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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

LGBTfobia: quero dizer que estamos na beirada, e isso também é problema seu

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Imagem: iStock
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

23/05/2022 06h00

Houve um período na minha vida que eu achei que sempre teria tudo sob controle.
Eu sou esse tipo de pessoa que "precisa" calcular riscos, fazer projeções, medir consequências. Pra você ter uma ideia eu já terminei um relacionamento baseado em dados de uma planilha de excel.

Talvez, pra quem acredite nisso, seja apenas "indecisão", haja vista que sou do signo de libra. E verdade seja dita, uma vez fiz um grande amigo meu ficar 20 minutos parado comigo em frente à gôndola de escovas de dente enquanto eu tentava escolher uma para mim.

Seja eu "orientado à dados" — e confesso preferir dizer que é isso — ou de fato mais controlador do que deveria, esse período em que as coisas pareciam estar ao meu controle foi no mínimo, satisfatório.

O problema é que ninguém vai ter tudo ao seu controle sempre, e eu dei "azar" de algumas coisas sequenciais na minha vida, terem feito eu acreditar que sim.

Até porque encarar essa verdade no momento que ela chegou foi como olhar para um abismo.

Eu dediquei anos de trabalho em um lugar que eu me sentia mais em casa do que no meu próprio lar. É curioso como a gente fica confortável rapidamente quando temos com quem contar nas adversidades. E eu fiz grandes amizades que estavam lá, me ajudando a manter tudo no lugar.

Veja, foi neste lugar, e até mesmo por causa deste lugar, que eu me senti confortável e protegido para passar pela minha transição de gênero.
Este, dentre todos os meus cálculos e probabilidades, era o meu "porto seguro".

O problema é que nada dura pra sempre, e encarar mudanças é um desafio universal, não apenas meu.
Nesse meu encarar o mundo como eu sou, um homem trans, uma nova variável foi adicionada a essa equação. Variável essa, que eu não tinha previsto, e que eu falhei em calcular os riscos.

Eu errei. E esse erro custou caro demais.

Ok, aqui talvez eu esteja colocando a culpa na vítima, mas, como até então eu tinha um histórico de acertos, tomei pra mim essa responsabilidade. Mas ela não era minha.

Transicionar de gênero socialmente é um processo delicado. Dentro de uma organização, mais ainda.
Vão errar teu nome e justificar que não conseguem se acostumar, ou você vai precisar ficar sem tomar líquidos por 8 horas porque não há um banheiro em que você seja aceito. Para citar alguns.

Mas o problema mesmo vai ser se a variável adicionada for uma com tanto poder dentro daquela organização que ela literalmente vai conseguir fazer com você o que ela quiser.
Calma, vou contextualizar!

Provavelmente este período foi um dos períodos em que estive mais vulnerável durante toda minha vida. Não eram necessários grandes esforços para me ferir. E eu demorei para entender quem estava me ferindo de forma intencional.

Como já fazia anos que trabalhava neste mesmo lugar, conhecia e confiava nas pessoas fundadoras, e as tinha como pessoas amigas. Ainda as considero assim, apesar da distância que se criou desde então.
E eu confiei que o meu processo dentro daquela empresa seria olhado com o cuidado que qualquer processo deste tipo deveria ter. Confiei na variável que foi adicionada à equação da minha vida.

Algumas pessoas podem olhar para essa variável e dizer que "não foi por mal". Eu olho para essa variável com fatos e evidências (sim, eu sou o cara dos dados), e posso dizer que a líder de pessoas e cultura desta organização durante aquele período faltou muitas vezes com a verdade, justiça e caráter.

As maiores agressões que eu sofri por transfobia vieram desta mesma pessoa, de forma indireta. Me tirando acessos que políticas internas me assegurariam, manipulando situações, atacando a equipe que eu liderava, esquecendo as demandas que eram responsabilidade do cargo dela, mas que como eram para mim, não havia andamento. E esses ataques indiretos, eu acabava sabendo sempre por acaso, "por sorte".

E na oportunidade de confronto, em que eu só queria saber o por quê, tudo que parecia que não tinha como piorar, piorou.

Nada mais era velado. Agora era tudo explícito.
Talvez por conta do absurdo que isso tudo possa soar, você ache que aconteceu há muitos anos.
Não. Aconteceu 5 anos atrás, o que é praticamente ontem.

Como pode a pessoa responsável por "Pessoas e Cultura" dedicar seu foco para prejudicar alguém?
Também me perguntei isso. Só que eu me perguntei isso vezes demais.
Me perguntei tantas vezes que eu cheguei à uma conclusão surreal, de que o problema na verdade era eu. Afinal, nenhuma outra pessoa era tão atingida assim.
Aqui eu errei também. Errei em perceber, tarde demais, que o que me diferenciava das outras pessoas que não eram tão atingidas, era justamente o fato de eu ser uma pessoa trans.

E eu percebi que assim como "o controle", aquela aparente segurança, também era uma ilusão.
O que não foi ilusão para mim foi a beira da ponte que eu cheguei numa noite gelada, convencido de que tudo no mundo estaria melhor sem mim.

Mas eu tive um apoio para me mostrar que o que parecia ser um fim, em algum momento se tornaria para mim um novo começo. Um propósito de impedir que outras pessoas como eu chegassem naquele mesmo lugar.

Esse meu abismo tem nome, assim como os diversos abismos que outras pessoas enfrentam, também têm.
Mas o sobrenome destes abismos é o mesmo: LGBTfobia

Passamos pelo dia 17/5, que é o Dia Internacional Contra a LGBTfobia, e essa beira de abismos continua nos encarando.
Essa bandeira que enrolamos com orgulho em nossas costas, por mais que se pareçam com capas de super-heróis, não nos fazem voar. E nós não queremos chegar à beira de abismos.
O que você tem feito para impedir?