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Mente Natural

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uma abordagem sustentável para a meditação

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Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

17/10/2021 06h00

Apesar desse título, tenho certa alergia à palavra "sustentável", devido a toda maquiagem verde que se faz hoje para a continuidade de nosso modo de vida destrutivo, agora numa embalagem verde, reciclável, talvez "neutra em carbono"... O que quero dizer com "meditação sustentável" é uma prática que continua beneficiando a longo prazo, além do "barato", ou fogo de palha, inicial.

Já que sou um monge budista e professor de meditação, por que escrevo quase que apenas sobre meio ambiente? Quase não falo aqui sobre meditação devido ao modo limitado como, em geral, essa prática é percebida. No imaginário popular, meditação está associada com busca pelo bem-estar, sensação de plenitude, uma solução que traz equilíbrio, saúde etc. E isso tudo integra algo como um pacote promocional de academia. Comprou, levou. Assim como escolhemos uma marca de salgadinho menos gorduroso, podemos escolher agora praticar meditação.

Não é tão simples ir contra esse tipo de percepção generalizada. Mas hoje será uma exceção, assim como a série sobre meditação focada no altruísmo que escrevi há uns meses.

Não há nada de errado na busca do bem-estar como sendo a motivação para a meditação. O que complica é a nossa definição de bem-estar. Geralmente, ela é inseparável da acumulação de ganhos pessoais. É por isso que, hoje, grandes corporações oferecem aos empregados cursos de atenção plena (ou "mindfulness"). Assim, serão funcionários mais focados e competentes, capazes de gerar mais lucros. E esses sistemas de enriquecimento pessoal também se entrelaçam indissociavelmente com a destruição da vida como conhecemos, se levarmos em conta o colapso ambiental de nossa civilização e suas causas econômicas — apesar da campanha de que tudo vai continuar bem com o expansionismo, agora, "sustentável" das corporações, e suas alianças políticas.

É por isso que, hoje, a fixação excessiva no bem-estar pessoal pode soar como algo extremamente tóxico e narcisista. No meio de uma catástrofe planetária, a preocupação é com a própria elevação material ou espiritual — que, na verdade, apenas nos lança mais fundo na ignorância sobre a doença. Claro que isso é apenas uma caricatura dramática para ilustrar a questão — na prática, nada é assim tão preto no branco.

O ponto é que ao ficarmos buscando bem-estar sem uma visão que leve em consideração também o bem-estar alheio, no final, o tiro sai pela culatra: terminamos cultivando um egoísmo narcisista e promovendo a continuidade de nossa autodestruição. Pode até haver, individual e superficialmente, a aparência de felicidade e conforto, mas no fundo é apenas outro sintoma de nossa psicose cancerígena coletiva, que corrói até nossa busca por sentido ou algo maior.

É por isso que sigo a mesma abordagem do Dalai Lama quando ele se comunica com o público em geral: o mais importante de tudo é cultivarmos altruísmo ou compaixão. Neste contexto, compaixão tem um significado um pouco diferente. Não se trata de misericórdia, mas sim de um reconhecimento de que todos estamos no mesmo nível, como uma grande família (que inclui também plantas e animais não humanos). Não há a superioridade espiritual da piedade. Pelo contrário, buscamos ajudar e contribuir, justamente por perceber a igualdade entre todos os seres: nos reconhecemos uns nos outros e, desse modo, também não é um sentimento, mas uma atitude.

O efeito de cultivarmos essa qualidade e nos inserirmos no mundo dessa maneira é muito mais benéfico do que uma atenção bem treinada — afinal, atiradores de elite também treinam atenção.

A atitude compassiva, com o maior número possível de pessoas e seres, é como um músculo que pode ser treinado e fortalecido. Há técnicas comprovadas para isso (por exemplo, como as descritas no artigo que relacionei antes). Assim, isso também é uma forma de meditação. A diferença é que ela foca em uma qualidade ética, de cuidar e ajudar, ao contrário de outros tipos de meditação, que são, no mínimo, neutras; e, no máximo, se tornam antiéticas, ao inflarem o orgulho e arrogância.

O cultivo da compaixão e do altruísmo é essa meditação mais benéfica à longo prazo. Ela não apenas é mais sustentável — no sentido de que sustenta melhor o bem-estar de quem a pratica e das pessoas e seres ao redor — mas também possui uma qualidade regenerativa, de cura. Bem praticada, pode curar nosso narcisismo doentio, nossa indiferença pelo sofrimento que espalhamos onde quer que encostamos e, assim, pode regenerar nossa relação com nossa própria natureza, que é inseparável do ambiente e dos outros seres com quem coexistimos em dependência mútua.

O efeito disso também expande nossa mente, aumenta nosso círculo de cuidado e torna maior aquilo que consideramos ser nossa própria identidade, tocando desse modo o coração de uma espiritualidade genuína — que não depende, necessariamente, de nenhum tipo de crença.

Convite para evento

Workshop online de meditação e cultivo de compaixão - Divulgação - Divulgação
Workshop online de meditação e cultivo de compaixão
Imagem: Divulgação

No fim de semana de 23 e 24 de outubro, vou facilitar esse workshop online de meditação e cultivo de compaixão (com abordagem laica), voltado para ativistas ou qualquer pessoa interessada na intersecção entre mudanças individuais e coletivas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL