PUBLICIDADE
Topo

Notícias da Floresta

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

#LutoIndígena4: Yanomami lutam na justiça pelo direito de velar seus mortos

Indígenas Yanomami protestam contra o garimpo.  - Victor Moriyama/ISA.
Indígenas Yanomami protestam contra o garimpo. Imagem: Victor Moriyama/ISA.
Mongabay

A Mongabay é uma agência de notícias sem fins lucrativos que visa aumentar o interesse e a valorização de terras e animais selvagens, ao examinar o impacto das tendências emergentes no clima, na tecnologia, na economia e nas finanças em conservação e desenvolvimento.

27/06/2021 06h00

Atacados sistematicamente pelos mais de 20 mil garimpeiros que ocupam ilegalmente o seu território, a maior TI do Brasil, os yanomami tiveram que lidar ainda cedo com as consequências da pandemia.

A morte de 3 bebês por coronavírus em junho de 2020 e o enterro em um cemitério comum de Boa Vista revoltou os indígenas. Na tradição yanomami, isso é inadmissível, explica Dario Kopenawa, um dos principais líderes do seu povo.

"Quando crianças morrem, não enterramos no chão porque é falta de respeito. Nossa cultura é muito diferente do que é a cultura do branco. Isso machucou bastante o povo yanomami", afirma Dario Kopenawa.

Normalmente, a família se despede do parente morto com seus rituais tradicionais - um choro coletivo na aldeia e o corpo cremado. Obrigados a respeitar o protocolo da sociedade não-indígena, os yanomami lutam até hoje na justiça pelo direito de se despedir dignamente dos seus mortos como a tradição pede.

"Isso foi muito chocante para a gente. Não se despedir, não fazer o funeral. Isso é totalmente fora da nossa realidade. A pandemia apagou isso", lamenta Dario.

De acordo com a visão yanomami, o Criador não permite que as pessoas sejam enterradas, é preciso cremar. "Isso não pode acontecer, é uma falta de respeito enorme. Somos povos diferentes, temos uma cultura diferente, tradicional, e nossos direitos precisam ser respeitados. Independente do tempo que levar vamos resgatar os corpos e levar para a aldeia", diz Dario Kopenawa.

A pandemia levou a vida de dezenas de yanomami e os casos de covid-19 superam 1.300.

O antropólogo Bruce Albert, que trabalha há anos com os yanomami, ressalta. "Dispor de um defunto sem rituais funerários tradicionais constitui, para os yanomami, como para qualquer outro povo, um ato inumano e, portanto, infame."

Baseados nas pesquisas históricas de Albert e nas consequências da pandemia entre os yanomami, os antropólogos Carlos Estellita-Lins e Marcelo Moura Silva produziram o primeiro artigo sobre essa delicada questão. Nele explicam, em resumo, como é o ritual funerário yanomami.

Entre os yanomami, os procedimentos para lidar com o corpo morto consistem em embrulhar o cadáver em palhas e içá-lo em uma estrutura posta alta nas árvores da floresta. Permanecerá em processo de putrefação, que objetiva separar a carne dos ossos. Os ossos, então, serão calcinados numa pira funerária junto aos pertences do morto, pulverizados e transformados em cinzas que serão condicionadas em cabaças.

Estas, então, são seladas e só voltarão a ser abertas no momento de fazer "desaparecer as cinzas" (poraximu). É o momento da realização do ritual propriamente dito, o reahu, em que se chora o morto junto aos corresidentes e visitantes. As cinzas serão, então, enterradas ou diluídas em mingau de banana para serem consumidas no ritual.

"O reahu é algo de importância vital para os vivos", afirmam os pesquisadores, já que são os vivos que "administram as fronteiras e as dinâmicas de distanciamento e aproximação entre vivos e mortos, parentes e afins, aliados e inimigos ao trabalharem o luto chorando, coletivamente, as relações do morto em vida."

Mas, como relatam o antropólogos, o reahu é, também, "fundamental para os mortos que podem, enfim, percorrer a trilha final para a vida póstuma. Os yanomami contam que, na morte, os componentes imateriais da pessoa se desprendem do corpo para se transformarem nos pore, almas-fantasmas dos mortos cujo destino, após a vida, é uma aldeia na floresta acima das costas do céu."

Para Estellita-Lins e Silva, "é preciso, urgentemente, reconhecer a particularidade das experiências indígenas" no contexto da pandemia. "Pois há um abismo insuportável entre a imposição de adaptações biosseguras e a violência de impedir totalmente o cuidado apropriado para com os mortos e o trabalho de luto para os vivos", concluem.

Enquanto isso, apesar das reuniões com o governo federal ao longo de 2020, da campanha internacional feita, das denúncias registradas para a Polícia Federal e ao Ministério Público Federal, o garimpo continua a levar a covid para dentro das aldeias e ameaçar a vida indígena, diz Dario Kopenawa.

"O governo federal não tem resposta para a gente. A situação está piorando. Não mudou nada. Estamos na luta para expulsar os garimpeiros que estão destruindo a mãe terra", relata o líder indígena.


(Por Mauricio Angelo )

Esta reportagem foi financiada pelo COVID-19 Emergency Fund for Journalists, da National Geographic Society e faz parte da série #LutoIndígena publicada em seis partes na coluna Notícias da Floresta.

Notícias da Floresta é uma coluna que traz reportagens sobre sustentabilidade e meio ambiente produzidas pela agência de notícias Mongabay, publicadas semanalmente em Ecoa. Esta reportagem foi originalmente publicada no site da Mongabay Brasil.