duas áreas que foram uma das primeiras a ser ocupadas pelos colonizadores, na Bahia e em São Paulo, vivem experiências distintas, embora próximas, em relação a pandemia.

Rosilene Tupinambá é liderança indígena e conselheira de saúde que vive em Ilhéus (BA), na TI Tupinambá de Olivença, onde residem cerca de 5 mil tupinambás. Os primeiros casos de covid surgiram dentro da TI após um indígena ficar internado em um hospital.

A partir daí a covid-19 se alastrou e causou mortes, conta Rosilene. Sem contar com o apoio efetivo do governo federal, os Tupinambá se organizaram por conta própria tanto para criar barreiras sanitárias quanto para garantir a autossuficiência alimentar. Problemas crônicos, como o saneamento básico e o abastecimento de água, que é atribuição da Sesai/MS, se tornaram ainda mais críticos em um contexto de pandemia.

"A nossa preocupação maior era porque as lideranças corriam risco e as infecções dentro das aldeias aumentaram muito. Então precisamos nos organizar por conta própria, com parceiros locais, para tentar conter o vírus", relata Rosilene Tupinambá.

Mesmo que boa parte da população indígena da TI seja de jovens de até 24 anos, a importância das lideranças e o risco que correm os idosos é ainda maior, já que são poucos. Uma sabedoria que não pode se perder com uma doença evitável e que, agora, após tanto atraso, conta com vacina.

A primeira morte registrada de um indígena no Brasil por Covid foi justamente na TI Tupinambá de Olivença, um homem idoso que morreu em maio de 2020.

Por se tratar de área turística, com rodovias e fluxo intenso de pessoas, o controle foi prejudicado, afirma Rosilene. "Mas os nossos anciões nos ajudaram muito, especialmente com o conhecimento de manipulação das plantas", conta.

No meio da pandemia, os Tupinambá também precisaram enfrentar o risco de expulsão forçada. Uma decisão do STF de abril, atendendo a pedido da Defensoria Pública da União (DPU), suspendeu uma ação judicial que havia determinado a imediata desocupação de um grupo de indígenas do Conjunto Agrícola São Marcos.

A exclusão dos indígenas do contexto urbano da vacinação se repete na Bahia: 33 mil indígenas fora do plano de imunização vivem em áreas não demarcadas ou em contexto urbano na Bahia. Sem prioridade, embora morram mais em relação à população em geral e registrem mais casos, os indígenas precisam enfrentar a pandemia por conta própria.

Mas, no caso dos Tupinambá, a experiência em recorrer às ervas medicinais e o conhecimento ancestral indígena para combater e prevenir a covid coincide com o que foi feito pelos Guarani Mbya em São Paulo.

Cristine Takuá é uma liderança Guarani Mbya que vive na Terra Indígena Ribeirão Silveira, entre as cidades de Bertioga e São Sebastião, em São Paulo. Cristine conta que o principal método de enfrentamento que os Guarani Mbya adotaram na sua região foi o fortalecimento da medicina tradicional.

As orientações vieram em forma de sonho para o seu marido, Carlos Papa, um líder espiritual da comunidade. "Logo no início da pandemia ele sonhou com um ancião que já faleceu há muito tempo. E esse ancião falava para ele qual planta ele deveria usar caso um mal muito grande se aproximasse da comunidade", relata.

Indo até a floresta pesquisar essas plantas, o remédio começou a ser feito e foi usado de forma preventiva. "Todas as pessoas que tiveram os primeiros casos foram tratadas com essas plantas que ele sonhou. E ninguém teve o agravamento da doença. Todos ficaram aqui na aldeia, cumprindo isolamento, tomando os chás de forma preventiva", diz Cristine.

Além disso, os Mbya articularam diversas conversas com agentes de saúde, professores e figuras importantes na comunidade para articular a entrada e saída de pessoas, restringindo ao máximo a circulação.

"Nós colocamos esse conhecimento ancestral, tão primoroso e valioso, na prática. E estamos construindo no dia a dia as nossas estratégias de sobrevivência", conta Cristine Takuá.

Nenhum caso grave foi registrado na comunidade. E os Guarani Mbya conseguiram vencer a covid-19.

(Por Mauricio Angelo )

Esta reportagem foi financiada pelo COVID-19 Emergency Fund for Journalists, da National Geographic Society e faz parte da série #LutoIndígena publicada em seis partes na coluna Notícias da Floresta.

Notícias da Floresta é uma coluna que traz reportagens sobre sustentabilidade e meio ambiente produzidas pela agência de notícias Mongabay, publicadas semanalmente em Ecoa. Esta reportagem foi originalmente publicada no site da Mongabay Brasil.