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Notícias da Floresta

REPORTAGEM

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#Luto Indígena3: Em Mato Grosso, xavantes enfrentam covid e agronegócio

Ritual funerário Xavante.  - Cortesia Hiparidi Xavante.
Ritual funerário Xavante. Imagem: Cortesia Hiparidi Xavante.
Mongabay

A Mongabay é uma agência de notícias sem fins lucrativos que visa aumentar o interesse e a valorização de terras e animais selvagens, ao examinar o impacto das tendências emergentes no clima, na tecnologia, na economia e nas finanças em conservação e desenvolvimento.

26/06/2021 06h00

Essa política de "etnodesenvolvimento" da Funai, que inclui o apoio financeiro, logístico e institucional para indígenas que querem se aliar ao agronegócio, enfrenta resistência da maioria dos líderes e tem ligação direta com a pandemia, as mortes causadas e o embate de culturas tradicionais que se veem ameaçadas com essas ações.

É o caso de Mato Grosso, estado que é o maior produtor de soja do Brasil. Na TI Sangradouro, que vive realidade diferente da do Xingu, o presidente da Funai, Marcelo Xavier, ao lado de deputados ruralistas que tem atuado para o desmonte ambiental no Brasil e grandes produtores de soja, se reuniu com lideranças indígenas no meio da pandemia e celebrou o cultivo de soja dentro de área indígena, o que atualmente é proibido.

Hiparidi Xavante, liderança que mora na TI Sangradouro, reserva que fica às margens da BR-070 e próxima a Primavera do Leste, um dos municípios campões em produção de soja, relata que a desorientação durante a pandemia foi total e isso contribuiu diretamente para a morte de muitos anciãos.

"Desde o início da pandemia o governo não se preocupou mesmo sabendo que a doença estava chegando. Não tivemos qualquer orientação. Perdemos muitos velhos, muitas mulheres ficaram sem maridos, muita gente ficou sem pai e isso afeta a transmissão de conhecimento para as novas gerações. No meu entender, essa política foi proposital", diz Hiparidi, acusando o governo federal de genocídio deliberado.

Marcelo Xavier, ao lado de Jair Bolsonaro, tem se dedicado pessoalmente a influenciar indígenas a adotar a mineração e o agronegócio em suas terras.

O contexto da pandemia não alterou em nada o fluxo de pessoas entrando e saindo da TI Sangradouro, especialmente pela proximidade da rodovia, incluindo invasão de terras. A liderança xavante questiona duramente as alegadas "parcerias" de sojeiros com indígenas a favor do agronegócio e a participação do presidente da Funai e de políticos dentro do território. Segundo Hiparidi, nunca houve consulta prévia, violando os direitos indígenas.

"A minha aldeia e outras aldeias nunca foram consultadas. Durante a pandemia, mesmo com a Funai alegando que fez barreiras, na prática entrou muita gente. Isso contribuiu bastante para contaminar nosso povo, morreu mais gente. Teve políticos fazendo campanha. E o pior de tudo é o arrendamento de terra dentro dos nossos territórios, mesmo na pandemia, com gente morrendo", cobra Hiparidi.

Segundo ele, esses eventos, como "inauguração de colheitas", serviram para intimidar os indígenas. Quem é contra o agronegócio fica acuado. Para Hiparidi, a plantação de soja dentro de terras indígenas viola os direitos conquistados na Constituição de 1988 e serve de alerta para os indígenas que não estão se dando conta dos riscos que isso representa.

"Isso é uma ilusão que foi implantada pelos ruralistas. Caímos nessa estratégia desde a invasão do Brasil. Poucas pessoas enriquecem com isso. Na pandemia, nenhum protocolo foi respeitado. Os ruralistas estão jogando agrotóxico nos nossos rios, envenenando nossas crianças e nossa comida. É um genocídio".

Mais de 70 indígenas xavante morreram com a covid-19. Os números reais, contudo, são maiores, diz Hiparidi. As lideranças orientaram os indígenas a não realizar os rituais funerários tradicionais para evitar aglomeração. Mas muitos têm resistido. Boa parte acabou fazendo e outra não, conta Hiparidi.

No ritual tradicional xavante, a família se reúne dentro de casa e convida famílias amigas para um choro coletivo que vela o morto. Depois de 15 dias a família se reúne novamente para um novo choro coletivo. Pessoas em posição de liderança no estrato social xavante recebem uma espécie de cruz, que é colocada sobre o local do enterro, um tipo de cemitério indígena.

Todos participam pintados com motivos tradicionais e muitos atualmente dedicam também mercadorias à pessoa morta. "É uma tradição milenar nossa. Os xavante precisam se despedir adequadamente dos espíritos que se foram", diz Hiparidi.

Diante do cenário, a vacinação anda a passos lentos. E os indígenas têm se organizado tanto para tentar manter seus rituais como para apurar denúncias de possíveis desvios de vacinas, o que prejudica ainda mais quem já foi duramente afetado pela pandemia.

(Por Mauricio Angelo )

Esta reportagem foi financiada pelo COVID-19 Emergency Fund for Journalists, da National Geographic Society e faz parte da série #LutoIndígena publicada em seis partes na coluna Notícias da Floresta.

Notícias da Floresta é uma coluna que traz reportagens sobre sustentabilidade e meio ambiente produzidas pela agência de notícias Mongabay, publicadas semanalmente em Ecoa. Esta reportagem foi originalmente publicada no site da Mongabay Brasil.