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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vida para todes no mês de combate à Aids

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Imagem: iStock
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

06/12/2021 06h00

Dezembro Vermelho é o mês de consicentização e prevenção sobre HIV e Aids, e eu conversei com Lua Mansano, travesti posithiva, arte comunicadora, multi artista e pessoa vivendo com HIV, para debatermos como hoje a desinformação leva ao preconceito e à discriminação.

Historicamente, a Aids, quando reconhecida nos anos 80, e chamada de "epidemia da Aids" um tempo depois, foi completamente responsabilizada à comunidade LGBTQIAP+ da época, relacionando à existência principalmente de homens gays e mulheres transexuais. Esse é um estigma que a comunidade toda hoje ainda carrega, e muito por conta do desconhecimento de como o HIV e a Aids hoje existem em nossa sociedade.

Não há cura, porém com o avanço dos chamados retrovirais as pessoas vivendo com HIV não estão mais "sentenciadas à morte" como ocorria décadas atrás. Atualmente, com essas pessoas seguindo o tratamento de forma correta, a carga viral se torna indetectável, fazendo com que o vírus se torne intransmissível.

Lua comenta que "para além da desinformação, é sempre a travesti que é colocada como a corpa que vive com HIV na sociedade e necessariamente sempre nos atrelam à prostituição (o que não é o meu caso e de muitas outras pessoas), trazendo maior estigma sobre o virus." Então existe uma generalização, que faz com que o preconceito com pessoas trans seja ainda maior.

Em contrapartida, como traz a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), vale o questionamento de quais são as pessoas que têm acesso ao tratamento e quais ainda ficam completamente de lado de uma questão de saúde coletiva. O risco de uma pessoa preta, infectada pelo HIV, morrer por Aids é 2,4 vezes maior do que o de uma pessoa branca, segundo a Vigilância Epidemiológica do Programa Estadual de Aids de São Paulo, em um dado de outubro de 2016. E reparem aqui como existe pouco investimento e interesse no entendimento dessas questões, visto que dados atualizados e órgãos responsáveis por esse mapeamento são praticamente inexistentes. A população em situação de rua, majoritariamente negra, possui 10 vezes mais chances de adoecer de Aids que o restante da população.

As travestis e mulheres transexuais, sobretudo as negras, possuem estatisticamente 49 vezes mais chances de ter a infecção do HIV que o restante da população.

A falta de olhar de prevenção para essas pessoas faz com que, além de colocar a vida delas em risco, toda a população LGBTQIAP+, mas principalmente as mulheres trans e travestis, sejam criminalizadas pela existência da Aids em nossa sociedade. O apagamento dessa pauta e a não existência de políticas públicas que cheguem até pessoas em maior vulnerabilidade é um projeto de genocídio da população travesti e trans negras.

Para além disso, pessoas vivendo com HIV precisam esconder esse fato para transitarem nos espaços sem que sofram o preconceito da sorofobia, que por falta de informações ou construções de estereótipos ainda acredita em formas mirabolantes de transmissão, como estar na mesma sala ou respirar o mesmo ar. A sorofobia é crime, mas ainda assim, as pessoas precisam esconder que vivem com HIV pois não existe proteção para este tipo de preconceito. Com isso, essas pessoas são negadas de afeto, moradia, empregabilidade, saúde emocional, e muitas vezes, em consequência de tanto preconceito, são negadas de vida. Vida essa que quem tirou não foi o vírus, e sim o preconceito.

No ambiente organizacional, Lua salienta que acredita que seja de suma importância o investimento por parte das empresas, com capacitações para o contingente laboral a respeito da pauta, pois afinal, as empresas são feitas de muitas pessoas e as pessoas precisam de informação. Esses espaços, assim como quaisquer outros, também devem ser espaços seguros para pessoas vivendo com HIV ocuparem.

Então neste mês vermelho, que possamos buscar informações corretas, de fontes confiáveis, para desconstruir os nossos preconceitos e assegurar que todos os espaços sejam de todas as pessoas, e que todas as pessoas tenham acesso a formas de prevenção, e que todas as pessoas que precisarem possam ter acesso ao tratamento.

Pois mesmo que não haja a cura para a Aids, há a cura para o preconceito. E isso só depende de você.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL