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Milo Araújo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mulher não deve andar de bicicleta!

Cena do filme "Wadjda" (cujo título no Brasil é "O Sonho de Wadjda"), da cineasta saudita Haifaa Al-Mansour - The New York Times
Cena do filme "Wadjda" (cujo título no Brasil é "O Sonho de Wadjda"), da cineasta saudita Haifaa Al-Mansour Imagem: The New York Times

Milo Araújo

06/08/2021 06h00

Sim, foi isso que ouvi. Em um filme em que uma menina tem o simples sonho de andar de bicicleta. Procurando por filmes com a temática do ciclismo, me deparei com essa película que me chamou a atenção em meio a tantos filmes semelhantes. Com suas temáticas de superação, e vindo de diretores europeus ou de diretores americanos, me deparei com essa joia rara que só me trouxe grandes surpresas.

"O Sonho de Wadjda" é um filme lançado em 2012 que conta a história de uma menina de dez anos que tem como maior sonho ganhar uma bicicleta para poder andar com o seu amigo. Parece uma história simples com uma temática infantil, se não fosse pelo local filmado e as questões que a impedem de realizar seu sonho de ter uma bicicleta, como o machismo que impera nas vidas das mulheres sauditas. Mas o filme vai além. Esse foi o primeiro filme longa inteiramente gravado na Arabia Saudita, também o primeiro dirigido por uma mulher, a cineasta Haifaa Al-Mansour.

Não foi um trabalho fácil de cumprir. Pelo simples fato de ser uma mulher em um país onde a teocracia rege o Estado. Talvez você não conheça o termo teocracia, mas a premissa você já deve ter visto por aí: a história de uma sociedade governada por líderes religiosos ou pessoas nomeadas por eles, que se dizem representantes de um deus, numa união total entre política e fé. Um país onde impera o machismo, esse apoiado por essa religião. Um país onde a mulher não pode nem andar na rua sem a companhia e autorização de um homem de sua família.

E por conta disso a cineasta passou por uma série de dificuldades ao iniciar sua carreira, de colocar em prática seu conhecimento, que era simplesmente teórico, desde sua formação em Cinema. Ao dirigir o filme, não podia ser vista junto a equipe de profissionais composta por homens. Tinha momentos em que tinha que dirigir os atores à distância, de dentro de uma van, por intermédio de walkie-talkie para respeitar as leis de seu país e não aparecer no meio da rua dando ordens em um set de filmagens, em meio a uma sociedade que ainda não reconhece os direitos femininos.

Situações privativas de direitos como estas vividas pela cineasta são apresentadas no filme pelas atrizes femininas. Situações que não só a atriz que vive a Wadjda, mas a mãe e as amigas vivem no cotidiano. O filme é um choque de realidade. Mostra o porque elas aceitam essas condições. Mostra como elas são condicionadas desde criança a aceitarem todas as atrocidades que uma mulher saudita vive. Apesar disso, o filme traz bons momentos, e até cômicos, creio que para trazer uma certa leveza em um filme com essa temática.

O filme te põe a refletir sobre os direitos das mulheres, direitos básicos como um simples andar de bicicleta lhe é tirado por puro capricho machista e retrógrado que rege uma sociedade inteira. Vale a pena dar uma conferida. Vocês podem encontrar nas plataformas de streamings.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL