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Mente Natural

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uma história de despertar coletivo

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Imagem: Divulgação
Emersom Karma Kontchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

23/01/2022 06h00

Muito daquilo que buscamos se baseia em mitos ou fábulas. Por exemplo, a história de coragem e heroísmo da pessoa que se aventura em uma árdua jornada solitária de aprendizado, transformação e recompensa. Mas, nesta atual era de colapso socioambiental massivo, talvez seja preciso um outro modelo, mais coletivo, para inspirar as transformações necessárias. É o que menciona o consagrado naturalista estadunidense Barry Lopez no livro "Horizon" (2019).

Comecei há pouco a leitura, mas já concordo. Não seremos salvos pela filantropia de nenhuma pessoa bilionária, governante de boas intenções ou alguma invenção revolucionária. Imagino que nossa melhor (e provavelmente única) chance repouse em um tipo de despertar ou organização coletiva.

Na espiritualidade que pratico também há uma história assim. Budistas também falam em segunda vinda: o Buda do futuro se chama Maitreya (palavra em sânscrito cuja raiz é "amizade"; em tibetano, significa "amor"). Um grande mestre budista e ativista vietnamita, Thich Nhat Hanh, diz que a história sobre a iminente chegada de Maitreya não é sobre um ser iluminado a nos guiar, mas sim sobre um despertar coletivo, que poderia transformar a vida neste planeta.

Lopez disse na época que as grandes histórias desse tipo para nos inspirar ainda estavam para ser escritas. Eu acho que agora realmente já começamos a vivê-las, além de já estarem aparecendo na arte contemporânea — como no livro "Overstory", de Richard Powers, que ganhou o prêmio Pullitzer de ficção.

Um exemplo é o despertar mundial (que no Brasil, como de costume, está atrasado) da parcela mais engajada de jovens em torno da luta para garantir um mundo habitável. Não é à toa, já que essa é a primeira geração humana que já nasce com a promessa de um planeta muito pior daquele que suas mães usufruíram (como diz Eliane Brum no imperdível livro "Banzeiro Òkòtó").

Como nos últimos artigos me concentrei em realidades mais desconfortáveis, vou compartilhar aqui a história coletiva de regeneração que pessoalmente visualizo, por ajudar em movimentos (como o Extinction Rebellion), que atuam por uma transição similar.

Espero que, o mais breve possível, acordemos coletivamente, nos dando conta do abismo para onde não apenas seguimos, mas onde já começamos a despencar. A atual emergência climática e a sexta extinção em massa merecem muito mais atenção e ação do que estão recebendo: no Brasil, a discussão sobre isso é quase zero. Fala-se sobre os desastres das alterações climáticas que causamos como se não tivessem sido provocadas (e que sistematicamente continuam sendo) — aliás, é exatamente sobre esse silêncio e negação gritantes que se trata o tão falado filme "Não olhe para cima" (que será lembrado como o "Dr. Fantástico" da guerra climática). Ou então a coisa descamba para o grotesco de se noticiar a destruição da Amazônia ao lado de infomerciais agro.

Então imagino que, com uma mídia que se torna mais responsável devido à cobrança da sociedade, a opinião pública chegue a forçar mudanças político-econômicas, como por exemplo, a criminalização do ecocídio e do modo como empresas compram governantes e parlamentares.

Mas isso se refere às medidas mais paliativas. O sistema político-econômico ainda continuaria o mesmo. Então, um trabalho de longo prazo essencial é repensar que tipo de democracia realmente queremos. Isso aqui está funcionando? Como já escrevi, eu acredito em democracia direta, sistema em que as medidas importantes do governo são decididas diretamente pela sociedade, em assembleias cidadãs.

Imagino que a disseminação desse modelo entre os mais diversos movimentos, e o consequente reconhecimento de sua eficácia e benefício, faça essa abordagem começar a ir se instalando pelas bordas. É um trabalho longo, mas definitivamente possível, como já está acontecendo na Europa e diversos outros locais.

Os desastres do clima degradado e da biodiversidade comprometida continuarão ocorrendo, mas com um sistema político-econômico que realmente beneficie as pessoas, poderemos ter um pouco de segurança na confiança de estarmos realmente fazendo tudo ao nosso alcance — o que definitivamente não é o caso hoje.

Mas o que impede uma transição nesse sentido? Os governos, mesmos os mais progressistas, não vão agir por si só, muito menos as corporações. Então, isso depende das pessoas se organizarem e cobrarem. O atual modelo para isso — baseado em petições, campanhas de conscientização, lobby de ONGs etc — não está dando conta. Como temos pouco tempo antes de desdobramentos irreversíveis muito mais graves, abordagens do tipo "ação direta não violenta" estão se provando mais eficazes politicamente, conforme demonstram os novos movimentos climáticos.

É o que vem acontecendo já há alguns anos no norte global, em países onde há ampla cobertura da mídia sobre a verdadeira dimensão do colapso ambiental, que aponta os culpados — basicamente, o conluio do poder econômico com o político. Por exemplo, aqui no Brasil, empresas que lucram com desmatamento e poluição financiam os políticos que vão aprovar as medidas necessárias para essas empresas devastarem e lucrarem à vontade.

Consciência e mobilização não surgem na escala necessária devido basicamente ao silêncio e negação (sutil ou explícita) da mídia, já que ela em si também é um conjunto de corporações bilionárias, que obviamente não vão mudar suas abordagens devido a algum altruísmo de última hora.

Então, boa parte do esforço necessário na conscientização/mobilização recai sobre a atuação em mídias independentes, redes sociais, espaços mais alternativos dentro da grande mídia (como esta coluna me permite) etc. Assim, contribuindo aqui com meus centavos, vou sugerir algo muito simples, que qualquer pessoa pode fazer. Sei que pode dar certo, pois é algo que faço e vejo outras pessoas fazendo.

É muito simples, mas ligeiramente radical: não vá com a corrente. A corrente é basicamente este sistema que está nos matando. Ativamente, se jogue na direção contrária. Por exemplo, não faça o que a maioria faz: não saia comprando tudo que lhe empurram, não assista reality shows (ou TV em geral), não acompanhe a vida de pessoas famosas, não fique se exibindo em redes sociais ou distilando ali opiniões sobre tudo e qualquer coisa, seja altruísta etc. Parece superficial, mas é assim que somos colonizados.

Se puder, tire uma boa folga do celular ou do conteúdo inútil de toda internet. Como diz a sabedoria popular, se algo acontecer que você realmente precisa saber, isso vai chegar até você. Então, vai notar a lufada de frescor, energia, criatividade e ânimo que invade a mente e corpo. Na verdade, já sabemos mais ou menos quanto tempo estamos jogando fora em coisas absolutamente inúteis. Então, concentre-se em algo útil, ou seja, que beneficie você e outras pessoas e seres ao redor. Ou vá fazer o que sempre sonhou, mas que o sistema impede. Parece tudo muito clichê, mas um ponto importante vem a seguir.

Você vai se sentir alienígena. Vai querer voltar para a corrente simplesmente para ser como todo mundo é. Na verdade, não ser como todo mundo é excelente. É isso o que permite a mudança. Então, procure gente que faz coisas assim. Entre movimentos socioambientais, por exemplo, há muitas dessas pessoas loucas-mas-genuinamente-sãs. Só de encontrar gente como você, que nem imaginava existir, já é uma alegria em si e, provavelmente, vai sentir a necessidade de se engajar ativamente em alguma causa de transformação. E aí pronto, basta continuar.

Não há como falhar. O desânimo que muitas sentem vem no contexto da mentalidade dividida que o sistema promove:

— Nós aqui sozinhos contra esse inimigo gigantesco e poderoso. É uma batalha perdida...

Acontece que não estamos sós, nem quando estamos. Integramos um tecido social e também natural. Qualquer coisa que fizermos repercutirá, tanto isoladamente quando em um coletivo. Mesmo que falhemos, a falha em si será útil para o aprendizado, talvez de outras pessoas ou movimentos, talvez no futuro. Ou seja, mesmo que algo dê errado na luta por transformação, o todo em si sempre ganha. Então, essa justificativa já não conta.

Um outro aspecto crucial, que sempre comento, é a importância de acolhermos o lado mais sombrio e horroroso do mundo e de nós mesmos. Todos queremos nos conectar com a beleza da natureza, ideais de perfeição, epifanias grandiosas etc. Mas ninguém quer olhar a própria sujeira, nossas porcarias imundas e venenosas.

Vale a pena reconhecer que esta estrutura destrutiva que coloniza o mundo, também está enraizada em nossos corpos e mentes. Fomos criados assim. Provavelmente, não só carregamos e reproduzimos estruturas supremacistas, divisivas e nocivas dentro de nós, mas no mínimo contribuímos de diversas maneiras para sua continuidade, nem que pela simples omissão ou indiferença.

Hoje, infelizmente, a maneira mais direta e óbvia para nos reconectarmos com nossa natureza maior é através da dor e do horror que devastam o mundo. Ao olhar de frente e acolher essa angústia como sendo a nossa própria, apesar de doer, isso em si também nos religa a dimensões ocultas que vínhamos ignorando.

Essa religação em si, se bem cultivada, é uma grande fonte de entusiasmo, amor e energia para o trabalho necessário de regenerarmos nossa existência.